InferênciasBarreiro – as eleições autárquicas e a credibilidade politica

Por Jornal Rostos
O meu amigo Paulo Calhau, há dias, num comentário a uma inferência, colocava-me duas perguntas : Primeira: que entende por credibilidade política? Segunda: porque escreve que o PCP "afirma-se na vida local, mesmo perante eleitores com outras opções políticas"?
Num e-mail que lhe enviei, esclareci que, por princípio, não comento os comentários que fazem aos meus textos, assim como, de forma alguma faço qualquer tipo de comentário aos textos ou aos comentários no “Rostos”, mesmo quando alguns, por vezes, me são directa ou indirectamente dirigidos.
Ontem quando, escutava a entrevista do Primeiro-Ministro José Sócrates, a determinado momento, pensei , afinal o Secretário Geral do PS e Primeiro Ministro, está a dar as respostas, ou parte das respostas, às perguntas que me foram colocadas por Paulo Calhau.
Porque escreve que o PCP "afirma-se na vida local, mesmo perante eleitores com outras opções políticas"?
José Sócrates afirmou-se defensor da separação dos dois actos eleitorais – autárquicas e legislativas – porque sublinhou a importância da valorização da democracia local e, acrescentou, que acontece muitas vezes que eleitores que nas legislativas votam PS, nas autárquicas votam PCP ou PSD ( depende da região).
Ora, esta é, precisamente, parte da resposta, à segunda pergunta colocada por Paulo Calhau.
Nas eleições autárquicas, ao longo de anos, aqui no Barreiro, tem sido muitas vezes óbvio que existe uma franja do eleitorado que nas legislativas vota PS ou até PSD, que nas autárquicas, pouco tempo depois vota PCP.
É isto que eu sempre defini como o chamado “ciclo pendular” – PS vence as legislativas, PCP vence nas autárquicas.
Este ciclo foi quebrado em 2001 com a vitória de Emídio Xavier. Uma vitória que alterou muita coisa no Barreiro.
Um exemplo, recordam-se, no dia que Cavaco Silva, candidato a Primeiro Ministro veio ao Barreiro e a forma como foi recebido. As agressões que se registaram. O eco nacional do acontecimento.
E, mais, entre os apoiantes de Cavaco Silva eu vi pessoas que votavam PSD e, mesmo com estes acontecimentos, pouco tempo depois, nas autárquicas, sei que votaram ( porque o disseram) Pedro Canário, contribuindo para a vitória do PCP/CDU, num cenário que o PS retirou a maioria absoluta ao PCP/CDU.
E recordo este acontecimento para sublinhar que, há dias, quando o Primeiro Ministro José Sócrates esteve no Barreiro escutei gritos de protesto, não se registaram agressões.
Mas, digo-vos, o ambiente estava “explosivo” e com um pré-cenário “criado” ( intencionalmente, ou não), antes da chegada do Primeiro-Ministro que parecia estar latente o desejo de pelo ver pelo ar voar, por exemplo, um sapato.
Nada disto aconteceu e ainda bem, para a democracia e para a imagem positiva do Barreiro. Escutaram-se gritos. Uns apoiando. Outros criticando.
O direito à indignação faz parte das regras democráticas e da vida democrática.
Portanto, meu caro Paulo Calhau, nos dias de hoje e, de facto, como sempre assim foi, no Barreiro, pelas mais diversas razões históricas e epocais, em sucessivas eleições autárquicas, o PCP/CDU tem beneficiado dos votos de eleitores que não são da sua esfera politica – uns do PS, outros do PSD e até do CDS/PP ( como por várias vezes já aconteceu objectivamente na freguesia de Palhais), nas mais recentes autárquicas que ajudaram à vitória do PCP/CDU.
E outros dados poderiam ser focados, noutras freguesias.
A democracia local tem estas coisas, tem dinâmicas próprias – as pessoas conhecem-se e, por vezes, preferem votar em pessoas que lhes dão confiança, mesmo sendo de um partido que não corresponde às suas opções ideológicas, porque, encontram nas listas da sua força política personalidades, que conhecem e não lhes dão confiança.
Havia um político inglês que dizia, algo assim parecido – alguém pode enganar uma pessoa na vida, duas pessoas na vida, mas não pode enganar toda a gente a vida inteira. Pois…
Talvez, por essa razão as pessoas, como disse José Sócrates, por vezes votam PS nas legislativas e depois, nas autárquicas, votam PCP ou PSD, depende da região…e das pessoas.
