InferênciasRotular o «Barreiro de Dormitório» é confundir a árvore com a floresta

Por Jornal Rostos
Afinal existimos. Somos uma “cidade dormitório que não quer dormir”. Ficamos todos felizes. Rotulam o Barreiro de “dormitório” e só porque acrescentam “que não quer dormir”, já consideramos que nos estão a tratar de forma positiva.
Não sei porquê, mas, ao longo dos anos, sempre recusei essa ideia de “Barreiro Dormitório”. Talvez porque desde que vim para cá viver, nunca aceitei, que este fosse um espaço apenas para “dormir” e não “fruir”.
Sempre conheci o Barreiro como uma cidade com vida própria, com pessoas a intervir na vida do concelho – ou na sua vida associativa, ou no extinto «movimento de moradores», ou na comunidade escolar sempre activa, com projectos e actividades muitas vezes «marginais» que, mais tarde ou mais cedo obrigaram os “poderes públicos” a sentir que não podiam continuar a ignorar, ou enterrar a cabeça na areia, perante práticas que agitavam e animavam a vida local.
Sempre conheci o Barreiro como um concelho que recusou baixar os braços e sucumbir, por exemplo, perante a hecatombe de uma desindustrialização – que não foi um fenómeno local, mas sim um fenómeno de dimensão nacional e mundial.
As intervenções desenvolvidas no território da Quimiparque, com a criação do Parque Empresarial, cuja história também está por fazer, foi um grito para que, aqui, nesta margem sul, aquele território não ficasse como «uma cidade fantasma» - como aconteceu com os territórios onde se localizou a EXPO – aqui, modernizou-se, deu-se a volta por cima, criou-se dinâmica empresarial, criaram-se milhares de postos de trabalho, com pessoas reais que viviam e trabalhavam nesta margem sul.
E, nesse tempo, como é habitual no nosso país e o Barreiro não é excepção, com Velhos do Restelo a criticar.
Este foi mais um exemplo, vivo, daquilo que era a recusa de ser uma terra dormitório.
E, mesmo nos anos 70, quando ocorreu a explosão demográfica resultante da procura de casas mais baratas, de muitos que trabalhavam em Lisboa e procuravam na Margem Sul um lugar para viver com dignidade, mesmo nesse tempo, o Barreiro era um exemplo para o país de terra com iniciativas, dinâmicas que envolviam a comunidade.
Recordo apenas os Jogos Juvenis do Barreiro.
Esse era um tempo em que a «fábrica» marcava a cultura local, um tempo de milhares de empregos no complexo industrial da CUF, depois, após o 25 de Abril - Quimigal, num processo de transformações cuja história ainda está por fazer.
Um tempo em que os barreirenses sentiam, pensavam e faziam – vida para além da fábrica, conscientes que “nem só de pão vive o homem”.
As dinâmicas da vida associativa – escolas de teatro, música, desporto e actividades recreativas - geravam uma vida própria que superava esse conceito de “dormitório” que tocava algumas franjas da população.
O Barreiro não é de hoje, sempre assim o conheci, como sendo – uma terra que recusa ser dormitório!
Um dos exemplos que costumo referir foi o que aconteceu no “Barreiro Novo” que nasceu na “Cidade Sol”, nos finais dos anos 70 – na época uma urbanização modelo, pela valorização do conceito que a habitação continua no espaço exterior, com zonas verdes, espaços comerciais, escolas, creches.
Mas, sobretudo, porque os novos habitantes – muitos oriundos das ex-colónias – de imediato se auto-organizaram e dinamizaram associações associativas, promovendo eventos culturais e desportivos de referência.
Aquele era um “dormitório” que desde a primeira hora recusou esse estatuto de dormitório.
Mas, uma coisa era o “modelo”, outra coisa foi aquilo que se transformou, por erros que, felizmente, nos dias de hoje, estão a ser corrigidos com a candidatura «Cidade Para Todos».
