InferênciasDistrito de Setúbal - os dados estão lançados
. PS quer reconquistar o Barreiro
Mais que a inauguração da electrificação da Linha do Sado o que aconteceu, no Barreiro, foi, talvez, o primeiro “confronto de rua” entre socialistas e comunistas, agora que estamos a pouco menos de um ano das eleições autárquicas.

Por Jornal Rostos
Na verdade, para tirar tal conclusão, limito-me a admitir como válida a tese de José Sócrates que a acção de protesto que se registou no Terminal Ferro Rodo Fluvial, por cidadãos do Barreiro, foi uma acção concertada e organizada pelo Partido Comunista Português.
Neste contexto, portanto, também é válida a tese contrária que as pessoas da comitiva que se deslocaram ao Barreiro, para aplaudir o Primeiro-Ministro, também o fizeram numa acção concertada e organizada pelo Partido Socialista.
Esta para mim é que é a questão de fundo, porque foi evidente que, no âmbito deste processo inaugural, existiram, sem dúvida, intencionalidades políticas de “demonstrações de força” na rua, pelas duas forças politicas de esquerda – PS e PCP - as únicas, que lideram autarquias no Distrito de Setúbal.
Já escrevi, em tempos, que o distrito de Setúbal vai transformar-se, nos próximos tempos, como um “laboratório político” que, de alguma forma, vai contribuir com influência decisiva, para a definição do papel e da importância das forças políticas de esquerda no contexto regional e nacional.
Setúbal vai deixar de ser a “outra margem”
Neste começo do século XXI, começa a ficar claro que a região de Setúbal vai deixar de ser a “outra margem”, a “outra banda” porque vai transformar-se na grande plataforma de crescimento de Lisboa, dando sentido às “teses de planeamento” há muito definidas no PROT, que apontam para a criação da “Cidade de duas margens”.
Lisboa vai dar o “abraço de urso” à região de Setúbal, vai absorver as suas energias e as suas potencialidades, estendendo-se para a Península de Setúbal.
A nova Ponte Barreiro- Chelas, o Novo Aeroporto de Lisboa, a Plataforma Logística do Poceirão, o crescente aumento da importância do Porto de Sines, o programa de requalificação da Área Ribeirinha Sul - Margueira ( em Almada); Siderurgia Nacional (Seixal) e Quimiparque ( Barreiro), entre outros projectos, vão contribuir para dar uma dimensão económica e social à região de Setúbal que serão determinantes para a construção do Portugal do século XXI.
A inauguração da electrificação da Linha do Sado com a presença do Primeiro-Ministro José Sócrates, foi, sem dúvida, de um grande simbolismo político.
José Sócrates, Primeiro-Ministro veio dizer, que passadas décadas, o Governo faz justiça aos cidadãos do Barreiro e, simultaneamente, veio demonstrar, com a sua presença, que o Governo vai dar uma atenção muito especial a toda esta região.
Por outro lado, a comitiva de socialistas veio demonstrar-lhe todo o seu apoio e afirmar, no “confronto” com os protestos “esperados” e “anunciados”, que o Partido Socialista não vai baixar os braços e vai mobilizar-se par o “combate de rua”.
Diferenças entre o PS e PCP no Barreiro passa por – credibilidade política.
Mas, façamos uma reflexão sobre este fenómeno político ao nível do concelho do Barreiro.
No Barreiro ao longo de anos viveu-se sempre, ao longo de diversos actos eleitorais, aquilo que sempre denominei por “ciclo pendular” – ou seja o PS vencia no concelho as eleições legislativas e depois perdia as eleições autárquicas para o PCP/CDU.
Recordo que no ano que o PS retirou a maioria absoluta ao PCP/CDU, o líder local do Partido Socialista, Aires de Carvalho, dias depois, expressava a sua indignação, reconhecendo a falta de apoio que existiu para com a estrutura local, por parte da Direcção Nacional dos socialistas.
Igualmente, Emídio Xavier que escreveu uma página histórica, ao conquistar a Câmara Municipal do Barreiro e deixando de rastos, por todo o país, os comunistas, ao sentirem que tinha sido perdido para o PS o “bastião comunista”, a “cidade vermelha”, recorde-se que ele, também, nas últimas autárquicas, que perdeu, não contou com grandes apoios da Direcção Nacional. Esteve, praticamente, sozinho com Aires de Carvalho nesse combate.
Uma coisa é real após a vitória dos socialistas, no Barreiro, nada será como dantes, porque o espectro de uma vitória pelo PS, nas autárquicas, é sempre um cenário em aberto, bastando para tal reflectir sobre a realidade das bases sociais de apoio eleitorais que os dois partidos contam actualmente no concelho.
O PCP já percebeu essa realidade e mudou a sua forma de estar e fazer politica ao nível local, sem abdicar da sua identidade ideológica. Tornou-se pragmático.
As diferenças, nos tempos de hoje, entre o PS e o PCP no concelho do Barreiro, passa, acima de tudo, pelas palavras – credibilidade política.
