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Inferências

«O amor é um pássaro azul no alto da madrugada»Por António Sousa Pereira
Barreiro - Almada - Alcácer do Sal

Recordo os poemas, porque tua vida foi feita de “poesia iluminada”, uma escrita de alguém que, nunca, mesmo nunca, trocou a sua liberdade, por benesses – mais ou menos verdes – porque tinhas no pensamento, terna e absoluta - “uma gaivota azul a voar pela madrugada”.

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«O amor é um pássaro azul no alto da madrugada» Por António Sousa Pereira Barreiro - Almada - Alcácer do Sal

Por Jornal Rostos

Apenas quero dizer, hoje, que não me esqueci de ti. Recordo-te com saudade.
Não sei se, na planície alentejana, aí, no Torrão, concelho de Alcácer do Sal, terra onde nasceste, e, onde estás, entre flores, as violetas bordadas por tua mãe, há memória de ti…
Não sei se, em Almada, terra onde os teus filhos sentiram a luz do sol, e, onde, os coros dos operários, rasgaram sulcos no teu coração, hoje, és recordada…
Aqui, no Barreiro, como tu escrevias, “recortam-se os ácidos sulfurosos do céu”, onde o Kira “sonha e pinta e o Sousa Pereira escreve poemas à tona da pele”.
Sim, aqui, nesta margem do vento, hoje, como sempre, no meu pensamento, o teu nome ocorreu, e, senti a ternura dos teus textos, o calor da tua amizade.
Há mulheres assim, marcam os nossos sentidos, por dentro dos nervos. Agitam-nos.
Há dias, daqueles que sentimos a solidão a navegar nos neurónios. Vou à estante. Pego num dos teus livros. Releio. Converso com as tuas palavras. Aconselho-me, nas palavras que bebo, de ti, irmã ausente.
Os teus textos são um “banco de memórias”.
Faz hoje cinco anos. Recordo-te no teu sorriso.
E, também, recordo como, muitas vezes, foste a minha companhia no deserto dos dias, antes de Abril acontecer, porque a tua palavra era, já, um cravo a florir em gestos de amor e amizade.
Recordo as tardes de “risos malucos”, entre os cheiros do Alentejo – chouriço e pão – quando nos encontrámos – eu, tu e a Manela – para cuscar e falar da vida que acontecia e que estava para acontecer…
Recordo os poemas, porque tua vida foi feita de “poesia iluminada”, uma escrita de alguém que, nunca, mesmo nunca, trocou a sua liberdade, por benesses – mais ou menos verdes – porque tinhas no pensamento, terna e absoluta - “uma gaivota azul a voar pela madrugada”.
«O amor é um pássaro azul no alto da madrugada» - quem não recorda este teu grito de liberdade, editado num cartaz do ITAU, que, nós jovens, partilhávamos com emoção.

Um beijo para ti, irmã Maria Rosa Colaço!

António Sousa Pereira

Nota - Memória

É natural do Torrão, nasceu em 19 de Setembro de 1935. Saiu do Torrão ainda criança e foi para Almada. Em Almada há uma escola que tem o seu nome.
A escritora Maria Rosa Colaço, autora do livro “A Criança e a Vida” que marcou gerações e foi um símbolo de todos os que lutaram pela liberdade e sonharam com o 25 de Abril.
“Espanta Pardais” , “Maria Tonta como eu”, “Gaivota” foram algumas das suas obras que animaram os trabalhos em centenas de salas de aula e contribuíram para formar gerações.
“A Criança e a Vida” foi uma obra traduzida em diversos países.

Maria Rosa Colaço, tinha 69 anos, quando faleceu, no dia 13 de Outubro de 2004, após um período de doença, durante o qual manteve sempre a sua lucidez e uma forte vontade de manter a sua actividade e os seus sonhos bem vivos.
Maria Rosa Colaço viu os seus poemas cantados e pintados. Em 1969 conquistou o Prémio Alice Gomes com o seu livro “Pássaro Branco”.
Escreveu durante alguns anos uma Crónica semanal no jornal “A Capital”, trabalhou na RTP.

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