InferênciasBarreiro – «make love, not war»
O PSD tem um objectivo estratégico conseguir que a CDU perca a maioria absoluta, por isso, tudo faz para que «espicaçar» e tentar gerar situações de conflito que permitam criar factos políticos.
O PCP/CDU precisa de ter energia e ser capaz de mobilizar a opinião, mobilizar a cidadania, e , na prática ser capaz de “semear a esperança” para que nasçam frutos.

Por Jornal Rostos
Na vida política nada acontece por acaso. Há sinais que são reveladores de estratégias.
Na última reunião pública de Câmara, contrariamente ao que era habitual, os vereadores socialistas, optaram por uma postura positiva, demarcando-se do PCP/CDU, mas, simultaneamente, procurando confluir com as propostas apresentadas, nomeadamente, nas tomadas de posição sobre a Greve Geral e também sobre a manutenção do pólo ferroviário no Barreiro.
Na reunião da Assembleia Municipal do Barreiro, também os deputados socialistas optaram por tomar posições construtivas, aprovando as propostas apresentadas pela Câmara de Taxas de IMI e Derrama.
Os socialistas não deixaram de demarcar as suas posições e fazer as criticas politicas que consideravam pertinentes, mas, assumindo a responsabilidade política – de quem já geriu a autarquia e sabe que vive há anos com um orçamento inflacionado – não tem outra opção que manter as taxas de IMI, de forma a garantir aquela que é uma das principais receitas do município.
Estes factos, na verdade, vão em sentido contrário àquilo que tem sido a agenda política dos socialistas no Barreiro, que, regra geral, quer antes da Campanha Eleitoral, quer na Campanha Eleitoral, quer no pós campanha eleitoral, sempre optaram por tomadas de posição com base na critica destrutiva e ao estilo “terra queimada”.
Na reunião da Assembleia Municipal, quando Isidro Heitor, PS, sublinhou que o seu partido é “um partido de poder” veio dizer-nos - no não dito - que para os socialistas está chegada a hora de reiniciar o caminho pela reconquista da Câmara Municipal do Barreiro. Uma opção legítima, uma ambição justa. É próprio da democracia.
E, para tal, mais que estar a criticar a proposta da Câmara sobre IMI e Derrama, o que ficou claro é que o PS, pensou e bem a partir desta pergunta – Se estivéssemos a gerir a Câmara qual seria a nossa proposta?
Portanto, o autarca PS, esclareceu que a resposta à pergunta seria – “como partido responsável” – temos que aprovar a proposta da Câmara.
Os socialistas estão, portanto a dar uma viragem na forma e conteúdo, porque, certamente, chegaram à conclusão, pela leitura dos próprios resultados eleitorais, e do passado recente, que passar a vida no “ataque pelo ataque” em nada, de facto, tem ajudado o PS a afirmar-se, antes pelo contrário, tem contribuído para aumentar a sua fraqueza na vida da cidade.
Será que o PS abandonou definitivamente o ataque fácil e passou para um novo patamar, assumindo-se como partido responsável que aposta na sua afirmação como oposição, que é diferente e quer fazer diferente?
Houve um tempo em que o PS no Barreiro era um partido da resistência. Não tinha possibilidades de se afirmar como alternância, nem alternativa, por essa razão, era um partido que procurava promover a “agitação”, ou, então, hibernava e só reaparecia nas autárquicas.
Depois, quando o PCP/CDU perdeu a maioria absoluta, os socialistas começaram a ser os protagonistas de uma corrente de opinião, afirmando-se como um partido que liderava um nova visão de cidade e cidadania.
O PS foi desgastando em lume brando o PCP/CDU que, pelos anos de poder, era incapaz de mudar uma postura autista.
O PS chegou ao poder no Barreiro entre a surpresa e uma remota possibilidade pela qual lutava e até acreditava.
Chegou com ambição. Chegou com a ideia de ter uma visão de helicóptero. Sonhou alto.
Mas, os jogos de poder e as suas querelas, assim como o retomar de práticas sobranceiras que os barreirenses já conheciam de outras andanças, abriram as portas ao regresso do PCP/CDU.
O PS subestimou o trabalho de «formiguinha» que o PCP/CDU andou a fazer durante o seu mandato e, mais, subestimou Carlos Humberto, que veio a demonstrar que é um político com visão e daqueles que, consegue, apanhar no ar os sinais dos tempos.
