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Inferências

InferênciasUm Barreiro a-culturado
Ilustrarte – entre o “espanto do operário” e a “riqueza da outra margem”

Ao longo dos anos, na verdade, tem faltado garra para promover uma “política cultural municipal”, porque todos, ou a grande maioria dos agentes culturais da cidade, vivem da «cultura de apoios» que gera dependências.
Este é um drama que atravessa todas as gestões, as diversas do PCP/CDU e a do PS, pois nesta matéria, diga-se, em nada foram diferentes, e, a prova verdadeira está aqui, hoje, neste exemplo que se chama Ilustrarte.

Porque, afinal, a Ilustrarte acaba por se afirmar, como um exemplo vivo, bem vivo e real do que é a-culturação de uma cidade: um esquema pré-formado, que não se adaptou, nem se socializou, dado ser uma coisa híbrida, que se movia entre ser “política autárquica”, “política empresarial” e no limite “política municipal” pelas ligações que foram estabelecidas com a Comunidade Educativa, não sendo afinal, nada disto e sendo tudo isto…deixou zero ao Barreiro.

17 min de leitura
Inferências Um Barreiro a-culturado Ilustrarte – entre o “espanto do operário” e a “riqueza da outra margem”

Por Jornal Rostos

Se, pessoalmente, tinha algumas dúvidas sobre a importância da ILUSTRARTE e o seu enquadramento nas vivências culturais do concelho do Barreiro elas, de facto, dissiparam-se com o anúncio da sua transferência para o Museu de Electricidade.
Quando começaram a surgir os “rumores” que a Ilustrarte poderia sair do Barreiro, estive, para escrever estas opiniões que, hoje, vou procurar expor, e, sem dúvida, agora, ainda com mais convicção.
Não o fiz, talvez, até, por autocensura. Não o fiz porque, nos tempos de hoje, quando expressamos opiniões, como homens livres, somos acusados de estar ao “serviço do reino”.
Não o fiz, porque não quis entrar na “pseudo guerra política partidária” que tudo indica vai marcar as conversas em torno da saída da Ilustrarte do Barreiro, quando, esta circunstância e perante este facto, o importante seria, na verdade, sermos capazes de enfrentar um debate com seriedade sobre as nossas vivências de cidadania e no “fazer cidade”.
Porque, na verdade, a vida cultural de uma cidade é antes de mais um exemplo da forma como nós encaramos e vivemos, aqui e agora, a nossa cidadania.
A vida cultural de uma cidade é o nosso espelho no “ser” e “estar” cidadãos.

