Arte Viva – Companhia de Teatro do Barreiro“A Lição do Mestre” – sobre (viver) para lá do «preto e branco»
Senti, de facto que a primeira peça “O Mestre” marca pela sua actualidade e deixo aqui o desafio para que, talvez, muitos possam reflectir com base no texto e no trabalho do Arte Viva.

Por Jornal Rostos
Uma das heranças que recebemos de na nossa cultura de cidadania, fruto de quarenta anos de regime fascista, foi olharmos o mundo a preto e branco. Os bons e os maus.
Depois, o PREC, igualmente, também contribuiu para cimentar essa cultura, passando os bons a serem os maus e os maus a serem os bons.
Ainda temos um grande percurso a fazer, de facto, neste sermos capazes de construir a nossa cidadania com respeito pelas diferenças.
A Companhia de Teatro Arte Viva, não sei porquê, muitas vezes dá-me a sensação que, nos espectáculos que leva a cena, tem sempre por trás, um discurso não dito, uma espécie de voz de grilo falante que procura alertar para temas de actualidade. Coincidência ? Acaso? Necessidade?
Fiquei com essa sensação, mais, muito mais, desde que assisti àquele espectáculo na “cave” do AMAC.
Enfim, coisas…
O novo espectáculo da Companhia de Teatro Arte Viva – “A Lição do Mestre”, de Eugéne Ionesco, com encenação de Mário Rui Filipe, pode ser uma boa “aula de aprendizagem” da democracia e da cidadania, principalmente para aqueles que pensam que a vida só existe a “preto e branco”.
Penso que, para muitos, pode ser uma ajuda – psico-intelectual - para que possam, na vida real, (sobre)viver para lá do “preto e branco”.
A nova peça da Companhia de Teatro Arte Viva é marcada por um intenso ritmo de sentimentos, de fortes emoções, que nos movem por dentro de memórias-situações vividas no país, ou na nossa terra.
Uma peça que é um grito de alerta para que sejamos capazes de viver a vida com valores. Valores que devemos exigir aos outros que os exerçam, mas que também, nós mesmos, sejamos capazes de ser um exemplo- referência.
Uma peça de protesto contra a falta de ética e da ausência de cultura democrática.
Uma peça em dois actos. Ou melhor duas peças num só espectáculo.
A primeira “O Mestre”, com uma bela encenação, objectiva, no caracterizar o pensar e o sentir a “preto e branco”.
Três ponto de luz. O público entra em cena. O Mestre como paradigma . Um Mestre que é o centro.
“Calem-se que vem aí o Mestre!” – é a palavra de ordem.
O Mestre que chupa no dedo. O Mestre que não tem cabeça, mas é o centro do mundo.
Num tempo que tanto se fala em diálogo.
Num tempo em que tanto se fala em partilha de poder.
Num tempo em que tantos defendem que o exercício do poder deve ser exercido pelos vencedores.
Num tempo em que ainda, infelizmente, continuamos a cultivar o viver e pensar a “preto e branco”, em que de facto, insistimos nas teorias dos “bons” e dos “maus”, quando a história da humanidade, cada vez mais, caminha no sentido do “federalismo” – unir na diversidade – ou com dimensões ecuménicas – respeito pelas diferenças.
Senti, de facto que esta primeira peça “O Mestre” marca pela sua actualidade e deixo aqui o desafio para que, talvez, muitos possam reflectir com base no texto e no trabalho do Arte Viva.
Os parabéns a todos os jovens actores que nos proporcionam tão bela lição de vida.
Os parabéns ao encenador Mário Rui Filipe que de forma magnífica encenou este brilhante trabalho, cheio de energia, ritmo e com uma forte actualidade ética.
Depois, para fechar temos a segunda peça “A Lição”, que, afinal, não é mais que um complemento, alertando para o peso que tem a “cultura adquirida” nas nossas vivências quotidianas.
Aliás, é interessante, registar aquela opção utilizada na cenografia que coloca os “pés feitos de livros”. Uma simbologia de vida.
Uma lição que nos faz sentir os “ouvidos dos surdos”. Um diálogo de surdos.
Uma lição que nos ensina a “expulsar o ar”, e nos alerta para sentirmos o mero significado da frase – “Dói-me os dentes! “.
Uma palavra especial para o professor Rui Félix. Espectacular, muito bem contracenado com a força da Sara Santinho, a aluna, brilhante.
“A Lição” é mesmo o corolário do espectáculo.
E, para terminar, quero sublinhar que, nos tempos de hoje, que muitos teimam em cultivar a asfixia politica monocromática, pela incapacidade de perceberem que o mundo a “preto e branco” é coisa do passado e uma herança que temos que superar pela aprendizagem de uma cultura democrática, deixo o convite para verem esta peça e reflectirem, nesta “Lição do Mestre”, como de facto é possível viver, ou sobre(viver) para além do preto e branco.
Talvez, mesmo, perceber que o lugar que todos nós ocupamos na vida, não está na cor que vestimos, nem nos gritos em favor de um Mestre, mais ou menos circunstancial.
O lugar que nós ocupamos reside na construção de uma cidadania partilhada, que pode ter poderes de decisão polinucleados, onde a cultura do respeito pelas diferenças, é mais, muito mais que “pensar a preto e branco” e todos sermos, com actos, capazes de dar o nosso contributo para, pouco a pouco, eliminarmos a “cultura maniqueísta” que herdámos de uma história feita de Muros de Berlim e feita de Pinochet.
“As rosas do meu avô são tão amarelas…” – pois, de facto há mais cores que o “preto e branco”.
Vão ver a peça e pensem na lição de Ionesco…no trágico e absurdo que é reduzir o mundo a meros jogos de poder e a opiniões que navegam ao sabor dos ventos e dos tempos.
Quem escolhe muros…não escolhe cidadania. Nesta Europa que queremos construir de facto, como se escreve no programa deste espectáculo – “É o poder da cultura que pode recentrar o ser humano numa vida mais plena e equilibrada, para que os valores do amor, da amizade, da paz, dos sonhos e utopia, da justiça, possam ser finalmente valorizados”.
Talvez pela minha cultura de associativista, sou daqueles que acredita que há mais que dois lados, e, também, que há mais vida para além do pensar a «preto e branco»…
Porque há vida, para além, muito para além, dos meros jogos de poder, pelo poder... e quem quer exercer poder na vida local tem que ser o primeiro exemplo de referência pela valorização de uma cultura de cidadania partilhada.
Obrigado Arte Viva ! Obrigado Mário Rui Filipe !
António Sousa Pereira
Nota – Já agora parabéns muito especial ao Mário Rui Filipe por ter feito a escolha de regressar ao Barreiro e ao Arte Viva, terra onde ele descobriu o teatro e que o Barreiro agradece.
BREVES REGISTOS













