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Inferências

InferênciasComo vai a vida política local no Barreiro ?

Um destes dias um amigo perguntava: “Então como vai a vida política local?”.
Respondi: “O BE está hibernado. O PS faz guerrilha urbana. O CDS/ desapareceu. O PSD assume a sua bandeira do ambiente e está activo. O PCP/CDU vai gerindo e protagoniza com o trabalho autárquico a sua intervenção”.

E, dito isto, aqui fica o desenvolvimento destas ideias neste tempo tão calmo e, na verdade, tão agitado por dentro do sentir político que vai animando o quotidiano.

12 min de leitura
Inferências Como vai a vida política local no Barreiro ?

Por Jornal Rostos

A vida política local no Barreiro é sempre muito interessante de acompanhar, porque, mesmo quando parece que nada está a acontecer, há sempre registos, sinais que dão o sentido dos comportamentos e estratégias de acção politica.

PCP/CDU gere a ausência de alternativa

O PCP/CDU continua a manter em actividade de forma permanente a sua estrutura local, ligando-se à vida que mexe, nas empresas, nas associações, nos movimentos de idosos, nas freguesias, procurando fixar e animar o seu eleitorado, e, obviamente, potencia o facto de ser poder mantendo de forma activa a sua acção municipal.
O PCP/ CDU é um partido que mexe, que reúne os seus militantes com regularidade, que mantém a «máquina partidária» oleada e activa.
No PCP/CDU são evidentes as diferenças de olhares para a vida local que existem no seu seio – há uma corrente mais dura, os puristas – onde só existem os bons, que são os comunistas, e, até, para estes, dentro dos comunistas, há os bons e maus comunistas.
Há outra corrente mais classista, que está ligada às empresas, aos sindicatos, ao movimento associativo, que, por estar com a mão na massa, aprendeu a viver com as diferenças, embora, muitas vezes, com uma visão classista na forma de fazer politica.
Há outra corrente, mais de partido, esta com um forte cordão umbilical, ligada ao Poder Local, à vida autárquica, porque sabe e sente que o partido tem que ser capaz de agir na vida da cidade e não pode desligar-se da vida da cidade, sob pena de cair no isolacionismo.
Mas, todas estas diferenças espelham um espectro politico reducionista, limitado ao PCP, que carece de ser alargado, de forma a permitir olhar para a CDU como uma força politica de convergência de opções e pluralidade.
Nos últimos anos o PCP/ CDU no Barreiro tem procurado dar mais força e visibilidade ao chamado espaço CDU.
No entanto, apesar de existirem alguns sinais, poucos, com o objectivo de demonstrar que a CDU é mais que o PCP – caso do eleito de «Os Verdes» - de facto, continua a ser evidente que, no Barreiro, a CDU é estruturalmente o PCP.
Este é um problema estruturante da acção politica do PCP/CDU, porque não lhe dá abrangência e condiciona a sua capacidade de «fazer mais cidade e mais cidadania».
É evidente a CDU, como tal, não tem grande expressão política na vida local. A CDU começa no PCP e acaba no PCP.
O PCP/CDU, entretanto, para abrir a acção politica, tem conseguido ao nível autárquico desenvolver uma estratégia que “arrepia os cabelos” da oposição – as Opções Participadas, os Roteiros às Freguesias, os debates temáticos, mas, tudo isto tem sido muito «adjectivado» e pouco «substantivado».
Por outro lado, o PCP/CDU conta com uma oposição que limita-se a gerir a «oposição pela oposição» e que é incapaz de ter um discurso alternativo e demonstrar o que faria diferente, o que queria diferente para o concelho do Barreiro.
O BE não existe. O PS faz «guerrilha urbana». O PSD fomenta um discurso alternativo mas esbarra com a «cultura de esquerda» que caracteriza a identidade cultural do concelho.
Mas, o PCP/CDU tem que se preparar e não embandeirar em arco com a sua maioria absoluta autárquica, tem que se preparar porque tem muito caminho para andar e, sem dúvida, nos tempos difíceis que se avizinham o Barreiro precisa de uma esperança, de ter uma liderança.
O PCP/CDU com todos os seus defeitos continua a ser, afinal, por ausência de alternativa a força politica que tem condições mínimas para dar sentido aos destinos do Barreiro.
Mesmo que, alguns, considerem esta afirmação uma heresia, na verdade, tem sido essa a realidade que os barreirenses sentem e nos últimos anos traduziram em votos.