Barreiro não existia até que surgiu a Ilustrarte

Saiu a entrevista no “Jornal do Barreiro” com Eduardo Filipe e Ju Godinho a qual, de facto, só hoje li, e, digo-vos, só após ler a entrevista tomei, então, a decisão de expressar as minhas opiniões sobre esta matéria.
E, a razão principal que me motivou a escrever foi a resposta à primeira pergunta da entrevista e até a própria pergunta.
Perguntou, Luis Ferreira – Por razões diversas, o Barreiro tem uma forte tradição cultural. Como é que tem acompanhado as alterações que, ao longo do tempo, se têm registado neste domínio no concelho do Barreiro?
Sempre considerei que colocar uma pergunta é abrir o caminho para a procura de uma resposta.
Luis Ferreira na pergunta, admite que o Barreiro é uma terra que tem “uma forte tradição cultural”.
Expresso a minha concordância com o teor da pergunta, porque, sem dúvida, contrariamente ao que por vezes se quer fazer passar o Barreiro é um concelho de grandes potencialidades culturais, um concelho formador, com muitos exemplos e experiências que, infelizmente, não temos sido capazes de potenciar e dar visibilidade.
E, a resposta dos Comissários da Ilustrarte, Eduardo Filipe e Ju Godinho, foi : “Quando começámos este projecto, em 2003, a verdade é que o panorama cultural parecia-nos paupérrimo. A oferta disponível era mínima, o que fazia com que as pessoas não tivessem uma relação de proximidade com a cidade. Durante anos não frequentámos qualquer evento no Barreiro, dado que em Lisboa tínhamos uma programação muito mais variada e rica, a não ser em casos muito pontuais uma exposição ou concerto que se realizavam esporadicamente ”.
E concluem os entrevistados que - “com excepção desta iniciativa ( a Ilustrarte) não tem existido uma tentativa real de se estabelecer minimamente coerente e consistente neste capítulo” ( cultural).
Ou seja, a tal “forte tradição cultural” do Barreiro não existia porque, para os Comissários da Ilustrarte – “o panorama cultural parecia-nos paupérrimo”, e “oferta disponível era mínima”.
E, pelo dito, pode concluir-se que foi a ILUSTRARTE que veio introduzir no Barreiro - “uma tentativa real de se estabelecer minimamente coerente e consistente neste capítulo” cultural.
Este discurso fez-me recordar aquele discurso do Ministro Mário Lino, sobre a margem sul, o tal “jamais, jamais”, porque aqui não há hotéis, não pessoas, é um deserto…
Ao ler estas palavras fiquei com a sensação que o Barreiro culturalmente não existiu até que surgiu a Ilustrarte.
E agora, que vai ser de novo do Barreiro sem a Ilustrarte que lhe dava «verdadeira» dimensão cultural?
O que posso concluir é que de facto o Barreiro investiu num projecto cultural que não se cimentou na vida cultural do concelho, porque aqui não criou público, nem se integrou em qualquer estratégia ou dinâmica de desenvolvimento local.
O Barreiro investiu na Ilustrarte, deu-lhe valor acrescentado e, hoje, pelos vistos devido à «degradação da relação com a estrutura da autarquia», pelo que dizem os Comissários ao JB, todo um investimento autárquico vai beneficiar outras entidades.
Cheira-me a esturro. Quando se acrescenta – “recebemos uma proposta irrecusável do próprio Director do Museu de Electricidade” e também que “estes projectos são como as plantas e, de vez em quando, é preciso mudar de terra”.
Ou ainda, quando se sublinha – “um dos nossos principais propósitos foi a criação de um público, o que é um trabalho moroso numa cidade com as características do Barreiro” e na noticia do Expresso on line é sublinhado - "É evidente que um dos problemas da localização no Barreiro foi sempre a criação de um público e deslocá-lo para lá. A visibilidade que vai ter aqui, ( no Museu de Electricidade) eu penso que só poderá ajudar o evento".
Portanto , para mim, a Ilustrarte cresceu, o Barreiro deu-lhe asas para voar.
O Barreiro, «pelas suas características» e pelo facto deste ser um projecto a-culturado, com dificuldades de radicar-se num concelho que se divide entre o cosmopolitismo e o provincianismo das suas «elites», a Ilustrarte estava a ficar condicionada e atravessar uma «crise de crescimento».
Não podia bater com a porta a quem lhe deu asas para voar e, portanto, colocou propostas que, sabia, chocavam com o modelo estruturante, ou seja, pelo que dizem os Comissários, uma das suas propostas para continuarem seria passarem a depender do Presidente da Câmara e também serem a entidade a gerir o Orçamento.
Isto seria, de certeza, manter por mais uns tempos a Ilustrarte no Barreiro, porque, afinal, de certeza, os problemas estruturantes não ficavam solucionados e, apenas seria adiar uma partida, para outra oportunidade, caso surgisse, no futuro, um qualquer convite “irrecusável” de uma qualquer instituição.
É assim no mundo de hoje, os jogadores das equipas de futebol de grande nível, Cristiano Ronaldo, ou outros, desde que as condições sejam “irrecusáveis” de imediato mudam de clube. É a lei da vida num mundo onde os valores sócio-económicos estão acima de tudo, sendo possível juntar o útil ao agradável.
A Ilustrarte para se integrar no modelo de cidadania cultural do Barreiro teria que se integrar num estratégia cultural autárquica ou municipal e, pelos vistos, não foi nem uma coisa, nem outra, porque, pelos vistos, estava a caminhar par ser, apenas, um «Acordo» entre a Câmara Municipal do Barreiro e a empresa VER PRA LER, que promovia a Ilustrarte com base num Contrato de Prestação de Serviços.
A Ilustrarte serviu o Barreiro. A Ilustrarte serviu-se do Barreiro.
A Ilustrarte na sua história ficará sempre como um projecto que ganhou expressão e dimensão internacional com os apoios que recebeu das gestões PS e PCP/CDU.
E, afinal, neste mesmo período, quantos andaram a trabalhar no Barreiro, a promover cultura, a fazer cultura, sem apoios, sem recursos, porque não havia verbas.
Quantas iniciativas foram realizadas, se devidamente apoiadas e dinamizadas não poderiam ser estruturantes e geradoras de eventos que, pouco a pouco se afirmassem como referência, de práticas e vivências culturais do concelho do Barreiro, só uns exemplos, pensando a escrever - Projecto do Xadrez do Barreiro; Colóquio Jovens Filósofos, com edição de textos e divulgação por diversos suportes desta iniciativa, pelas escolas secundárias do país e pelo mundo universitário; dinamizar um projecto estruturante de forma a colocar o Auditório Municipal Augusto Cabrita, como equipamento de referência na Rota da Fotografia Mundial; dar vida ao Salão de Arte Postal, que tem dimensão internacional e se tiverem a coragem de colocar o Mestre Kira, como Comissário do projecto, vão ver até onde este salão tem pernas para chegar…com atelliers e escolas de arte ligadas à Comunidade Educativa e ao mundo associativo.

