Diz que é uma espécie de BLOGUE DE NOTAS do BarreiroA cidade do Barreiro…afinal, ela move-se!

Por Jornal Rostos
Há aqueles que cultivam, no debate de ideias, uma visão do mundo que coloca no centro da vida os políticos, estabelecendo uma ponte, a meu ver incorrecta, com o conceito que “tudo é política”.
Não é, obviamente, a mesma coisa afirmar que “tudo é política”, porque tudo tem a ver com a “gestão da polis”, com o afirmar que tudo o que acontece no “fazer cidade” tem a ver com os políticos, com os erros, ou sucessos, dos políticos
Muitas vezes, os políticos funcionam como o “bode expiatório” de uma “sociedade civil” que opta pela inércia, ou por se submeter ao Estado – seja o Poder Central, seja o Poder Local - e nele coloca todas as responsabilidades e dependência.
Naturalmente que o Estado – Poder Local ou Central – tem um papel estratégico, na definição de políticas, até, porque, lhe compete gerir os nossos recursos, aquilo, afinal, que os cidadãos e as empresas, disponibilizam para o Orçamento de Estado.
Mas, o que pretendo reflectir e partilhar com os muitos leitores do “Rostos”, é, no essencial, um sentimento que me ocorreu, ontem, ao pensar sobre as vivências do Barreiro.
Ontem, de facto, o Barreiro foi marcado por uma diversidade de iniciativas, as quais, no seu conjunto dão bem a dimensão do papel e da importância da “sociedade civil” no “fazer cidade”.
A cidade que nós queremos é, na verdade, também a cidade que nós ajudamos a fazer.
Uma cidade não se faz com uma varinha de condão que tal, ou tal, politico, pega nela, move-a no ar e diz : «Faz-te cidade!»
Esta seria uma cidade construída por um qualquer “político” iluminado, senhor supremo, que por mágica determinaria o destino de tudo e de todos.
Uma cidade faz-se com os cidadãos. Uma cidade é feita com os cidadãos.
Uma das ideias-força que sempre senti como mobilizadora de vontades, talvez, por experiência de vida, em vivências concretas, é que uma cidade constrói-se tanto mais, quanto mais for capaz, de respeitar diferenças, cativar os cidadãos, mobilizar o seu tecido económico, educativo, cultural, desportivo e social, para a construção da cidade.
O Barreiro pelo que, ao longo de anos, tive oportunidade de viver e acompanhar é uma cidade que na sua “genética identitária” sempre cultivou a “vontade fazer”, sempre cultivou a “liberdade” como fio condutor do “fazer cidadania”.
Há muitos exemplos nas suas memórias. E, na verdade, nos diferentes exemplos, de vida associativa, cultural, desportiva ou educativa, o que encontramos, sempre, nessas circunstâncias, são pessoas que motivadas, entusiasmadas, organizam forças e mobilizam-se na construção de projectos que servem o “interesse comum”.
Tanta coisa maravilhosa tem sido feita no Barreiro, sempre que a sua “sociedade civil” se mobilizou e motivou no “fazer cidade”, algumas delas perduram como verdadeiros “monumentos de cidadania” pelos quais passamos e não somos capazes de olhar para eles e sentir essa expressão de vivência comunitária: o Ginásio do Barreirense; a sede da SFAL, no Lavradio, apenas dois exemplos.
Mas estes exemplos, também podem ser encontrados em experiências e vivências culturais ou desportivas – no Barreiro enquanto “cidade do basquetebol”, ou “cidade modelo de desenvolvimento do Xadrez”, ou nos Jogos Juvenis do Barreiro; ou no Projecto “A Viagem” da Comunidade Educativa do Barreiro, no Salão de Fotografia da CUF, nos Jogos Florais da CUF, nas vivências do teatro, da música, do desporto, da arte, da vida politica.
Experiências emancipadoras. Experiências de afirmação de valores individuais e colectivos.
Sobre tudo isto divagou o meu pensamento, quando, no dia 17 de Abril, ao olhar para a agenda de acontecimentos que nesse dia marcavam o pulsar da cidade.
Senti, de facto, que uma cidade é feita pelo querer das pessoas que fazem o seu tempo.
Uma cidade, uma associação, uma escola, é fruto das vontades que se mobilizam para fazer, ou não fazer.
