O CACILHEIROPor Maria Rosa Colaço
Almada
É então que na manhã alada, o acordeão do cego nos devolve o eco da alegria possível.

Por Jornal Rostos
Dos Mares nunca dantes navegados, restam-nos as viagens à Outra Banda, em persistentes, resistentes cacilheiros, naus familiares que nos ancoram o destino certo.
Indiferente às variantes com que se tem pretendido roubar-lhe a clientela, o cacilheiro do ano 2000 resume o português europeu com saudades inconfessadas das cangas de bois de lavradio que nunca devia ter largado.
No cacilheiro, o mundo é próximo e familiar, os olhares reconhecem-se, o diálogo ainda é possível, os mercadores do penso rápido, dos atacadores e das pilhas para o rádio, circulam intervalo dos cauteleiros, da pedinchice organizada, com cartões na lapela para elucidar os corações prevenidos.
Penélopes modernas fazem nas viagens do cacilheiro, com mãos hábeis, rendas que se vão tecendo sob o olhar de admiração das viajantes inaptas do banco da frente; jovens estudantes trocam beijos impúdicos, conclusões e cábulas sobre o Discurso do Método de mistura com as estridências dos Ena Pá 2000, que lhes gritam nos ouvidos com auscultadores; poetas experimentais escrevem e reescrevem novas versões incorrectas e mal plagiadas da Ode Marítima porque, em cada português há sempre um Álvaro de Campos à procura da posteridade.
Ao fundo, gaivotas famintas, recortam-se nos ácidos sulfurosos do céu do Barreiro onde o Kira sonha e pinta e o Sousa Pereira escreve poemas à tona da pele.
O cacilheiro, no Tejo, é assim, diariamente, a estrada possível das outras viagens que nunca faremos. Nele começam e acabam as asas e as barbatanas de luz que séculos de adaptação à vida nos têm roubado.
É então que na manhã alada, o acordeão do cego nos devolve o eco da alegria possível.
Por entre pés, cestas, jornais, indiferença e alguns ouvidos atentos, vai o cego acordeando os fados da sua memória, deixando nas vigias algumas palavras de amor, quanto baste de saudade e as raivas, breves, do nosso fado português.
Ás vezes vou aqui, na amurada do cacilheiro; olho as gaivotas que pairam, voo rasteirinho, voo picado, voo maluco e penso, Liberdade é isto: ser gaivota branca.
Gaivota do Tejo.
E mais nada..
Porque o resto é tudo conversa. Sem asas, nem espaço.
Maria Rosa Colaço
No seu livro «Almada – uma gaivota no vento»
Ano 2001
Nota
Maria Rosa Colaço, faleceu no dia 13 de Outubro de 2004. Uma amiga. Uma grande senhora.
Aqui fica este texto – actual - para recordar, com saudade de uma irmã do coração.
SP













