InferênciasAutárquicas no Barreiro - entre ser alternância ou ser alternativa
A conquista da presidência da Câmara pelo PS, no actual contexto, parece um cenário que não se coloca, embora, seja necessário aguardar pelos candidatos, um dado essencial para avaliar até onde o PS pode querer chegar neste combate autárquico.

Por Jornal Rostos
As eleições autárquicas ainda estão longe, pelo meio vamos ter as Europeias e eventualmente as Legislativas, caso estas não se realizem em simultâneo com as autárquicas.
No entanto, as autárquicas estão na rua e agitam as vidas nas mais diversas comunidades: os candidatos, os candidatos a candidatos e os candidatáveis, vão sendo conhecidos, ou apontados como prováveis.
No Barreiro, pelo que é dado a aperceber, o mês de Maio vai encerrar a fase iniciática de escolhas dos principais protagonistas nas lideranças aos órgãos autárquicos para a Câmara Municipal, Assembleia Municipal e para as oito freguesias do concelho.
Neste processo de divulgação dos nomes o Partido Social Democrata abriu o “dossier” e tem vindo a divulgar os seus diferentes candidatos nas freguesias.
Como sabemos para liderar a lista que será apresentada à Câmara Municipal do Barreiro o PSD lançou Nuno Banza.
O PCP/CDU anuncia hoje o seu candidato anunciado, como seria de esperar, Carlos Humberto, presidente da Câmara Municipal do Barreiro.
O BE pelo que foi referido vai, também, divulgar no próximo dia 23 de Maio, Mário Durval, o seu candidato anunciado.
O CDS/PP embora por confirmar, também vai divulgar, em breve, o seu candidato anunciado, que será Henrique Ferreira, presidente da Comissão Política Concelhia do Barreiro.
O PCTP/MRPP que habitualmente apresenta candidatura no concelho do Barreiro, certamente, como é habitual, só confirma a sua candidatura muito próximo do acto eleitoral.
O PS, consta que este fim de semana, reúne a sua Comissão Politica, em Coina, para debater as propostas de candidaturas que serão anunciadas por Amílcar Romano, presidente da Comissão Politica Concelhia do Barreiro.
Diversos nomes têm sido veiculados, no entanto, nos últimos tempos tem sido referido com alguma insistência, que o candidato à presidência da Câmara Municipal do Barreiro será o Coronel Santa Clara Gomes, residente na freguesia de Palhais.
Sejam quais forem os candidatos finais, cujo cenário global começa a ficar clarificado e, naturalmente, nos próximos dias o assunto será encerrado, para descanso das lideranças e para ter início o segundo round, que será o fazer e desfazer candidatos.
Ser alternância ou ser alternativa
Mas, outro aspecto, desta vivência das questões autárquicas será, para além dos protagonistas, que contam bastante nestas eleições locais, naturalmente outro aspecto a considerar será o programa eleitoral, as ideias que se apresentam para o concelho do Barreiro.
Há aspectos globais na vida do concelho do Barreiro que, de alguma forma, são consensuais e, portanto, pouco susceptíveis de gerarem grandes rupturas estratégicas quanto ao futuro do concelho do Barreiro e sua importância no contexto da AML e Península de Setúbal.
A discussão vai ser animada, talvez, em torno das “paternidades”, principalmente entre os dois partidos que vão, entre si, lutar pela conquista da presidência da Câmara Municipal do Barreiro – PCP/CDU e PS.
No actual contexto, pelo que se conhece da vida local e das dinâmicas locais, o PCP/CDU tem conseguido, neste mandato, diga-se o que se disser, gerado um sentimento de simpatia na comunidade, até, na verdade, pela inexistência de uma oposição com credibilidade política.