Ilustrarte exemplo real de a-culturação da cidade

Por exemplo, quando os entrevistados referem ao JB que - “com excepção desta iniciativa (a Ilustrarte) não tem existido uma tentativa real de se estabelecer minimamente coerente e consistente neste capítulo” ( cultural). Fiquei perplexo !
Pensei : não existiu a “tentativa coerente” de lançar o “Mês do Teatro”.
Aliás, até pensei que o Auditório Municipal Augusto Cabrita tinha sido projectado e construído para ficar por ali vazio e, de facto, se não fosse ter surgido a proposta de Ilustrarte, aquele edifício seria um verdadeiro “elefante branco”.
Aliás, pensei mesmo que a grande iniciativa que assinalou o centenário de Manuel Cabanas, no ano 2002, não existiu, ou, até mesmo o 1º Simpósio de Escultura, que ainda está residualmente, no Parque da Cidade, foram meras manobras de diversão cultural.
Pensei até mesmo que as “viagens pelo património do concelho do Barreiro”, com grande sucesso, não existiram, como estratégia cultural.
Pensei, também, que o projecto “A viagem” que envolveu a Comunidade Educativa, Movimento Associativo e trouxe até ao Barreiro as comemorações nacionais dos 500 anos da viagem de Vasco da Gama à Índia, foi uma ilusão.
Pensei, até mesmo, que o Teatro Municipal do Barreiro, a Companhia de Teatro Arte Viva, são mera ficção, o TEB, o Projéctor, que lutam pela sobrevivência.
Pensei, também, que o Coral TAB, com génese na SFAL, era outra ilusão, ou a Escola de Jazz do Barreiro ou da Orquestra do Barreiro, ou da Banda do Barreiro, ou da Camerata do Barreiro.
Para não falar do Salão de Arte Postal que tinha uma dimensão internacional com um conjunto de participantes ao nível da Ilustrarte e que, na sua história, nunca teve orçamentos na dimensão dita, e cujo projecto arrancou com voluntariado e amor. Lembras-te Kira?

Vivem da «cultura de apoios» que gera dependências

Enfim, estas são só algumas notas. Muito mais podia ser referido sobre vivências culturais da cidade, projectos inéditos e criativos, construídos com parcos recursos e que nunca contaram com os apoios que a Ilustrarte teve o privilégio de receber.
Sim, são muitos os projectos, feitos por pessoas que vivem na cidade e no concelho e que, também, de vez em quando vão a Lisboa.
Pessoas que gostam de viver aqui, trabalham incansavelmente, na formação musical, no teatro, na pintura...e sentem, de facto, que falta ao Barreiro uma «política cultural municipal» que envolva os agentes, porque a autarquia, vive demais virada para promover uma “política cultural autárquica”, quer na gestão socialista, quer nas gestões comunistas.
Ao longo dos anos, na verdade, tem faltado garra para promover uma “política cultural municipal”, porque todos, ou a grande maioria dos agentes culturais da cidade, vivem da «cultura de apoios» que gera dependências.
Este é um drama que atravessa todas as gestões, as diversas do PCP/CDU e a do PS, pois nesta matéria, diga-se, em nada foram diferentes, e, a prova verdadeira está aqui, hoje, neste exemplo que se chama Ilustrarte.
Porque, afinal, a Ilustrarte acaba por se afirmar, como um exemplo vivo, bem vivo e real do que é a-culturação de uma cidade: um esquema pré-formado, que não se adaptou, nem se socializou, dado ser uma coisa híbrida, que se movia entre ser “política autárquica”, “política empresarial” e no limite “política municipal” pelas ligações que foram estabelecidas com a Comunidade Educativa, não sendo afinal, nada disto e sendo tudo isto…deixou zero ao Barreiro.