Ainda nesta última reunião da Assembleia Municipal na qual os socialistas deixaram o sinal que vão bater-se por outro tipo de políticas sociais na autarquia, ainda o assunto meramente cheirava no ar, e, já, Carlos Humberto lançava o repto de dialogar com o Governo sobre a criação de um «Plano» para combater as questões sociais que afectam o Barreiro, encostando, claramente, o PS às tábuas.
Como alguém comentou: Carlos Humberto deixava claro que, ali mesmo, que punha de lado as «bandeiras negras», e, sublinhou, que estava disponível para encontrar soluções - com o Governo - que contribuíssem para resolver os problemas dos desempregados e da fome.
E, de facto, se quisesse, o presidente da Câmara Municipal do Barreiro podia citar o Secretário de Estado da Segurança Social que elogiou a Câmara Municipal do Barreiro pelo trabalho de cooperação e empenhamento no Programa PARES – onde autarquia, governo e instituições trabalharam conjuntamente na resolução de problemas sociais e melhoramento das condições de vida das populações.
Ou, até, citar, o Provedor da Santa Casa da Misericórdia que reconhece o apoio e contributo do seu amigo Carlos Humberto na concretização dos projectos da instituição.
Na verdade, os socialistas pegarem na bandeira das questões sociais pode ser um caminho – já não é novo – já o utilizaram no passado recente com o Bairro das Palmeiras, Quinta da Amoreira ou Quinta da Mina.
Portanto, os socialistas ao pegarem nas questões sociais como bandeira, certamente terão dificuldades de acusar o PCP/CDU de não agir, de não intervir nesta área, dentro daquilo que são competências da autarquia.
Mas, se conseguirem ao ser protagonistas desta bandeira influenciar, para que, dado o aumento de desempregados, de fome escondida e do aumento de graves situações sociais, o Governo discuta com a autarquia um «Plano de Emergência para as questões Sociais», então os socialistas estão a afirmar-se como uma oposição credível e como força politica que cresceu, aprendeu com os erros e está disponível para valorizar – “o Barreiro Primeiro”.
Um «Plano de Emergência Social», no Barreiro, até, pode ser uma experiência piloto, um exemplo para o país.
Se forem, conjuntamente com a autarquia protagonistas deste «Plano» então os socialistas estão a abrir uma brecha na acção política local, e, sem dúvida, a afirmar-se como uma oposição que, mais que querer o poder pelo poder, é uma oposição que coloca em primeiro lugar a valorização do Barreiro e a dignificação das suas gentes.
Uma oposição que é de esquerda, pensa à esquerda e quer protagonizar uma outra esquerda.
Uma oposição que sabe que o mundo mudou e que essa coisa do papão do comunismo que come criancinhas foi chão que deu uvas.
A diferença está na substancia não na adjectivação.
Ficamos à espera. Acreditamos que este assunto de certeza vai aquecer transformar-se numa temática que vai agendar a acção política local.
O fundamental, será, na verdade, não vermos, no futuro próximo, os amigos Carlos Humberto e Júlio Freire em campos opostos quando se tratar de debater, no concreto, a definição de uma estratégia de intervenção ao nível social, com a cooperação do Governo, caso venha a acontecer.
Houve um tempo que foi o PSD que protagonizou esse tipo de intervenção – o CATICA é uma herança dos tempos do Plano de Emergência no Distrito de Setúbal.
Outra nota que ocorreu da reunião da Assembleia Municipal do Barreiro tem a ver com o PSD.
Os sociais democratas no Barreiro sempre pautaram a sua acção por duas linhas de intervenção – uma de cooperação, enquanto partido charneira; outra de critica e oposição construtiva, lançando soluções e reptos, que os comunistas teimavam em não aceitar – recordo o caso do PER, ou, até as refeições nas escolas.
O PSD era o partido da acção social no Barreiro. Esta foi sempre a sua bandeira, a bandeira que, agora, o PS quer agarrar.
Mas, sempre também assisti ao PSD sendo crítico e corrosivo no plano do debate das ideias e no confronto com o PCP/CDU.
Não é por mero acaso que, ao longo dos anos, apresenta com muita regularidade, na Assembleia Municipal, moções com o objectivo de colocar os cabelos em pé aos comunistas menos flexíveis.
Mas, nos tempos de hoje, o PCP/CDU já percebeu isso e optou por deixar o PSD – “a falar sozinho”.