PSD mantém a estratégia de «cooperação institucional»

Quanto ao PSD, tem vindo a reorganizar-se, atraindo os seus quadros, já com uma perspectiva de a curto prazo poder de novo voltar ao aparelho de estado, e, naturalmente, voltar a ter influência em centros de decisão local e regional.
Nestas situações, o PSD nunca brincou em serviço, quando chega ao poder, de imediato os seus quadros, alguns já com experiência no passado, retomam funções nos diversos organismos de estado, empresas públicas e instituições regionais.
Localmente o PSD, escolheu a bandeira do ambiente como ideia-força de intervenção, e, tem vindo a desenvolver um trabalho constante de valorização das iniciativas que tem realizado ao longo dos anos, que remontam a projectos oriundos da gestão de Pedro Canário, caso do Plano Municipal do Ambiente.
Por outro lado, procura estar presente na vida local em áreas sociais, dando visibilidade a alguns dos seus rostos, com bastante sucesso e credibilidade como é o caso dos Bombeiros ou IPSS’s.
Não tendo hoje um papel de charneira na vida municipal, dada a conquista da maioria absoluta do PCP/CDU, os sociais democratas sentem que são uma força politica que, pelo seu passado histórico no Poder Local e pela forma permanente de intervenção na vida politica local e na acção local, são uma referência e continuam a exercer uma “cooperação institucional”, com resultados positivos para o concelho e para a sua afirmação politica.
O PSD embora não esteja muito interessado num regresso do PS ao poder, não deixa, no entanto, de sentir e assumir o PS como um potencial aliado para alcançar um objectivo político, que, obviamente está presente na sua acção politica, ou seja, conseguir que o PCP/CDU perca a sua maioria absoluta, de forma, de novo, voltar a assumir a sua posição de força de charneira.
Estrategicamente tem apostado em gerar acções politicas que contribuam para criar conflitualidade ideológica e de ruptura com o PCP/CDU utilizando, principalmente, como bandeira as diferentes formas de olhar para Alfredo da Silva e a importância do complexo CUF. São «fait-divers» mas geram separação das águas e irritam, principalmente, alguns sectores do PCP mais habituados a olhar o Barreiro como um «bastião vermelho» onde, para eles, tudo começa e se identifica com a acção dos comunistas.
No entanto, o PSD assume a sua quota parte de responsabilidade na gestão municipal o que lhe permite ser um partido na esfera do poder, e, simultaneamente, não deixar de ser uma força politica que não se identifica com a gestão do PCP/CDU.
A dúvida que fica, por vezes, é até onde o PSD vai conseguir gerir esta posição de querer combater o PCP/CDU e simultaneamente ser co-participante na gestão municipal.
O PSD sempre conseguiu ao longo dos anos gerir esta sua postura de equidistância, mas, com o PS a fazer uma politica de “guerrilha urbana” até onde o PSD vai conseguir estar dos dois lados – com o PS para combater a maioria absoluta do PCP/CDU, e, manter a sua estratégia de «cooperação institucional» que lhe dá visibilidade e potencia o PSD como força politica com credibilidade e responsável.
O PSD sente-se que é uma força politica que acredita, e, na sua prática, tem por objectivo de a médio ou longo prazo, ser a força que quer protagonizar uma alternativa ao PS e ao PCP/CDU.

Bloco de Esquerda está hibernado

O BE está um pouco hibernado, vai aparecendo aqui ou acolá, circunstancialmente, alguns dos seus membros – simpatizantes ou militantes - vão agindo no movimento associativo, mas, o BE não dá visibilidade a nenhuma bandeira de acção politica concreta.
Lançou reptos de acção politica colocando temas de reflexão como a importância do Rio Tejo, mas, ficou-se pelas reflexões.
Alguns dos seus membros procuram intervir localmente, ao nível da animação sócio-cultural, como acontece ao nível do Barreiro Velho, mas, acabam por ficar limitados à falta de recursos e, também, incapacidade de gerar um movimento de opinião que seja mobilizador e criador de acções que protagonizem uma corrente critica.
O BE limita-se quase à sua visibilidade na Assembleia Municipal do Barreiro onde, ora vai a reboque do PS, ora a reboque do PSD, colocando o PCP/CDU como o seu adversário principal, caso contrário, fica sem espaço de manobra politica.
O BE como não tem uma agenda politica, ou está no limbo, ou lá surge ao lado das vozes do PS ou PSD contra o «inimigo comum».
Uma das suas habituais tónicas de intervenção são as temáticas da «transparência» ou a «participação» .
Sobre «participação» não se sente a sua presença na vida local, sobre «transparência» não se entende o que pretende, pois nunca diz nada de concreto.
Mas, certamente, com o aproximar das eleições autárquicas o BE, naturalmente, vai recomeçar a sua acção politica, por enquanto, o que vemos é que está hibernado.
Em suma, o BE optou por uma estratégia de “gestão do silêncio”.