A Ilustrarte expressão de um «pedantismo cultural»

A Ilustrarte está para a gestão socialista, nas concepções do «fazer cultura e cidadania», na mesma dimensão que estiveram durante alguns anos as ditas semanas da “Cultura Soviética”, nas gestões do PCP ( quando havia União Soviética).
A Ilustrarte sinto, hoje, com a sua partida, que não foi mais que a expressão de um «pedantismo cultural», que não exerceu qualquer acção na vida da cultural da cidade ao ponto de influenciar mudanças ou transformações nas nossas vivências, nem protagonizou interpenetração de novos conteúdos ou se cruzou com as memórias da cidade.
A Ilustrarte partiu. Que avaliação pode ser feita? Que resultados deixou a sua passagem pela vida do Barreiro? Que conteúdos culturais semeou? Que invenções nos legou? Para que serviu este investimento de milhares de euros ao longo de anos?
Uma coisa é real, como referem os Comissários, ao longo destes anos, existiram dificuldades de criar um público e, estão conscientes, que no Museu de Electricidade, em Lisboa, a Ilustrarte vai ter mais visibilidade.
No entanto, quero sublinhar, que a Ilustrarte é, sem dúvida, um grande projecto de qualidade e excelência, com uma grande dimensão sócio-económico e cultural, de dimensão internacional, que é pena não encontrar neste país os apoios que carecia e deveria merecer por parte de diversas entidades, sendo, portanto, dinamizada e projectada ao nível de um projecto estruturante de promoção da Área Metropolitana de Lisboa no mundo, cuja inserção no terreno deveria ser polinucleada, tendo como ponto de irradiação (no futuro) o Museu de Electricidade, em Lisboa, e mantendo as suas ligações a diversos concelhos da região e do país, nomeadamente ao Barreiro, nunca esquecendo a Ilustrarte que tem uma dívida de gratidão para com a comunidade barreirense.

Impor um «modelo de cultura cosmopolita»

A gestão PS apostou e bem na criação de um evento que contribuísse para promover a imagem do concelho, esse era o seu custo beneficio.
Mas, porque não haviam recursos, porque faltava estratégia, o projecto da Ilustrarte, embrionário, co-existia com a sua «superioridade cultural», acima de outras dinâmicas locais, consideradas mais «bárbaras culturalmente».
A gestão PCP pegou no evento e deu-lhe continuidade, porque, afinal, não teve coragem política de o avaliar e o redefinir no âmbito de uma estratégia cultural municipal ou intermunicipal, aliás, qualquer decisão contrária, no sentido de não manter este projecto seria sempre considerada como estando a lesar os «altos valores culturais» com projecção internacional.
A Ilustrarte não foi mais que um projecto que tentou impor um «modelo de cultura cosmopolita» numa cidade que nem tem recursos para dar visibilidade a muitos outros projectos credíveis, culturalmente, que nela são desenvolvidos com muita carolice e voluntarismo : dou só o exemplo da Escola de Jazz do Barreiro, ou, até, o mais recente o Ciclo de Concertos para órgão na Igreja de Nª Srª do Rosario.
E, portanto, hoje, comprova-se que a promoção de eventos, sem raízes nas vivências culturais locais, a promoção de modelos culturais exteriores ao pulsar da cidade, sem uma reflexão que os enquadre em valores substantivos locais, acabam por ser fenómenos que, mais tarde ou mais cedo, por não se ajustarem à natureza das vivências quotidianas, no confronto entre o deve e o haver, acabam por sucumbir ou partir, para desbravar novos rumos.

A nossa cidadania cultural «paupérrima» sofreu alterações devido à existência da Ilustrarte?