Porque nas eleições autárquicas as pessoas contam…e , particularmente no Barreiro, existe um núcleo de eleitores que costumo denominar de “autóctones” – as famílias e grupos locais de raiz activa local – onde se cruzam pessoas de diferentes opções politicas e que de alguma forma influenciam as decisões finais eleitorais e a democracia da e na cidade.
Que entende por credibilidade política?
Quanto à primeira pergunta - que entende por credibilidade política?
Também, José Sócrates deu a resposta, quando no final da entrevista referiu que “este é o momento para que os políticos digam ao país o que fazer”, porque o “discurso da politiquice, do bota abaixo e crítica não é o que os portugueses estão à espera”.
Ora o que a oposição no Barreiro, neste momento crucial da vida do concelho e da região devia estar a fazer era a apresentar as suas propostas alternativas e deixar-se de politiquices e do bota abaixo.
Um dos grandes erros do PCP/CDU durante décadas foi que se fechou dentro de si próprio e deixou de sentir o pulsar da cidade. Parecia que se pretendia construir uma cidade dos comunistas e para comunistas.
Mas, mesmo nestes tempos o PCP definiu o Projecto POLIS, elaborou propostas para a zona ribeirinha, perspectivou uma “ideia” para o território da Quimiparque, lançou sugestões para a mudança do centro da cidade.
Mas, faltou-lhe dinamizar um grande debate sobre o “conceito de cidade e de concelho para o século XXI”, porque vivia demasiadamente preso ao conceito de “cidade-fábrica”.
Embora, sublinhe-se Carlos Maurício, o candidato derrotado pelo PS, tenha introduzido um esboço deste debate, consubstanciado na ideia de criação de uma “cidade-verde” em oposição à “cidade-poluição”, conceito este que tem vindo a ser desenvolvido em torno da discussão do Plano Municipal do Ambiente, mas que continua em “banho de maria”.
O PS, enquanto força emergente no concelho, como alternativa à esquerda, soube explorar os vazios do PCP/CDU.
O PS pegando nos conceitos emergentes no PROT da Área Metropolitana de Lisboa, dinamiza uma discussão de mudança no conceito de cidade, formula cenários para uma geração. Lança abertura de um debate sobre um novo conceito de cidade.
Mas um novo “conceito de cidade” está inequivocamente ligado a um novo “conceito de cidadania”.
“O melhor do Barreiro são os barreirenses” – esta ideia força, envolve todos os que vivem e sonham com um Barreiro, como terra onde querem viver e dar o melhor para os seus filhos e gerações futuras.
O PS tinha perante si, no poder, criadas todas as condições objectivas e subjectivas para gerar a discussão e o aprofundamento de um novo modelo de cidade.
Lançou o repto mas perdeu esta batalha, não significa que tenha perdido a guerra.
Porque, afinal por vezes, ficou-se com a ideia que deixámos de ter na prática a ideia que se estava a construir uma cidade para comunistas e começou a nascer a ideia que se estava a querer construir uma cidade para socialistas.
O que entendo por credibilidade é afinal a capacidade que uma força politica e os políticos têm para mobilizar os cidadãos, para a construção da cidade e da cidadania, independentemente das suas opções ideológicas – porque uma cidade é de todos e por todos deve ser discutida.
O PCP/CDU aprendeu esta lição. Por isso no Barreiro após a vitória e derrota do PS nada será como dantes, embora, exista residualmente esse espectro, por vezes, no quotidiano, do pensamento único, quer no poder, quer na oposição.
O PS falhou esta batalha, não quer dizer que tenha perdido a guerra.
O PS lançou o repto de uma cultura de mudança. Que diz, regra geral o PS hoje, é que aquilo que o PCP está a fazer no Barreiro, tudo, surgiu e nasceu no mandato do PS. Ora isto não dá credibilidade, nem é intelectualmente verdadeiro.
Aliás, quem hoje disser isto, como estou aqui a afirmar, que há mais Barreiro para além do PS, está, para alguns “escribas do reino” não facciosos, a cometer um crime e certamente esta opinião só pode ser produzida por um “perigoso comunista” ou “pró-comunista”.
Que mudanças culturais nas vivências e formas de fazer cidade e cidadania?
Em conclusão a credibilidade afirma-se nas ideias, nas ideias alternativas.
E, nos tempos de hoje, há uma ideia força que gostava de ver os políticos locais a debater – a identidade do Barreiro.
O Barreiro mudou. O Barreiro mudou na sua realidade empresarial. O Barreiro perdeu o seu papel de centralidade, enquanto espaço de empregabilidade e de referência industrial no país e na região.
