Diz que é uma espécie de BLOGUE DE NOTAS do Barreiro«Fernando Pessoa no Barreiro»
Tudo feito com muito voluntariado e uma grande paixão
Um trabalho integrado num projecto de animação da Biblioteca Municipal do Barreiro que, naqueles anos 80, era considerada um exemplo e uma referência na Rede de Bibliotecas Públicas do país.
Estou convicto que, se a Câmara Municipal do Barreiro, com custos insignificantes, hoje, editasse em CD/DVD este trabalho e entregasse cópias nas escolas, ou fizesse a sua distribuição no âmbito de iniciativas integradas no Dia Mundial da Poesia, estava a dar um contributo interessante para divulgar o homem, a obra de Fernando Pessoa e gerar um sentimento de amor ao Barreiro e ao Tejo.

Por Jornal Rostos
Estive ontem, na Cooperativa Cultural Popular Barreirense, a assistir à noite de poesia dedicada a Fernando Pessoa. Escutei as palavras de Rosário Vaz, que nos proporcionou uma viagem ao encontro da vida e da obra do poeta.
Escutei deliciado aquela vivência de Jorge Cardoso que nos fez sentir o sol, o luar, as flores e, até, Deus a espreitar o som das palavras do poeta.
Escutei a entrega de Dário Valente e, também, a projecção de voz que sempre nos deslumbra, no dizer poesia de Manuel Alpalhão.
Mas, a noite começou com a projecção do filme – “Fernando Pessoa no Barreiro, um trabalho editado no ano de 1988, pelo Gabinete de Informação e Relações Públicas da Câmara Municipal do Barreiro.
Um trabalho realizado por Anselmo Costa, com base numa ideia que me ocorreu, naquele tempo, a propósito da realização de um Colóquio, na Biblioteca Municipal do Barreiro, realizado com o objectivo de assinalar o centenário do nascimento de Fernando Pessoa. Numa noite inesquecível de comunicação e poesia. Que também integra, outra parte do vídeo que não foi visionada.
Elaborei o guião/sinopse para dar corpo ao projecto, seleccionei os poemas, convidei o Carlos Ramos, na época no TESFAL – Teatro de Ensaio da SFAL para personificar Fernando Pessoa, e, por fim, ainda acabei por «dar» a minha voz, no estúdio, através da leitura de poemas.
Tudo feito com muito voluntariado e uma grande paixão, com gravações de poemas e acompanhamento de montagens, pela noite dentro, após um dia de trabalho, com total voluntarismo e apenas pelo gozo de produzir aquele projecto.
Era, de facto, um tempo em que ser Funcionário Público se misturava com uma enorme alegria de viver os dias, com um sentimento de entrega e amor pela comunidade.
Enfim, um tempo que, anos depois, seria caracterizado como sendo um tempo de «falta de massa critica» ou «falta de massa cinzenta».
O Anselmo que filmou. O Carlos Ramos que foi Fernando Pessoa. Todos nós vivemos com uma enorme entrega a realização deste vídeo – «Fernando Pessoa no Barreiro». Um trabalho integrado num projecto de animação da Biblioteca Municipal do Barreiro que, naqueles anos 80, era considerada um exemplo e uma referência na Rede de Bibliotecas Públicas do país.
Depois, como em muitas coisas, fomos ficando para trás e, hoje, já nenhum Secretário de Estado vem ao Barreiro para visitar a Biblioteca de referência nacional, como aconteceu, naquele tempo, por exemplo com Sousa Lara.
Estava sentado a observar aquelas imagens e uma grande emoção percorria o meu interior, por recordar instantes, situações que vivemos na realização, nas filmagens, que começaram com Fernando Pessoa/Carlos Ramos, na Tendinha, no Rossio, em Lisboa, a beber uma ginjinha e, por fim, acabaram no Barreiro, na Adega do Manuel da Galega, no Barreiro, de novo com Fernando Pessoa/Carlos Ramos, apanhado em «flagrante de litro» a beber a sua ginjinha.
Ah, é verdade! Aquele diálogo no final do vídeo foi real.
«Quem é aquele que vai ali ?» – perguntou um.
«É Fernando Pessoa.» - respondeu outro
«Ele está cá!» - acrescentou admirado.
Foi um diálogo que aconteceu junto ao Mercado 1º de Maio, entre dois homens que olhavam para Fernando Pessoa/Carlos Ramos quando atravessava a Avenida Alfredo da Silva, convictos que o poeta estava a visitar o Barreiro e que se deslocava para ginjinha do Manuel da Galega.
Estou crente que, se a Câmara Municipal do Barreiro, com custos insignificantes, hoje, editasse em CD/DVD este trabalho e entregasse cópias nas escolas, ou fizesse a sua distribuição no âmbito de iniciativas integradas no Dia Mundial da Poesia, estava a dar um contributo interessante para divulgar o homem, a obra de Fernando Pessoa e gerar um sentimento de amor ao Barreiro e ao Tejo.
Eu gozei imenso a produzir este trabalho. Sinto como seu «autor» que foi, sem dúvida, com as condições técnicas existentes e as limitações, foi das coisas que valeu a pena realizar e está aí com plena actualidade cultural.
Foi um extraordinário trabalho de equipa, aquele que existiu com o Anselmo Costa, com o Carlos Ramos, a Anabela – anotadora de pormenores – e a Célia André que também cooperou. Dava prazer trabalhar.
Enfim, tempos idos, dos quais fica a recordação e, por essa razão, ontem, ao observar aquele vídeo, senti no coração uma grande saudade de um tempo que vivi com a intensidade com que o sangue pulsa nos nervos, e, apenas com a alegria de construir os dias.
Mataram um dia isso dentro de mim…ainda transferi essa paixão, por uns anos para as vivências do associativismo e, afinal, parece que consegui sobreviver!
Hoje, procuro a «todo o vapor», já com muitos cabelos brancos, retomar a vivência dos dias com essa paixão - trabalhar com alegria e gozo.
Por isso luto todos os dias, com o pulsar dos meus nervos, e, no fundo do meu coração, acredito que vou conseguir.
Acredito que, afinal, a vida pode ser vivida com total entrega e gozo, com dedicação e alegria, fazendo o que gostamos e nos apaixona.
Tudo isto, recordei, ao rever este vídeo produzido no ano 1988!
Parece que foi ontem…um ontem que é já ali!
António Sousa Pereira
Barreiro – 14 de Março de 2009