CDS/PP desaparecido em combate

Quanto ao CDS/PP que não tem eleitos na vida local, parecia ser uma força politica emergente, até, porque estava a subir a sua votação no concelho do Barreiro, no entanto, hoje não existe.
Nas últimas autárquicas até apareceu com alguma capacidade de intervenção.
As divergências internas acabaram por fazer que o CDS/PP seja neste momento um partido que, localmente, “desapareceu em combate”.
O desaparecimento do CDS/PP ao nível local favorece o PSD que, desta forma, capitaliza o eleitorado da direita que fica sem alternativa.

PS vive uma cultura de «guerrilha urbana»

O PS é a força politica que poderia ser alternativa ao PCP/CDU, mas, regra geral, tem vindo a desenvolver uma estratégia que tem mais por objectivo afirmar-se como sendo uma alternância.
Enquanto o PS não for capaz de entender que existe uma grande diferença entre ser alternativa e ser alternância, vai continuar a percorrer este caminho, que, em linguagem desportiva, costuma definir-se como “marcação à zona”.
Na prática significa andar à procura de factos ou «fait divers» que possam dar-lhe alguma visibilidade, e, na opinião pública, sentir-se que existe uma força politica que faz, ou diz que faz, oposição.
Numa autarquia que, o PS já geriu, e, vive com um orçamento inflacionado, sem recursos – falem com o Emidio Xavier - a última dos socialistas, nesta permanente táctica de “guerrilha urbana” foi a sua denúncia das taxas dos solos, discutindo trocos que prejudicam os bolsos dos munícipes.
Dá para botar figura e desviar a atenção do esbulho que o Governo está a fazer aos bolsos dos portugueses.
Dá para dizer que afinal o PCP critica o Governo e no poder faz a mesma coisa. Enfim, politiquices.
Na prática não se conhece uma agenda politica do Partido Socialista.
Na prática o PS parece que não tem um programa para o Barreiro.
Na prática o PS vive fazendo politica de “sprint” vai colado à roda do PCP/CDU, para tentar, pela esquerda, ou pela direita, fazer fugas e perspectivar-se como uma mera alternância.
O PS parece que quer funcionar como sendo um espelho do PCP, voltado ao contrário.
O PS se quer ser alternativa e deixar de ser visto apenas como alternância – sempre duvidosa - tem que ser capaz de demonstrar, com acções, o que faria diferente se fosse poder, e, naturalmente, ter a coragem de fazer a autocrítica que, até hoje, nunca fez dos erros de continuidade que protagonizou enquanto, durante quatro anos, foi poder no concelho.
O PS nem sequer é, hoje, capaz de gerar acções que demonstrem que existem diferenças estratégicas entre o PCP/CDU e o PS, na concepção do modelo de cidade.
Não se conhecem alternativas dos socialistas em relação a nada – cultura, desporto, associativismo, urbanismo, etc. - nem se conhecem linhas condutoras de uma agenda politica, com principio meio e fim, porque tudo o que faz é circunstancial, episódico, como quem «lança bombas» e procura numa espécie de «guerrilha urbana» agitar a opinião pública.
O PS procura agitar o «papão dos comunistas», com estórias de «saltos altos», e não percebe, que essas coisa, nos dias de hoje, já foi chão que deu uvas.
O PS nem sequer é capaz de perceber que o PCP/CDU, hoje, mesmo com todo o seu fundamentalismo, é mais cosmopolita e que aprendeu com os erros.
Basta escutar os «elogios» que o Provedor da Misericórdia faz ao Presidente da Câmara. E, todos sabemos, obviamente, como tudo isto é mera acção politica, mutua.
Continuo a considerar que, no actual contexto da vida politica do Barreiro os socialistas podem ser a força politica capaz de ser alternativa ao PCP/CDU, mas, para tal precisam de «fazer politica» que é muito diferente de «agitação politica».
Mas, como pode uma força politica ser alternativa, dar um contributo para unir os barreirenses em torno de um desígnio, se, ao nível interno, o PS funciona quase como um «ninho de lacraus».
Este é o drama dos socialistas, porque esta é a imagem que existe na opinião pública, independentemente, de ao nível individual o PS ter valores, existirem pessoas honestas e que poderiam ser os protagonistas de uma alternativa.
Ao PS falta-lhe estratégia autónoma, deixar de viver atrás do PCP/CDU.
O PS tem que ser capaz de fazer a catarse do PCP/CDU se quiser ser uma alternativa.
Enquanto o PS continuar a táctica de “guerrilha urbana”, de «agit prop», de cultivar o ódio em vez de cultivar a esperança ( trazendo para a vida da cidade um reflexo do que faz na sua vida interna), então, de facto, o PCP/CDU está de pedra e cal, porque consegue afirmar-se como a força politica que, mesmo com todos os seus defeitos, une os barreirenses e respeita as diferenças.

António Sousa Pereira

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