Naturalmente o PSD tem um objectivo estratégico conseguir que a CDU perca a maioria absoluta, por isso, tudo faz para que «espicaçar» e tentar gerar situações de conflito que permitam criar factos políticos.
Ou seja o PSD parece que está a recuar no tempo e afirmar-se como um «partido de resistência», ocupando um espaço que está a ficar vazio dado o afastamento do PS, quando, na verdade, sempre foi um «partido de opinião».
É que nos tempos de hoje, há coisas que já não colam, tanto mais quando a autarquia é liderada por um «comunista pragmático» que, simultaneamente, não abdica de valorizar a sua identidade.
Em todos os partidos existem, regra geral três correntes de opinião – os puros e duros - que vivem só para a pureza das ideias, aconchegados às memórias; os flexíveis que dão uma no cravo e outra na ferradura, vivendo um pouco ao sabor das ondas, sendo eco dos acontecimentos e vivendo atrás dos acontecimentos; e, por fim, os pragmáticos – aqueles que sabem que a politica faz-se com a vida, na vida e na cidade pela cidade.
Ora o PSD sempre se afirmou com uma estratégia pragmática, sendo Mendes Costa o grande dinossauro.
É por isso que não se entende a estratégia, nos dias de hoje, do PSD de ataque pelo ataque, mesmo percebendo que o PSD tem uma grande diferença ideológica do PCP/CDU.
Mas, o que incomoda mais é que na prática, fora do fórum AMB, o PSD é o partido que tem conseguido afirmar-se na cidade e tem dado contributos para mudanças.
O PSD fez este tipo de «guerrilha urbana» com Emidio Xavier e deu resultados, de tal forma que ajudou a CDU a reconquistar a CMB.
Só que Emídio Xavier encolhia-se, não respondia, ou, quando respondia já tinha passado o prazo. Perdia sempre.
Carlos Humberto é diferente, opta por ignorar, gere o silêncio e quando responde desfaz as criticas com subtileza total.
Ainda nesta última reunião da Assembleia assim foi, o PSD defendia que a sua proposta correspondia a uma quebra de receita de 250 mil euros, Carlos Humberto, com números esclareceu que a perda de receita era de 530 mil euros.
Ora o PSD sabe, porque sempre exerceu funções na autarquia, como esta verba faz falta – mesmo que fossem os 250 mil euros.
Não está em causa a eventual justeza da proposta, está em causa a oportunidade de a por em prática.
Em conclusão, o PSD por este caminho está a fazer o trabalho que o PS, pelos vistos vai deixar de fazer, colocando-se numa estratégia de confronto ideológico ou pseudo-ideológico ou de guerrilha urbana, dando descanso aos sectores do PS que tinham normalmente esta opção.
Será que foi esse o papel reservado ao PSD numa opção politica – táctico- estratégica - que conduza o PS ao poder, fazendo o PSD o trabalho sujo, enquanto o PS faz o trabalho limpo?
Quanto ao PCP/CDU vai ter pela frente um osso duro de roer.
Não vai ser fácil gerir esta conflitualidade – um PSD agressivo do ponto de vista ideológico, que pica, pica – “fazendo politica de pica miolos”.
Por outro lado, um PS que vai, pelos vistos enterrar o machado de guerra e optar pela acção politica pela positiva.
O PS optou pelos vistos por uma estratégia que pode ser definida – “make love, not war”.
O PCP/CDU vai ter pela frente grandes desafios que vão exigir muito bom senso, capacidade de encaixe, vontade de promover um diálogo que dê frutos e que não seja apenas «marketing».
O PCP/CDU precisa de ter energia e ser capaz de mobilizar a opinião, mobilizar a cidadania, e , na prática ser capaz de “semear a esperança” para que nasçam frutos.
Mas, por outro lado, é bom que os nossos políticos, no global, sejam capazes de pensar uma coisa – a inteligência foi distribuída a todos, uns usam-na, outros não.
É que por vezes, há por aí alguns que pensam que a inteligência é só um exclusivo de alguns, e, até, pensam mesmo, esses os comunistas – não pensam.
Como o contrário também acontece da parte dos comunistas sobre os outros os ps’s e psd’s ou be’s – também não pensam.
Não subestimem. Porque a inteligência foi distribuída por todos…pensem nisso!
António Sousa Pereira
Nota – Toda esta reflexão ocorreu-me a propósito das intervenções da última reunião da Assembleia Municipal do Barreiro.