O PS venceu as eleições no Barreiro porque lançou o repto da mudança, hoje, o que o PS diz é que a mudança é isto que está no terreno e que o PCP/CDU está a desenvolver o seu projecto de cidade.
O facto é que o projecto de cidade continua por discutir e aprofundar.
Qual é a identidade do Barreiro nos dias de hoje? Quais as ideias de mudança estratégica para a construção de um novo modelo de cidade?
Esta é uma discussão que continua em aberto. O projecto Quimiparque é uma parte desta reflexão e um elemento importante, a Terceira Travessia do Tejo e os seus impactos nas próximas décadas é uma reflexão que está em aberto.
Que mudanças culturais nas vivências e formas de fazer cidade e cidadania? Um debate que continua por desenvolver.
Um debate que tem quer ser feito por todos, com todos, comunistas, socialistas, sociais democratas, democratas cristãos, bloquistas, cidadãos com e sem partido. Uma cidade de todos para todos.
A credibilidade é esta energia que tem força para envolver nas diferenças.
A credibilidade é esta energia capaz de motivar as forças endógenas para uma cultura de mudança.
E, seja quem for que ganhe as eleições, tem que ser capaz de colocar este objectivo como matriz da sua acção politica. Ora é isto que tenho verificado ser a vontade e o querer de Carlos Humberto, actual presidente da Câmara Municipal do Barreiro.
Pronto lá estou a defender o Carlos Humberto !
Para mim a luta politica no Barreiro, nos próximos tempos, não pode, nem deve passar por esse comportamento bipolar – os comunistas são os maus e destruíram o Barreiro e o PS é o melhor do mundo e abriu os rumos do futuro do Barreiro.
Para mim, a luta política do Barreiro, passa pelo debate da “identidade do Barreiro”, pela discussão da “ideia de cidade”, numa dinâmica de “cultura de mudança” – a construção de uma cidade cosmopolita, com qualidade e capacidade de transportar consigo para o futuro a forma de viver e estar na vida de forma solidária.
E, digo-vos não se trata de discutir a “identidade barreirense” que alguns pretendem confundir com o PCP – os puristas do Barreiro Operário – ou a nova cidade emergente que outros querem confundir com o PS – os puristas das paternidades.
Trata-se afinal de discutirmos um “modelo de cidade”, uma estratégia de cidade”, uma “cultura de cidadania”, é, na capacidade de promover este debate que se conquista a credibilidade.
Somos a “cidade do basquetebol”!?
Somos a “cidade do associativismo”!?
Somos tanta coisa…
Somos …e que vamos ser neste contexto de competitividade entre cidades e zonas de crescimento da Grande Lisboa, que vai marcar a nossa região nas próximas décadas?
O PCP tenta lançar o debate. Foi essa tentativa de abordagem que assisti no Forum da Cidadania, mas será que galvanizou os agentes locais?
E o PS, onde anda? Que está a fazer? Anda por aí a discutir a paternidade, quando devia estar a retomar a sua estratégia de “cultura de mudança” que perdeu, porque perdeu …por si próprio.
O PS pensa pequenino quando pensa que é pai, padrasto ou pai afectivo do “Barreiro Novo” .
O PS, com este complexo da paternidade, esconde um ódio ao PCP que disfarça muito mal, quando, de facto, devia estar preocupado em apresentar alternativas e assumir o seu papel de oposição com vontade construir uma cidade onde, afinal, o “melhor do Barreiro são os barreirenses” – uma “cultura de mudança da cidadania”.
Alias, com esta discussão o PS até dá tiros no pé, porque está afirmar que o PCP/CDU está a fazer e pelos vistos bem, ou talvez melhor, aquilo que o PS gostava de ter feito e não fez por culpa própria. Dá força ao PCP/CDU.
É por todas estas razões que estou cansado deste discurso, pequenino, que os comunistas destruíram o Barreiro. Porque os comunistas são cidadãos do Barreiro, que amam tanto esta terra, certamente como os socialistas.
É que neste discurso nem sequer existem diferenças ideológicas. Existe politiquice e o dizer mal…por isso concordo com José Sócrates, a democracia local, tem dinâmicas próprias e até há eleitores que votam no PS nas legislativas e votam PCP nas autárquicas.
Afinal, é tudo uma questão de credibilidade…
E, como alguém dizia num comentário, afinal, nesta discussão de bipolaridades e das paternidades, até, esquecem que no Barreiro, existem outras forças politicas, que também foram “pais” de alguns filhos que andam por aí…
António Sousa Pereira