O PS ainda está arrumar casa. Primeiro começou por arrumar na gaveta as ditas “primárias” defendidas pela anterior liderança e por outros protagonistas e, agora, está nas mãos de Amílcar Romano, que será sempre, em última instância quem vai determinar, ou influenciar os candidatáveis e as estratégias de uma oposição que vai ser forjada, essencialmente, caracterizada por uma linha de acção anticomunista ( mas a-ideológica) e pela aposta na conquista do poder pelo poder, para termos essa noção, basta ler as ideias força que têm caracterizado a sua pré-pré campanha cujo vector central tem por base a ideia de construção de um “Barreiro Socialista”como sendo a construção em oposição a um “Barreiro Vermelho”…
Num concelho de esquerda, com forte consciência política, um concelho que já penalizou o PCP/CDU pelo seu autismo e, que, também, já penalizou o PS pela sua megalomania, são estes, de facto, os dois partidos que se colocam ao eleitorado como opção, pelo que, obviamente, irão contar no confronto mais que as ideias, serão os protagonistas, porque, na verdade, as ideias estratégicas, essas, com mais ou menos paternidade estão globalmente adquiridas.
Assim, o PCP/CDU parece que não tem pela frente um combate de ideias alternativas, de propostas ou modelos diferentes de cidade, vai ter pela frente um combate que assenta sobretudo num “projecto” de alternância.
O PS, até hoje, não se tem apresentado como alternativa mas sim como uma alternância, uma realidade política que facilita a vida ao PCP/CDU.
PSD tem dois amores – PS e PCP/CDU
O PSD, à partida, já admite que não está na luta pela presidência da Câmara Municipal do Barreiro basta ler o out door de lançamento do seu candidato Nuno Banza, onde está escrito – “candidato à Câmara Municipal do Barreiro”.
No entanto, o PSD parece querer lançar as bases de uma discussão sobre “políticas alternativas” confrontando o PCP/CDU com modelos e formas de fazer cidadania.
O problema do PSD é que tendo condições políticas para alargar a sua capacidade de intervenção na vida local, está prisioneiro, por um lado da sua dimensão política enquanto partido, e, por outro lado, querendo manter o seu papel de “partido charneira” divide-se entre dois amores o PS e o PCP/CDU.
Por um lado não lhe sabe bem que o PS ganhe, porque isso é uma vitória nacional para o PS, embora o PS, seja o seu aliado natural, como família política de proximidade
Por outro lado, não lhe sabe bem que o PCP/CDU ganhe porque, será obrigado a fazer um casamento “contranatura”.
E, mais, o PSD já se apercebeu que pode “esticar a corda” à vontade porque Carlos Humberto sabe e bem, gerir as intencionalidades políticas.
Por exemplo, nunca o presidente Carlos Humberto, disse a Bruno Vitorino – “Você é muito novo, tem muito que aprender”, como um dia lhe foi dito por Emídio Xavier, abrindo a ruptura e o combate fratricida com o PSD.
Ou seja, traduzido para uma linguagem actual, Carlos Humberto, nunca mandou o Bruno Vitorino “comer Maizena”…
Significa isto que, na gestão socialista, por exemplo, um dos erros, foi esta não ter sabido gerir as relações autárquicas com o PSD, coisa que a gestão CDU soube fazer, nunca deixando que fossem criadas condições de vitimização por parte dos sociais democratas. E, diga-se, o trunfo João Soares pouco contou para isso…e, sem dúvida, Bruno Vitorino tem sido uma mais valia, na actual gestão, desenvolvendo um trabalho meritório.
Mas, nesta luta do poder pelo poder, que faz parte da vida política, o PSD não se importaria que o PS reconquistasse a presidência da Câmara, se essa vitória, em acordos prévios ( este é um mero cenário hipotético), tal, permitisse aos sociais democratas alargar a sua esfera de acção na autarquia, por exemplo, imaginemos que o PS aceita atribuir-lhe o pelouro do Planeamento e Gestão Urbanística, coisa que o PCP/CDU, obviamente nunca aceitará.
Então, neste cenário, o PSD poderia então vir a posicionar-se, certamente, mais à frente, num combate aceso ao PCP/CDU, escolhendo o PS como o “amor” que lhe daria mais garantias de afirmação no contexto global de “interesses” locais.
