Diz que é uma espécie de BLOGUE DE NOTAS do BarreiroAcreditem, há mais Barreiro para além do PCP…
E de facto, o autarca tinha razão em assumir esse “distanciamento” porque a iniciativa, toda ela foi marcada por uma “matriz conceptual” tendo uma visão meramente “político-partidária” de avaliação da história e das memórias do Barreiro.

Por Jornal Rostos
No Auditório Municipal Augusto Cabrita decorreu, no Feriado Municipal, o lançamento do livro "BARREIRO, ROTEIRO DAS MEMÓRIAS da Resistência, do Trabalho e da Luta", de Armando Teixeira, uma edição da Câmara Municipal do Barreiro.
O lançamento do livro era um evento enquadrado nas comemorações do Feriado Municipal do Barreiro mas, pelo que nos apercebemos a iniciativa “político-cultural” que decorreu no Auditório Municipal Augusto Cabrita, não foi da responsabilidade da Câmara Municipal do Barreiro mas sim do autor da obra.
Sem dúvida que foi um espectáculo político-cultural com qualidade artística e com agradáveis momentos evocativos de memórias de luta pela Liberdade.
No final do espectáculo o deputado municipal Rui Lopo, perguntava-me se eu tinha gostado. Respondi-lhe que não, porque considerava que este não era um registo próprio de uma iniciativa a integrar nas comemorações do Feriado Municipal. Acrescentei que gostei do espectáculo.
O espectáculo teve momentos interessantes e emotivos, desde a participação de Odete Santos, Claud, Samuel, Joaquim Pessoa ou o Coro Fernando Lopes Graça, que com a música e poesia fizeram reviver os tempos dos Cantos Livres ou as memórias dos dias de resistência e luta pela liberdade.
A pequena encenação do Grupo de Teatro “Projéctor”, num quadro de revista à portuguesa, tendo como tema a “Inauguração da Estátua”, foi muito bem conseguido, com muito ritmo e uma plena participação dos actores quer do Projéctor, quer dos actores da UTIB.
Achei curioso que Carlos Humberto, presidente da Câmara Municipal do Barreiro, numa iniciativa que visava o lançamento de uma obra editada com a chancela da Câmara Municipal do Barreiro, fizesse questão em sublinhar que a sua intervenção, ali, era efectuada a nível pessoal, enquanto cidadão que evocava as suas memórias.
E de facto, o autarca tinha razão em assumir esse “distanciamento” porque a iniciativa, toda ela foi marcada por uma “matriz conceptual” tendo uma visão meramente “político-partidária” de avaliação da história e das memórias do Barreiro.
A tese desta iniciativa insere-se numa visão reducionista da história da resistência e luta pela liberdade no Barreiro como sendo um «exclusivo» do Partido Comunista Português, independentemente, do reconhecimento que deve existir e ninguém ignora do papel do PCP, como vanguarda organizada e mobilizadora das lutas operárias.
Quando respondi a Rui Lopo que não gostei foi, de facto, neste contexto de considerar que esta iniciativa sendo ludicamente bem construída, não se insere numa matriz de comemorações do Feriado Municipal, que é um dia de festa de todos os barreirenses, portanto, para além de todas as afirmações de “superioridade moral” de dimensão político-partidária.
Dou portanto os parabéns ao presidente da Câmara Municipal do Barreiro por ter sabido, muito bem, colocar-se no contexto do evento na sua qualidade de cidadão e de militante do PCP.
No entanto, quero sublinhar que esta iniciativa de lançamento do livro com esta “matriz ideológica” não deveria ter sido enquadrada, enquanto tal, no programa das comemorações do Dia da Cidade, onde constava.
Uma cidade que acredito tem orgulho de ter sido reconhecida como a “Cidade Vermelha” na luta pela Liberdade e pela Democracia, deve, nos tempos de hoje assumir o orgulho de ser um “bastião da cidadania e da Liberdade” que não se esgota no PCP.
Mais, nos tempos de hoje, o Barreiro, deve ser capaz, de dar o exemplo de quem lutou pela liberdade, respeitando as diferenças e, portanto, não introduzindo nas actividades de âmbito municipal o cariz político-partidário.
