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Inferências

Diz que é uma espécie de BLOGUE DE NOTAS do BarreiroDa «chique espiral de silêncio” à «xenofobia cultural»!
Por António Sousa Pereira

Onde estavam esses “pragmáticos” e defensores dos artistas barreirenses, quando, ao longo de anos decorreu no concelho do Barreiro a Ilustrarte, que nunca se ligou aos artistas do Barreiro, nem se cruzou com a cultura local. Nem nunca deu expressão ou visibilidade à “cultura autóctone”.

Agora, esses mesmos “pragmáticos”, consideram que o convite a Malangatana é uma ofensa aos artistas barreirenses.
Enfim, coisas de uma terra que perde mais tempo a discutir “estéticas” e “éticas”, do que a discutir o seu rumo, o que é, e, para onde quer ir…

6 min de leitura
Diz que é uma espécie de BLOGUE DE NOTAS do Barreiro Da «chique espiral de silêncio” à «xenofobia cultural»! Por António Sousa Pereira

Por Jornal Rostos

No decorrer das Festas do Barreiro tive a oportunidade de manter um breve diálogo com o Mestre Malangatana. Um sentimento com que fiquei, do seu modo de estar e viver a vida, foi a sua simplicidade. A relação partilhada que vivia com aqueles que com ele estavam a trabalhar.
Ontem, ao ler a notícia da Lusa, sobre a atribuição do grau de Doutor Honoris Causa, pela Universidade de Évora, mais uma vez, esse sentimento emergiu no meu pensamento, ao ler a simplicidade das suas palavras : “Fiquei muito contente”.
Malangatana, comentou, ontem, este facto no decorrer da inauguração da sua exposição – “Encontros”que vai estar patente na Galeria Municipal de Arte, na Guarda, ( um concelho de maioria absoluta do Partido Socialista), que recebeu o Mestre Malangatana com o orgulho de contar com a sua presença, no espaço nobre da cidade de divulgação da arte nacional e internacional, inscrevendo o seu nome de forma passageira – uma exposição – nas memórias da cidade.

Dou comigo a reflectir sobre alguns comentários que tenho escutado, que classifico de “xenofobia cultural”, ditos a propósito do facto de Malangatana ter sido o artista convidado para esculpir o monumento que vai ser colocado na Praça da Paz, na rotunda junto ao Fórum Barreiro.
Os comentários surgem em defesa dos artistas barreirenses.
E, de novo, dou comigo a pensar, onde estavam esses “pragmáticos” e defensores dos artistas barreirenses, quando, ao longo de anos decorreu no concelho do Barreiro a Ilustrarte, que nunca se ligou aos artistas do Barreiro, nem se cruzou com a cultura local. Nem nunca deu expressão ou visibilidade à “cultura autóctone”.
Facto que, por várias vezes, comentei. Recordando, por exemplo a importância do Mestre Manuel Cabanas, como pioneiro de ilustração. Ou Eugénio Silva, que editou, entre outros trabalhos, a história-biográfica do pantera negra - Eusébio.
Mas, a Ilustrarte era um evento sublinhado de grande nível cultural que colocava o Barreiro na rota internacional da ilustração. Facto que reconheço como verdadeiro e transformava o Barreiro na «Capital da Ilustração”.
A Ilustrarte foi um evento exógeno.
A Ilustrarte nada deu aos artistas barreirenses.
A Ilustrarte viveu do Orçamento dos Barreirenses. Era uma coisa boa.
Sobre esta política de aculturação existiu sempre “uma chique espiral de silêncio”.
Valorizou-se a Ilustrarte, até ao tutano, como uma referência única de promoção de uma estratégia cultural, que nunca existiu…
A Ilustrarte esteve cá. Viveu à nossa custa e foi-se embora. Deixou apenas o rasto da sua presença.
E, digo-vos, considero que a Ilustrarte tinha todas as condições de se ter afirmado como um projecto de referência para o Barreiro e para a Área Metropolitana de Lisboa. Talvez, em Lisboa, venha afirmar-se como tal, aliás, desejo que assim seja, porque, dessa forma, não foi em vão o esforço do Barreiro.
Naturalmente, no futuro, nas políticas de descentralização da Ilustrarte, até França ou Itália, seria bom que nunca fosse esquecido o Barreiro, incluindo-o na implementação desse circuito, porque a Ilustrarte tem uma divida de gratidão para com os barreirenses.
Não é uma divida para com a Câmara Municipal do Barreiro, seja ela gerida pela CDU, PS ou PSD, é para os barreirenses, porque foram os seus impostos que lhe deram projecção internacional.