Sim, sei, há milhares de pessoas que trabalham em Lisboa e noutros locais, e, esse, como tem sido dito é o problema do Barreiro – criar mais emprego, mas isso, não passa só pelo Barreiro, passa por uma estratégia nacional já apontada há décadas, quando se começou a falar numa cidade de duas margens.
Lisboa precisava de crescer para esta margem.
Este um conceito definido num Plano Estratégico destinado à elaboração do futuro PROT-AML.
Mas, na prática, o exposto era contraditório e difícil de concretizar com a perspectiva que se encontrava espelhada no Plano Estratégico do Oeste, e, obviamente, com a proposta de construção do novo Aeroporto de Lisboa, na OTA.
Lisboa, na realidade, iria continuar a crescer para o Norte.
Felizmente, parece que os «estigmas» que, ao longo dos anos, têm arrastado o adiamento do desenvolvimento da Margem Sul começam a ser superados.
Hoje, começa a perspectivar-se – estrategicamente – a cidade região, a cidade de duas margens.
Podemos começar a sentir uma esperança para as futuras gerações, e, o Barreiro, nesse seu esforço intenso e constante – que sempre marcou a sua cultura, que emergiu no plano teórico na gestão socialista com o pensar o Barreiro 2020, com base nos conceitos do PROT-AML, e, hoje, com o «Plano de Urbanização da Quimiparque e zonas envolventes», com a estratégia do «Arco Ribeirinho Sul», estão definidas as «âncoras» de uma estratégia, que começa a colocar o Barreiro como um território motor e fundamental na construção da «Cidade de duas margens».
Este é mais um grito, na actualidade, dessa realidade histórica que o Barreiro – não é, nunca foi e recusa que lhe colem esse conceito de «cidade dormitório»!
Há dias, foi inaugurado o «Retail Planet” e também o «Continente». Existe o «Forum Barreiro».
Há uma grande concorrência. O Barreiro é um mercado pequeno de cerca de 80 mil habitantes.
Tenho escutado os mais diversos comentários. Desconfiança. Falta de esperança.
O próprio Presidente da Câmara, que defende a criação de emprego para o concelho do Barreiro, rotulava que o emprego que está a ser criado “não é aquele que desejamos”. Fiquei incomodado.
O Barreiro precisa de emprego. O Barreiro precisa de investimento que crie emprego. É isso que está a acontecer – como dizia o Gerente do Continente – “há trabalhadores que estavam na outra margem a trabalhar, agora, pediram transferência para o Barreiro, trabalham aqui, não gastam verbas em transportes, vão a pé para casa e até vão comer as suas refeições em casa.” Não é isto emprego com qualidade?
Este emprego e este investimento que está a ser feito no Barreiro – FORUM, RETAIL, CONTINENTE – todas estas grandes superfícies, mais que se olharem como concorrentes entre si, penso que têm que ter uma estratégia comum com objectivo de conquistar um mercado de cerca de 300 mil habitantes.
Este investimento pode contribuir para que o Barreiro deixe de estar aqui num beco – e mesmo sem ponte – começar a atrair populações de zonas limítrofes.
Tem que existir uma estratégia comum de promoção da imagem do Barreiro, para gerar atractividade ao Barreiro.
É preciso que a Restauração local seja estimulada a modernizar-se e que ao Concurso de Gastronomia Ribeirinha se juntem outras iniciativas que promovam o prazer de vir ao Barreiro – comprar, comer e fruir do espaço.
É preciso dar ao Parque da Cidade uma dimensão desportiva e cultural.
É preciso prosseguir com a modernização da Rua Miguel Bombarda e da Avenida Alfredo da Silva, continuando a acreditar que o centro da cidade tem vida própria – já se sente o pulsar - e pode ser mais dinâmico.
É preciso de facto dar força e visibilidade e colocar o Barreiro numa «Rota do Turismo Industrial», e, diga-se, para isto, não é preciso ponte. Pode, e deve ir avançando.
A construção da ponte tem uma dimensão estratégica maior – a construção da cidade das duas margens – é um desígnio regional e nacional. E deve ser gerido no contexto da realidade sócio-económica do país.