Por outro lado, num tempo que a polémica sobre a localização da Estátua Alfredo da Silva aqueceu tanto os ânimos e que a autarquia, através de diálogo, soube conduzir o processo sem grandes fricções, sem dúvida é caso mesmo para dizer :“Não havia nexexidade” - de no contexto do lançamento de um livro patrocinado pelo município ir “remexer” de uma forma tão “ideológica” e “partidária” um assunto que está no bom caminho.
Porquê ? Nesta altura do campeonato, quando tudo está, pelo que é dito, bem encaminhado, vir, por cegueira política, remexer e acicatar os ânimos sobre esta matéria.
De facto, há coisas que não se percebem. Enquanto uns procuram fazer um trabalho político que contribua para dar visibilidade à ideia de crescimento no Barreiro do “espaço político CDU”, outros, mais convictos que são a verdade ou a pureza ideológica, lançam farpas e destroem o trabalho político positivo que tem sido construído, paulatinamente, por uma dinâmica e envolvimento e participação, mesmo com deficiências.
De facto este é o drama de alguns sectores do PCP, aqueles que teimam em querer reduzir o Barreiro a uma visão meramente partidária, que acham que a história do Barreiro é a história do PCP e que não compreendem que “fazer cidade” é fazer cidade para todos os que aqui vivem sejam ou não comunistas.
O espectáculo que decorreu no Auditório Municipal Augusto Cabrita, pessoalmente não me incomodou. Até gostei. Até cantei aquelas canções de Zeca Afonso, que antes do 25 de Abril, escutava pela noite dentro com uma lágrima de sonho pela Liberdade e Democracia. E não considero que aqueles poemas do Gedeão, ou os cânticos do Lopes Graça, ou as canções do Zeca, sejam um exclusivo do “ser pcp”. Vivo-as com muita intensidade, pelo calor da memória e sobretudo por aquele poema de Joaquim Pessoa : “Canta se te falta a Liberdade”.
O espectáculo até foi bem conseguido e fez recordar um evento semelhante que decorreu, quase com o mesmo tema: “Barreiro – Resistência, Trabalho e Luta”, realizado na SDUB “Os Franceses”, para saudar e receber os delegados ao IX Congresso do PCP, que decorreu no Barreiro.
O espectáculo foi um bom momento cultural para recordar memórias de resistência e luta pela Liberdade.
Mas, o espectáculo sendo um evento de lançamento de um livro editado pela Câmara Municipal do Barreiro, num contexto das comemorações do Feriado Municipal, foi, na minha opinião, um erro político, foi um verdadeiro tiro nos pés.
Aliás este espectáculo, é, talvez, já uma certa convicção que o Barreiro é “território do PCP” e aqui ninguém vence os comunistas…talvez por isso no final do espectáculo, quando se escutou a “Grândola Vila Morena”, escutou-se na sala o grito – “PCP!”
Recordo que uma das causas da derrota do PCP nas autárquicas, no Barreiro, foi por um lado “o convencimento que estava tudo no papo”, por outro lado, essa incapacidade que existia de sentir e pensar que há mais Barreiro para além do PCP, coisa que Carlos Humberto, enquanto autarca se tem empenhado em construir, alargando vontades e unindo saberes.
Este espectáculo não ajudou em nada o candidato do PCP, Carlos Humberto, nem a CDU, por essa razão, dou-lhe os parabéns por ter tido a coragem e a verticalidade política por separar o trigo do joio.
Este espectáculo foi, talvez, um sinal de “superioridade moral” daqueles que têm convicções acima de todos os que não concordam com os seus pontos de vista, mas que, digo-vos, até os respeito e admito plenamente, pelo direito ao respeito pelas diferenças, afinal, aquilo que pelo que muitos, ao longo de anos, lutaram antes do 25 de Abril e que são as opções que devem merecer as caminhadas humanas pela construção de um mundo solidário e democrático.
Mas, de facto, este espectáculo não é a memória do Barreiro. É uma visão partidária sobre as memórias do Barreiro.
Acredito que um dia, será possível um discurso aberto no Barreiro, que reconhecendo o papel inegável que o PCP desempenhou na história e na vida local, saberá, igualmente, reconhecer que há mais Barreiro para além do PCP.
É caso para dizer : Sim, havemos de lá chegar…!!!
António Sousa Pereira