Mas, sobre a Ilustrarte, certamente, a história e as estórias um dia serão escritas.
Tudo começou, não no conteúdo da Ilustrarte, não no valor da Ilustarte, mas na forma como se integrou na vida local, quer na gestão PS – “uma marca de um certo snobismo cultural”, quer na gestão da CDU – “no manter as heranças”.
O modelo existente no fazer a Ilustrarte, mais tarde ou mais cedo, tinha os dias contados.
Não por culpa dos intervenientes, quer dos promotores da Ilustrarte, quer dos gestores autárquicos. Era o modelo a-cultural.
A Ilustrarte não era um projecto autárquico, nem sequer um projecto municipal.
A Ilustrarte nem era um projecto independente e autosuficiente.
A Ilustrarte não tinha estratégia na cultura local, nem gerou uma estratégia para se afirmar numa dimensão de âmbito metropolitano, tendo, no entanto, todas as condições para ser tudo isso e muito mais.
Mas para arrumar o assunto, o melhor é arranjar um culpado
Ah, é verdade, a culpa de a Ilustrarte ter partido do Barreiro é desses senhores que “comem criancinhas”, que não souberam acarinhar a Ilustrarte!
Enfim, coisas de uma terra que perde mais tempo a discutir “estéticas” e “éticas”, do que a discutir o seu rumo, o que é, e, para onde quer ir…

No entanto, agora, os mesmos que, de forma veemente, na defesa da “cultura chique” hipervalorizaram a Ilustrarte, esse evento exógeno, que só trouxe ao Barreiro nomes exteriores - sem dúvida grandes nomes do mundo da ilustração de vários pontos da Europa - mas que nunca foi capaz de olhar para os artistas do Barreiro, nem nada deu aos artistas do Barreiro. Sim, agora, esses mesmos, consideram que o convite a Malangatana é uma “ofensa” aos artistas barreirenses.
Malangatana que, até, não é pago directamente pelo Orçamento dos barreirenses, porque o seu trabalho é fruto de uma parceria institucional-empresarial – pelos vistos, este convite não é uma coisa boa.
Sim, agora, sim, os artistas do Barreiro foram esquecidos.
Em suma, isto cheira mesmo a «xenofobia cultural»!

Malangatana não vai ficar inscrito na memória barreirense com uma mera e passageira exposição.
Malanganta vai ficar a marcar o centro do Barreiro, ali, junto ao Fórum Barreiro, num monumento de grande valor cultural, de referência internacional.
O Barreiro vai ficar inscrito na “rota mundial de obras de arte” de um grande senhor da cultura e da arte africana e do mundo.
O Barreiro terra feita de muitas gentes, vindas de muitos lados, como tenho escrito, desde sempre, felizmente contou, nos tempos de hoje, com uma cooperação estratégica pública-privada na valorização do seu centro de cidade.
O Barreiro assume, com a inscrição no seu tecido urbano da obra de Malanganata, a sua dimensão histórica multicultural e de solidariedade que caracteriza as suas vivências.

António Sousa Pereira

Foto – Kira, artista do Barreiro, oferece uma obra sua, um conjunto de porcelana, ao Mestre Malangatana

Breves registos

Um olhar sobre a obra

Nas Festas do Barreiro

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