O PCP/CDU tem credibilidade política, tem liderança e afirma-se na vida local, mesmo perante eleitores com outras opções políticas.
O PS anda à procurar de si próprio, sem qualquer liderança com potencialidade de unir vontades, perdendo apoios, até, entre os seus próprios eleitores.
Luta pela reconquista do “bastião comunista”
Por esta razão, o que aconteceu no dia da inauguração da electrificação da Linha do Sado foi que José Sócrates, secretário Geral do PS, veio dizer aos socialistas do Barreiro, que podem contar com ele, com a Direcção Nacional do PS e com o Governo, na luta pela reconquista do “bastião comunista”. Organizem-se.
José Sócrates com o seu discurso efusivo sobre o Barreiro e justiça ao Barreiro, veio dizer aos socialistas do Barreiro que, na noite eleitoral autárquica, nas contas de perdas e derrotas, gostava de afirmar ao país – “Ganhámos o Barreiro”.
Porque o Barreiro é um símbolo nacional. O Barreiro é uma referência nacional para a esquerda, para todas as esquerdas.
Esta era uma vitória muito útil para os socialistas, muito particularmente para José Sócrates, neste tempo de confronto de esquerdas e quando o PS é empurrado politicamente para a direita.
Portanto, Carlos Humberto, presidente da Câmara Municipal do Barreiro recebeu, aqui e agora, o que pode dizer-se o primeiro “confronto político directo” para as próximas eleições autárquicas.
Foi José Sócrates que se afirmou como o seu primeiro adversário político.
De facto, neste momento, em que estamos a menos de um ano das autárquicas, e, não tendo o PS rostos locais que, até, aos dias de hoje, se afirmem como alternativa à liderança de Carlos Humberto, foi José Sócrates, que deu a cara para abrir as “hostilidades”, objectivamente, por esse combate de reconquista do Barreiro.
O PS utilizou o seu trunfo máximo José Sócrates e mobilizou-se em “força” para o “combate de rua”, demonstrando que vai dar tudo por tudo na região de Setúbal, onde, de certeza, quis afirmar, não vai temer as “lutas” na rua.
Por outro lado, é óbvio, que o Governo vai marcar presença na região, com inaugurações e sucessivas presenças, porque, afinal, a região de Setúbal vai transformar-se na grande plataforma de crescimento de Lisboa.
E, sem dúvida, José Sócrates veio dar um sinal político que, de facto, deseja que o Partido Socialista volte a reconquistar a presidência da Câmara Municipal do Barreiro e que quer, deseja, obter bons resultados no Distrito de Setúbal.
O Barreiro vai estar no centro das atenções do PS e do PCP/CDU
Mas, tudo indica que o PCP/CDU percebeu esta mensagem a nível nacional e, naturalmente, vai preparar-se para este grande “combate do século”, entre as esquerdas históricas, procurando manter erguida como sua a bandeira do Barreiro e, se necessário, reforçar a sua posição na “cidade vermelha”.
O Barreiro vai estar no centro das atenções do PS e do PCP/CDU.
Por essa razão, talvez, não tenha sido por mero acaso verificar-se que, dias depois, do “confronto de rua” no Terminal do Barreiro, numa manifestação realizada no Barreiro, pelo que foi divulgado com cerca de 1000 trabalhadores, esta iniciativa, contou com a presença de Carvalho da Silva, líder nacional da CGTP-IN, uma presença pouco habitual, nestas manifestações locais que sempre foram uma prática na vida barreirense, nos mais diversos momentos da luta política.
Há coincidências que, por serem coincidências, despertam a curiosidade e reflexão política, quase que pode concluir-se : o PS trouxe ao Barreiro o Primeiro-Ministro, em resposta o PCP/CDU trouxe ao Barreiro o Secretário Geral da CGTP-IN.
O PS trás o Governo.
O PCP/CDU trás os Sindicatos.
Cada qual usa o aparelho que tem para o confronto político e o lado da “barricada” politica onde se encontra a lutar pelos seus valores e princípios.
É de facto, o grande combate das esquerdas históricas em Portugal, neste começo de século que se avizinha nas próximas eleições.
E, na verdade, o Barreiro vai ser uma bandeira que todos querem erguer, pelo seu simbolismo e referência histórica.
O Barreiro já pagou muito por essa factura de luta pela Liberdade
O importante, com tudo isto, é que sejam as ideias e os valores em confronto que seja valorizados, com lealdade e não a mera luta pela manutenção do poder e influência política.
O Barreiro já deu muito à história da democracia portuguesa.
O Barreiro já pagou muito por essa factura de luta pela Liberdade.
José Sócrates veio dizer que, finalmente, fez-se justiça aos cidadãos do Barreiro.
Pois, que seja assim, e, na verdade, que não continuem a pagar os cidadãos do Barreiro e o Barreiro, mais facturas políticas…pelas suas escolhas e opções politicas. Faça-se justiça ao Barreiro.
Em suma, para o futuro político de 2009, o mais que se pode dizer é que, sem dúvida, os dados estão lançados.
António Sousa Pereira