Mas, com ou sem ponte, o Barreiro não pode parar. As novas grandes superfícies podem ajudar a promover a imagem do Barreiro. O Continente está a dar esse contributo.
É preciso que o Barreiro comece a fazer parte dos itinerários de passeios e convívios – um ponto de encontro da região.
O Barreiro tem que apostar em ter mais vida própria, continuar a ter como sempre teve vida própria.
O Barreiro não é dormitório. As pessoas que vivem no Barreiro e trabalham nas zonas limítrofes, não se isolam da vida local, se tiverem ordenados, se tiverem condições de vida, quando as pessoas têm pão, depois, na forma de ser e estar que caracteriza o modo de ser e estar no Barreiro – as pessoas sabem, por experiência histórica, que nem só de pão vive o homem.
Mas é preciso criar mais emprego no Barreiro. É preciso pensar um «cluster», como tem sido dito ao nível da vertente ferroviária, outro ao nível da dimensão náutica – desportiva e portuária.
O Barreiro tem muitas potencialidades e, é, sem dúvida, uma plataforma de centralidade.
A pergunta que se coloca hoje é esta - Que cidade queremos?
Podemos ser uma «cidade-concelho» ( um conceito introduzido no PDM, na gestão de Pedro Canário) com diversos pólos de atractividade, com significado de referência de «centralidade» na AML e Península de Setúbal.
A dimensão comercial emergente, é, de facto, uma dinâmica, que, pode, desde já, retirar o Barreiro do beco que tem estado nos últimos anos, se todos os agentes envolvidos económicos e autárquicos, forem capazes de dar as mãos e perceber – todos ganhamos se promovermos o Barreiro.
Ah! É verdade – já agora – nesta dimensão comercial continua em aberto a proposta do António Caboz Gonçalves, de dar vida a um Mercado de Artesanato, velharias, e animação que poderia contribuir para fazer do Barreiro Velho um pólo que se integra nesta dimensão – atractividade económica/comercial - que certamente contribuiria para criar emprego directo e indirecto.
Basta acreditar. Sonhar. Construir.
Numa primeira fase até podia nascer com base no voluntarismo e com a paixão que é colocada por aqueles que, nos últimos tempos, vão dando vida à animação dos Espaços Verdes.
Ocorreu-me esta reflexão porque, sinto, hoje, como ontem, vivendo no Barreiro, trabalhando no Barreiro, sonhando com um Barreiro a pulsar de cidadania, activo – Terra Escola de Liberdade - sempre, desde sempre, ao longo do tempo, recusei esta classificação de «Barreiro Dormitório».
Para mim, rotular o «Barreiro de Dormitório» é confundir a árvore com a floresta, é colar ao Barreiro um conceito que não faz parte da sua história, nem da sua realidade.
Como pode o maior centro industrial do país nos séculos XIX e XX ser rotulado de «cidade dormitório»?
Mas, diga-se, este conceito - «Barreiro Dormitório», ao longo dos anos, tem sido sempre um fantasma que toca a forma de pensar o Barreiro, principalmente as «elites locais» que, desta forma, criam um bode expiatório, para se desculparem das insuficiências, conflitualidades laterais, e, do dever de assumirem a responsabilidade de agir, - com coragem, com estratégia, com vontade, com visão.
É mais fácil optar por colocar um carimbo – “somos cidade dormitório», «somos cidade adormecida» ou «somos a cidade dormitório que não quer adormecer».
Assim, adormecemos descansados!
Parece que ficamos felizes por, hoje, dizerem que somos «uma cidade dormitório» que recusa dormir.
Por mim, o Barreiro sempre foi uma cidade onde o conceito dormitório não cola, não é real, é ficção.
Continuo a acreditar que, com estratégia, com visão, com sonhos, seremos capazes de ser mais e melhor e, de facto, não nos transformarmos naquilo que dizem que somos e não somos.
António Sousa Pereira