O problema de política cultural que pode e deve ser discutido em torno da questão Ilustrarte, mais do que este evento, ficar ou partir, é, de facto, em que medida este projecto contribuiu para dinamizar propostas de acção cultural no nosso quotidiano e para o desenvolvimento da nossa cidadania, no pensar e viver a cidadania.
Esta matéria tem que ser abordada na sua verdadeira dimensão, isto sim, é, um problema político sério.
Pela vida cultural passa uma dimensão de participação e de vivência da cidadania, por essa razão, esta é uma matéria que merece uma ampla discussão política, sem a crueza das «guerrilhas partidárias», mas visando uma abordagem com seriedade das nossas vivências culturais e projectar uma nova forma de «fazer cidade».
Será verdadeiro esse estado «paupérrimo» da nossa vida cultural que foi encontrado no ano 2003? E desde 2003 até 2009 será que o dito estado «paupérrimo» foi alterado ?
Será que o Barreiro não foi entre 2003 e 2009 um concelho culturalmente «paupérrimo» só porque existiu a Ilustrarte?
A nossa cidadania cultural «paupérrima» sofreu alterações devido à existência da Ilustrarte?
O Barreiro precisa envolver os seus agentes culturais no fazer e discutir a cidade, dinamizar e potenciar as propostas criativas da suas gentes. Já é tempo de acabar com «elitismos balofos» e dar a mão ao que de real os nossos criativos dão vida.

Ilustrarte limitou-se a afirmar a ideia “Capital da Ilustração

Mas, como referem, na entrevista, os Comissários da Ilustrarte, em 2003, o Barreiro, a tal terra de forte tradição cultural, estava reduzido a uma situação de “paupérrimo”. Não era pobre. Era paupérrimo.
Fiquei mesmo com a sensação que, de súbito o Barreiro ficou sem memória e que afinal, sempre tive razão quando pensava na Ilustrarte como algo psico-sociologicamente estranho, que estava no terreno em conflito, em oposição, afinal, que funcionava como uma espécie de «cunha» ou «Cavalo de Tróia» sem pré-existência.
Sim, uma ideia que sempre tive sobre a Ilustrarte, foi sentir que a este evento faltava-lhe um elemento essencial a sua ligação às memórias e à cultura da cidade, tendo em vista criar raízes, amar e sentir-se amada pela cidade e deixar de ser uma vertente de «politica autárquica», dinamizada no contexto de uma parceria empresarial.
A Ilustrarte nunca gerou um discurso da cidade para a cidade.
A Ilustrarte limitou-se a afirmar a ideia, só a ideia, no plano do slogan, sem substância, que o Barreiro era a “Capital da Ilustração”.
Por exemplo, o Barreiro tem memórias no campo da Ilustração : Manuel Cabanas é uma referência. Eugénio Silva, outra referência. Américo Marinho, igualmente.
O Salão de Arte Postal outro elemento que podia ser estruturante no desenvolvimento de uma conceptualização da tal “Capital da Ilustração”.
Por tudo isto considero que a Ilustrarte nunca iria sobreviver em conflito com o «modelo cultural dominante» na gestão do Poder Local ( seja PS, seja PCP/CDU), fosse hoje, ou no futuro, o seu destino era este, partir, porque a Ilustrarte não tinha uma estratégia própria para se desenvolver de forma integrada no âmbito de um projecto macro assumido e partilhado com a comunidade.
Para o PS, foi uma espécie de «pedantismo cultural», uma forma de demonstrar que tinha uma politica cultural diferente do PCP/CDU.
Para o PCP/CDU, um «sacrifício político» pois recebeu um «menino rico» que não podia dispensar sobre pena de ser acusado de tratar mal a cultura e ser rotulado de “bárbaro cultural”.
A Ilustrarte ou era absorvida pelo modelo, do sempre assim foi, sempre se fez assim, ou se continuasse a pensar que poderia ser autónoma, como pretendia ser e sobreviver por si mesma, então, tinha que procurar outro caminho…obviamente.
A Ilustrarte tinha que, pouco a pouco, integrar-se e até transformar-se num elemento criador de referência no desenvolvimento de uma estratégia cultural, que pensasse o Barreiro no contexto da AML ( e portanto, no país, no mundo – porque pela AML vai-se para o mundo).
Mas a Ilustrarte era a Ilustrarte – “Barreiro Reconhecido” na área cultural ( um prémio de uma carreira de 3 anos)…que partiu e vai manter-se, na outra margem, sorrindo para o Barreiro e para os barreirenses…
E, nós por cá, será importante que sejamos capazes de promover vivências culturais de forma a continuarmos a ver “os operários a olhar com espanto para os desenhos pendurados nas paredes”, uma coisa que os Comissários da Ilustrarte, um dia, no século XXI, descobriram que era um acontecimento de relevo…por essa razão pensei :Oh Belmiro, meu querido Belmiro!

António Sousa Pereira

Foto - Ilustração da Ilustrarte/CMB

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