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Inferências

InferênciasO «clique vital» e a «esquerda democrática»
Por António Sousa Pereira

Os votitos em branco. A abstenção. Os votitos nulos. Todos eles são uma lição para os nossos políticos.
A lição destas europeias é que as pessoas exigem que se viva com valores, com princípios, assumindo-os quer sendo poder, quer sendo oposição.
A lição destas europeias é que as pessoas querem sentir esquerda quando é esquerda e direita quando é direita, sempre com cultura democrática e não gostam de «comer gato por lebre».

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Inferências O «clique vital» e a «esquerda democrática» Por António Sousa Pereira

Por Jornal Rostos

No decorrer de uma entrevista na TVI, Marcelo Rebelo de Sousa, interrogava-se sobre qual teria sido o “clique” que motivou a mudança nas opções políticas do eleitorado, tendo esse «clique» contribuído para que as «sondagens» fossem completamente «desvirtuadas».
Fiquei a pensar nesta interrogação. E, naturalmente, procurei efectuar uma viagem de «retorno» a alguns momentos que senti de alguma forma como muito importantes no plano das «emoções», neste recente processo eleitoral.

Um «caldo politico» de «nós/eles» os bons e os maus

Por exemplo, não gostei do cartaz que marcou a abertura da Campanha Eleitoral do Partido Socialista, com aquela mensagem – “Nós, Europeus”, porque o considerei sem qualquer carga emocional e marcado por um sentimento político de «exclusão», como se existissem uns que são os europeus – nós - e os outros os «não europeus».
Uma campanha que para mim começava mal, marcada por um «caldo politico» de «nós/eles», os bons e os maus.
E, simultaneamente, gostei do cartaz do PSD, com uma mensagem apelativa e com a marca de uma «política de inclusão» afirmando : “Não desista. Todos somos necessários”.
No contexto de uma reflexão sobre «emoções sociais», num tempo de crise, onde é essencial estimular e apelar a «emoções positivas» o PSD colocou-se nesse patamar de mobilização, no cativar o eu, cada eu, enquanto o PS, colocou-se no patamar redutor do nós, um nós que excluía outros “eus”.
E, por fim, a fechar a campanha o PS, ainda aprofundou esta «cultura da superioridade moral» com o cartaz – “O PS combate a crise. Os outros combatem o PS».
Este foi um clique que, na minha opinião, marcou o eleitorado.

PS acreditava na vitória nem que fosse por um voto

O PSD utilizou na campanha “técnicas persuasivas» e procurou galvanizar «emoções positivas» criar esperança, gerar alternativa ou alternância.
O PSD queria, talvez, apenas alargar a sua base social de apoio, porque chegar à vitória era apenas uma mera probabilidade, dados os resultados de sucessivas sondagens.
Mas, o PS optou por utilizar uma campanha com “técnicas afirmativas” de afirmação da sua «autoridade moral», portanto, explorando uma vertente de «emoções negativas», porque estava convencido da vitória e que os outros eram obviamente os maus.
O PS acreditava na vitória nem que fosse por um voto, como ficou patente na intervenção da Ministra da Educação, na Assembleia da República que o que conta é o «votito» .

Muro de Berlim já faz parte da história

Outra situação que, na minha opinião, também em nada ajudou o PS foi a «provocação política», mais ou menos intencional, de levar Vital Moreira como membro da Delegação do Partido Socialista à manifestação da CGTP-IN.
Se o objectivo era criar uma «Marinha Grande» tal era uma coisa muito improvável, até, porque, obviamente, a estatura política de Vital Moreira está muito distante da figura histórica de Mário Soares.
E foi um erro tentar colar este acontecimento ao PCP, porque essa coisa do PCP «comer criancinhas» já tem barbas, e, é preciso, de uma vez por todas, perceber que o mundo mudou. O Muro de Berlim já faz parte da história. Não deve ser esquecido, apenas para memória futura.
E, tanto mais, todos sabemos, que os acontecimentos eram «previsíveis», pois numa manifestação de massas, onde as emoções estão à flor da pele, existem sempre situações incontroláveis.
Neste caso, foram atitudes isoladas e sectárias, vindas de cidadãos, fustigados pela vida – uns do PCP outros do BE e talvez até alguns sem qualquer filiação política, mas que, por vezes, são pessoas que têm uma «cultura democrática» que os leva a olhar e ver o mundo a preto e branco, onde só há maus e bons.
Mas esta, é uma realidade política que, todos sabemos, não é um exclusivo de militantes do PCP, pois, também existem ao nível do PS, PSD e outras forças políticas.
Este evento, eventualmente, pensado como «marketing estratégico» terá sido, também, um «clique» até porque, por muito que Vital Moreira grite e afirme : “Sou tão PS, como o mais profundo PS». Haverá sempre quem recorde as suas origens. E, digo-vos, sei bem do que estou a falar…

PS perdeu o sentido da gestão dos «sentimentos sociais»

O PS não teve em consideração ao enviar Vital Moreira na sua delegação à manifestação da CGTP que era preciso gerir na campanha e pré-campanha o «sentimento emocional» do eleitorado e este «facto político» não foi o melhor trunfo para persuadir eleitores à esquerda, nem sequer aqueles milhares de professores ou outras pessoas que têm sido utilizados como «carne para canhão» para levar por diante «mudanças estruturais» com o objectivo de reduzir o deficit ou salvar a Segurança Social, sem um diálogo assente no respeito por direitos adquiridos e pelas esperanças de uma vida de muitas pessoas.
O PSD se fosse governo de certeza não tinha ido tão longe. Isto, independentemente do reconhecimento imperioso de serem concretizadas mudanças estruturais.
O PS perdeu o sentido da gestão dos «sentimentos sociais» e «emoções sociais», porque se convenceu que o «Pêessismo» era um dado adquirido e, porque, afinal, os «conflitos sociais» eram meras «manobras de diversão» dos comunistas que em todo lado apareciam a protestar contra o Primeiro Ministro.
O PS pediu durante a campanha eleitoral um «Cartão Amarelo» a esta oposição e afirmava “não vamos entregar a esta trupe a governação».
E agora? Foram os eleitores com o «votito» que abriram um novo cenário para as próximas legislativas.

