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Inferências

A(nota)mentosA arte, os artistas e o Barreiro
Por António Sousa Pereira

A ideia que tenho é que os artistas do Barreiro estão «cansados» de estar «cansados».
Cresceram a sonhar.
Desenvolveram projectos e descobriram que, afinal, o mundo continua a rodar...
Sentem que o sol nasce todos os dias. Sabem, até que o sol brilha.
Acreditam que a vida vai dando novos sentidos às cores – por isso continuam a ter imaginação e criatividade.

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A(nota)mentos A arte, os artistas e o Barreiro Por António Sousa Pereira

Por Jornal Rostos

Uma cidade pulsa quotidianamente. Nós sentimos esse pulsar. Todos os dias existem acontecimentos que permitem pensar a cidade e a vida que faz a cidade.
São pequenas conversas. São grandes conversas. São pequenos gestos. São grandes gestos.
A cidade transporta no seu quotidiano emoções – as nossas, as dos outros e todas elas se cruzam no pensamento.
A cidade transporta no seu quotidiano os nossos segredos.
Ontem estive na inauguração da exposição da Artesfera. Debrucei os meus olhos sobre as «emoções» dos nossos artistas.
E, ali, enquanto se aguardava aquele momento «tradicional» de assinalar a «inauguração», fui trocando palavras com alguns dos presentes e ouvindo conversas sobre a arte e os artistas.

Ao pensamento iam ocorrendo outros momentos, de outros tempos.
Recordei aquela vontade de «rasgar o silêncio» e abrir uma porta ao mundo das artes no Barreiro, quando o Kira, na sua garagem na Recosta, inaugurou uma Galeria, por onde passaram nomes de referência nas artes – Bual, José Viana.
Recordei, quando na Livraria Bocage, se abriu aquele espaço à realização de exposições, salvo erro a primeira com obras de Manuel Cabanas, seguindo-se muitas outras.
Recordei, quando no “31 de Janeiro- Os Celtas” foi realizada aquela exposição sob o tema, salvo erro – A Arte dos Novos, com um cheiro a Primavera, que tanto agitou a vida local.
Recordei que o Barreiro é uma terra que tem nomes que fazem a sua memória e o seu presente no mundo das artes – Américo Marinho, Kira, Isabel Seruca, Chico Beja, Fátima Romão, Luis Ferreira da Luz, Manuel Cabanas, Eugénio Silva, Camarro, Isana, e, tantos outros mais anónimos, mas que ao longo do tempo foram também afirmando os seus trabalhos e nunca deixaram de criar e dar aso à imaginação.

Uma das interrogações que tenho, ao longo dos tempos, e sobre a qual tenho pensado - Porque não se conseguiu até aos dias de hoje, de forma concreta, consolidar uma Galeria de Arte no Barreiro que possa ser uma referência na Área Metropolitana de Lisboa?
Artistas temos. Saber acumulado temos. Experiências enriquecedoras temos.
Deixo-vos esta nota para reflexão.

Ontem, numa das conversas na Galeria Municipal de Arte eu comentava para um dos participantes que considerava de alguma forma que os artistas do Barreiro não têm sido capazes de se afirmar com uma dimensão própria como protagonistas no fazer cidade e cidadania.
Sublinhei, até, noutra conversa, que falta ao Barreiro uma energia que seja capaz de envolver e potenciar a arte e os artistas como elementos de referência da imagem da cidade.

Pensemos por exemplo, se a Galeria de Arte do Barreiro, podia, ou não, ser um projecto animado e dinamizado, tendo o apoio «técnico» municipal, mas deixando a uma «tertúlia-forum» de artistas o planeamento da sua programação, ou até, porque não, designar um «Comissário» permanente que, pela sua experiência e conhecimentos fosse uma referência para o desenvolvimento da sua programação. Já defendi, um dia, a designação do Kira.
O objectivo era envolver a «comunidade das artes» nas actividades regulares da Galeria Municipal de Arte.
Mas, pronto, isto é, apenas, uma mera especulação.

Ou seja, o objectivo seria «des-municipalizar» a Galeria Municipal, e, dar-lhe uma dinâmica para além daquela «obrigatoriedade» de existir, porque tem que existir…
Mas, isto é tão complicado.

Por vezes a sensação que tenho é que há um «excesso de município» na promoção das Artes, mas, contraditoriamente, o que sinto é que, afinal, se não houvesse esta presença do município então seria um vazio total…
No Barreiro não há mecenas para as Artes, e, portanto, tudo passa pela capacidade da autarquia em apoiar o desenvolvimento das Artes.
A Ilustrarte foi um exemplo.

A ideia que tenho é que os artistas do Barreiro estão «cansados» de estar «cansados».
Cresceram a sonhar.
Desenvolveram projectos e descobriram que, afinal, o mundo continua a rodar...
Sentem que o sol nasce todos os dias. Sabem, até que o sol brilha.
Acreditam que a vida vai dando novos sentidos às cores – por isso continuam a ter imaginação e criatividade.

O que desejo apenas é que, no futuro, os nossos artistas possam ser uma referência para a promoção da imagem da cidade.
Em primeiro lugar dando espaços e promovendo nomes que fazem parte da «Galeria da Memória» - Manuel Cabanas, Américo Marinho, Augusto Cabrita.
Em segundo lugar, abrindo espaço aos contemporâneos e não perder as suas potencialidades – Kira, Isabel Seruca, Eugénio Silva, Guta, só para citar, alguns grandes nomes das artes. Criando um espaço permanente, até com carácter rotativo, onde a presença dos artistas contemporâneos do Barreiro, seriam divulgados.

De imediato o que fazia na Galeria Municipal era criar a Sala Manuel Cabanas, a Sala Augusto Cabrita ( caso não criem a Galeria permanente de Augusto Cabrita, no Auditório Municipal com o seu nome, onde já, de há muito devia existir), a Sala Américo Marinho – exposições permanentes, bem estruturadas e com suportes técnicos de promoção da sua imagem.
Uma pequena brochura com referência a estes nomes.
Um pequeno vídeo de apresentação aos visitantes da obra e dos homens.
Promover a existência destas Salas junto às escolas e divulgar na região.
A Galeria Municipal passava a ter de forma permanente uma «Mostra dos Mestres Barreirenses».
Depois, ao longo de cada ano, nunca deixaria de promover eventos para recordar e projectar a imagem destes grandes senhores das Artes.

Por fim, para programar as exposições anuais na Galeria Municipal «criava» um observatório das Artes do Barreiro, promovendo uma reflexão com todos os criativos da comunidade, interessados em participar para, com eles, encontrar soluções e propostas, deixando de calendarizar por «via administrativa».
De certeza que nunca mais iria escutar um artista plástico do Barreiro a dizer, como escutei ontem – “Já passaram alguns anos desde que aqui fiz a minha última exposição e, entretanto, continuei a pintar…”

Pronto, por aqui ficam estas ideias que me ocorreram ontem, quando da inauguração da exposição da Artesfera – sim, senti como :o regresso da Artesfera!

António Sousa Pereira

Foto – Francisco Palma, presidente da Artesfera

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