No dia 17 de Abril, o Barreiro era uma cidade, agitada, uma cidade que respirava vida em potência criadora, mas, diga-se, esta é uma realidade que marca, ao longo dos anos muitos dias do nosso concelho.
Na Igreja de Nª Srª do Rosário, um concerto de órgão,como dizia, entusiasmado, António João Sardinha : “Isto está cheio!”.
Na SDUB “Os Franceses” pela noite dentro um concerto de «lendas da música livre no séc. XXI» no âmbito de uma tournée europeia.
No Alto do Seixalinho, o Núcleo de Árbitros, promovia o debate, de actualidade, sobre o tema : “A arbitragem na Evolução do Desporto” .
Na Cooperativa Cultural, outro debate, aqui uma conferência tendo como tema : “O Ateísmo”.
Na Biblioteca Municipal do Barreiro, decorria a reunião da Assembleia Municipal do Barreiro.
Mas, neste mesmo dia, à tarde, no Tribunal do Barreiro, realizou-se um debate tendo como tema : “Linhas Gerais das Alterações à Reforma da Acção Executiva”.
E, no mesmo dia, pela manhã, na Escola Preparatória Álvaro Velho, realizava-se um Simulacro para testar o Plano de Emergência da Escola.
Por fim, de registar, ao fim do dia, à noite, a Policia de Segurança Pública, promoveu nas ruas da cidade uma operação destinada ao controle e fomentar uma consciência de segurança e combate à criminalidade.
Este o pulsar da cidade num dia de Abril. Uma cidade com a sua «sociedade civil» activa, com os seus agentes a afirmar, por diversas formas, o direito e o dever de ser cidadãos de corpo inteiro.
É este Barreiro que eu gosto. Um Barreiro de cidadãos que recusam o silêncio e a indiferença.
Um Barreiro de cidadãos que não estão à espera que sejam os políticos que lhes digam para onde vão, ou como devem ir…porque querem ir por ali!
Este é o primeiro grande combate que o Barreiro tem pela frente, o combate pela cidadania activa, uma cidadania activa que não se limita, nem é determinada, pelos políticos da cidade.
Aliás, aos políticos da cidade, compete-lhes porque eleitos para tal, ser capazes de protagonizar um projecto de cidade que seja gerador de cidadania, que cultive a emancipação de projectos nas escolas, nas associações.
Os políticos da cidade devem ser capazes de protagonizar uma estratégia de cidade que, assumindo a autarquia as suas responsabilidades, sejam capazes de libertar a cidade da tutela autárquica.
O dia 17 de Abril, é bem um exemplo que a cidade respira, a cidade quer respirar, a cidade tem forças endógenas que, por si mesmas, podem ser geradoras de uma cultura que afirme acima de tudo o direito de viver cidadania.
O Barreiro tem que se reencontrar com a sua história e as suas memórias de LIBERDADE e de CRIATIVIDADE.
Porque o Barreiro, esta terra de muitas gentes, vindas de muitos lados, soube sempre cultivar a «sociabilidade» como vector de acção e porta que se abriu no «fazer cidadania» e «fazer cidade».
É por tudo isto que acho, que, aos políticos da nossa cidade, cada vez mais, pelos desafios do futuro e pela preservação de uma «identidade cultural», na forma de estar e ser barreirense, o que lhes é exigido, para além da defesa de valores politico-partidários é que sejam capazes de ser os portadores de uma estratégia que valorize a luta pela cidadania, a afirmação da cidadania.
Num tempo de perguntas, coloco aqui várias perguntas: Já tem a cidadania que quer? A sua cidadania resume-se a defender os valores do seu partido? Não há mais cidade para além da vida dos círculos político-partidários? A sua Escola é «actor» na vida da cidade? A sua associação tem vida própria? Há emprego na cidade que permita desenvolver uma cidade com vida própria?
Pronto fico por aqui, neste blogue de notas, sobre um dia de vida na cidade do Barreiro, que, afinal, como dizia o outro…ela move-se!
O Barreiro está a «respirar liberdade» sente-se, na vida politica e no pulsar da cidade.
Os políticos locais que melhor sejam capazes de protagonizar uma «cultura de emancipação» de reencontro com a história da liberdade e de cidadania, que orgulha os barreirenses, serão, sem dúvida, os políticos do século XXI, que o Barreiro precisa para retomar o seu papel de centralidade na AML.
António Sousa Pereira