Essa coisa da «esquerda não democrática»

E no pós eleições, também registo este pequeno «facto político».
Num debate num canal de televisão, não recordo qual, escrevo de memória.
O Ministro Augusto Santos Silva falava da «esquerda democrática» e criticava a esquerda «não democrática». Um discurso na linha da ida à manifestação da CGTP.
O representante do BE interrogou Augusto Santo Silva sobre esse sentido de superioridade moral de afirmar que há uma esquerda democrática e outra que não é democrática.
Isto é, acima de tudo, uma falta de respeito pelos eleitores que votam PCP e BE.
Só que, até aqui, às últimas eleições europeias, a «esquerda não democrática» era visualizada a partir do imaginário de «luta ideológica» contra o «PCP», dado que o BE, embora existindo era uma força política mais residual.
Acontece que, após as europeias, o BE é a terceira força política, e, pelos vistos, essa coisa da «esquerda não democrática», oriunda dos tempos da «guerra fria», do «fascismo e do «prec», parece que está a deixar de fazer sentido no combate ideológico, num regime com mais de 30 anos de democracia, onde a pluralidade cada vez mais se consolida, com ramificações europeias.
Ou seja, parece que essa coisa da «esquerda democrática» está a esgotar-se no plano das ideias. Porque não é possível ser de esquerda, ou até de direita, sem ser democrático, nesta Europa que estamos a construir.
É que, os tempos de hoje, cada vez mais nos dizem que à esquerda e à direita, ambas as opções, ou são democráticas e aceitam um regime de pluralidade, ou, se afirmam na sua «exclusividade democrática», e, desta forma, não estão a ter um papel mobilizador, nem de valorização do «sistema democrático», nem valorizam a cultura europeia.
O PS tem que fazer a catarse do PCP. O PS tem que fazer a catarse dos estigmas da guerra fria.
O mundo mudou. A democraticidade não existe se não existir o respeito pela pluralidade.
A pluralidade da esquerda tem raízes históricas. A pluralidade da direita tem raízes históricas. Só por este caminho seremos capazes de não esquecer as lições da história.
A pluralidade e o respeito pela pluralidade faz parte desta cultura europeia que aposta na paz e no progresso.

Vivemos num país com séculos de «cultura do perfeccionismo»

Um dia pensei que já tínhamos atingido a maioridade democrática, mas, pelos vistos, ainda temos muito para caminhar.
É um percurso difícil. Tanto mais que vivemos num país com séculos de «cultura do perfeccionimo».
Alimentamos a «cultura da perfeição» - uns querem ser perfeitos para ir para o céu. Outros querem ser perfeitos, construindo o paraíso na terra. Foram muitas gerações marcadas por este pensar a preto e branco – os bons e os maus.
Foram muitas gerações que atravessaram conflitos sociais e ditaduras políticas, desde o século XIX.
Acredito que Portugal ainda vai aprender a viver em democracia, com respeito pelas diferenças e pela pluralidade.
A cultura democrática tem que ser cultivada de forma a motivar os cidadãos para as causas públicas, que vão para além, muito para além do meros confrontos político-partidários.
E, são de facto, todos aqueles à esquerda e à direita, mais defensores dos conceitos ou de «liberdade» ou de «igualdade» que devem protagonizar a cultura democrática, pelas diferenças, pelos valores, pelos princípios, superando, de uma vez por todas os estigmas e os ressentimentos que estão na origem do que considero ser a pseudo «superioridade moral», que gera o pseudo «perfeccionismo moral».

As pessoas querem que quem governe o faça com valores

Tudo isto para dizer que, para mim o «clique» que o Marcelo Rebelo de Sousa, anda à procura, na minha opinião, pode ser encontrado na Campanha eleitoral, nos candidatos, nos discursos, na humildade que faltou, na necessidade de se (re)aprender a viver em democracia e sermos de facto europeus.
Os votitos em branco. A abstenção. Os votitos nulos. Todos eles são uma lição para os nossos políticos.
A lição destas europeias é que as pessoas exigem que se viva com valores, com princípios, assumindo-os quer sendo poder, quer sendo oposição.
A lição destas europeias é que as pessoas querem sentir esquerda quando é esquerda, e, direita quando é direita, sempre com cultura democrática e não gostam de «comer gato por lebre».
A lição destas eleições é que as pessoas já perderam o medo dos «papões», sejam os «papões da direita», sejam os «papões que comem criancinhas» e exigem que a política seja uma causa nobre, ao serviço dos povos e não servindo-se dos povos.
As pessoas querem que, quem governe o faça com valores, com propostas, com ideias para combater a crise e sejam capazes de abrir uma porta à esperança…porque, afinal, é possível acreditar num mundo melhor.

António Sousa Pereira

Nota – Para que conste e evitar outras interpretações - votei PS.

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