«Participação» tem que ser «participa-acção»
O BE pela sua dimensão local e, porque, de facto, até ao momento não gerou qualquer movimento de opinião que o transcenda, certamente vai estar nessa “segunda divisão” a lutar pela conquista de um vereador, colocando-se no campeonato do PSD.
No entanto, o BE perante o seu crescimento natural ao nível nacional se conseguir cortar o seu “cordão umbilical” com o PS, tem condições de alargar a sua franja eleitoral e entrar na luta pela conquista de um vereador.
O BE tem que ser capaz de gerar um discurso alternativo e pelo seu posicionamento político é a força politica que está em melhores condições de tocar no «calcanhar de Aquiles» do PCP o «fazer cidadania».
Aliás, considero que a única fragilidade onde é possível tentar abrir brechas ao PCP/CDU é numa forte e empenhada discussão política sobre o “fazer cidadania”. Não é que o PCP/CDU não se tenha empenhado nessa vontade de fazer cidadania. Não. É porque este é o grande desafio de futuro para cativar os barreirenses a viver o Barreiro e «participação» tem que ser mais que «participação», tem que ser «participa-acção».
O BE pode ser a consciência crítica. O BE elegendo vereador, neste caso, elegendo Mario Durval poderia ser um valor acrescentado nas dinâmicas autárquicas.
Quanto ao CDS/PP será uma força que vai estar presente para lançar debate político e, pela primeira vez, o CDS/PP está mais activo e dinâmico no concelho do Barreiro.
O CDS/PP quanto muito pode dar umas beliscaduras no eleitorado do PSD.
O PCTP/MRPP se concorrer será uma força, igualmente, para marcar espaço político, pois a sua expressão eleitoral é pouco significativa.
Três cenário possíveis de acordo com as sondagens actuais
Para encerrar, uma breve reflexão sobre as recentes sondagens e um “pensar as autárquicas”, tendo como referência os movimentos do eleitorado ao nível local e as vivências da coisa pública que nos faz sentir o pulsar da cidade.
As sondagens referem que para as legislativas o PS terá 38%; o PSD terá 30.5%; o BE conta com 9.8 % e o PCP/CDU terá 9.2%, por fim de referir o CDS/PP 6.9%.
Perante estes números a primeira ideia que emerge é que o PCP/CDU, Carlos Humberto, tem nas mãos todas as condições para garantir a sua reeleição.
Em segundo lugar, o PS vai ter muito que lutar para concretizar a conquista da presidência da Câmara, um cenário que, sem dúvida, não deixa de estar em aberto, mas que está mais distante que ao PCP/CDU.
O PSD poderá ter garantido o seu vereador. O BE tem em aberto essa possibilidade.
Assim coloco três cenário possíveis de acordo com as sondagens actuais:
Cenário 1
PCD/CDU – Presidência e 3 vereadores
PS – 3 vereadores
PSD – 1 vereador
BE – 1 vereador
Cenário 2
PCD/CDU – Presidência e 3 vereadores
PS – 3 vereadores
PSD – 2 vereadores
BE – 0 vereador
Cenário 3
PCD/CDU – Presidência e 2 vereadores
PS – 3 vereadores
PSD – 2 vereadores
BE – 1 vereador
O cenário de uma maioria absoluta do PCP/CDU parece pouco provável até porque vai de certeza ter pela frente um combate político marcado pela existência da «Santíssima Trindade» – PS (pai); PSD (filho) e BE (Espírito Santo) unidos no combate ao «demónio» que será o PCP/CDU.
A conquista da presidência da Câmara pelo PS, no actual contexto, parece um cenário que não se coloca, embora, seja necessário aguardar pelos candidatos, um dado essencial para avaliar até onde o PS pode querer chegar neste combate autárquico. E, portanto, não deixa de ser uma hipótese em aberto que o PCP/CDU não pode nem deve ignorar, porque resultados só no fim do jogo…
São meras notas para reflexão e para animar o debate politico…senão, por este andar, qualquer dia limitamos a vida a discutir se a “maizena” é ou não “vital”…para animar a politica.
António Sousa Pereira













