InferênciasAno de centenários: futebol, cooperativismo, corticeiros e a «identidade do Barreiro»
É que, na verdade, a «identidade do Barreiro» é feita destas muitas «culturas» centenárias, e, se não estudamos o passado, de forma aberta e plural, corremos o risco de «abafar» a pluralidade dessa identidade.

Por Jornal Rostos
Não sou historiador, nem investigador da história local, mas, despertam-me a atenção os eventos que trazem à memória factos que marcaram as gerações que nos antecederam e das quais herdámos aquilo que hoje somos.
Não sou natural do Barreiro, as minhas memórias de vivências locais remontam há 40 anos atrás, ou 50 anos, se tiver em conta a primeira vez que visitei esta terra, nos anos 60, quando me desloquei, num fim de semana, com o meu pai, para visitar no Bairro das Palmeiras, um seu amigo de infância, que, ali, tinha uma Barbearia, salvo erro o seu nome era «Becinho».
Mas, deixando estas notas introdutórias, circunstanciais, o que pretendo comentar é o facto de este ano serem celebrados dois centenários de associações barreirenses – a Cooperativa «Os Corticeiros» e o Futebol Clube Barreirense.
Aliás, o mesmo ano em que se assinala o centenário da fundação do jornal humorístico do Barreiro - «O Diabo» que existiu entre 1911 e 1913.
O ano 1911 foi ano seguinte às Greves que agitaram o Barreiro – 1910 – muito bem estudadas e reflectidas na obra de Vanessa de Almeida, «Um Discurso Escondido», que marcaram as profundas divergências dos sindicalistas com o novo regime republicano.
O ano 1911 é marcado pelo surgimento da nova Constituição da República, após a instauração do novo regime.
O ano 1911 é marcado pela separação da Igreja do estado e, também, pela consagração do descanso semanal.
Curiosamente, é, neste contexto que surge, legalmente, a Cooperativa de Consumo «Os Corticeiros», afirmando a cultura cooperativa no Barreiro cuja tradição remonta ao ano de 1877.
Curiosamente, é, neste contexto que nasce o Futebol Clube Barreirense, dando continuidade a práticas e projectos que vinham a desenvolver-se no Barreiro desde 1901, segundo conta José Rosa Figueiredo, na sua história dos 70 anos do clube.
Mas, voltando atrás, a minha curiosidade (e o desafio que lanço aos historiadores e investigadores da história local, pois, eles, de facto, é que podem ajudar-nos a perceber o passado, para, na verdade, melhor entendermos o presente), dizia, que a minha curiosidade incide sobre duas perguntas:
– 1º porque ao longo dos anos se fala tanto, no Barreiro, sobre a «cultura ferroviária» e a sua importância na «identidade barreirense», e, na verdade, raramente se fala da importância da «cultura corticeira»?
-2º qual a importância em termos de desenvolvimento da «coesão social» da comunidade do Barreiro, terem nascido, no mesmo ano, após a implantação da República, estas duas instituições – Cooperativa «Os Corticeiros» e «Futebol Clube Barreirense» ?
Estes dois centenários deviam merecer uma reflexão por parte daqueles que investigam.
A realização de um «Seminário/Debate» de reflexão sobre as memórias e estórias destas duas instituições, e, obviamente, debater a sua importância na vida local devia merecer uma atenção especial.
Quer pela importância do fenómeno futebol na vida do Barreiro, pois, também, esta, é uma «cultura» que influenciou gerações.
Quer pela análise e reflexão do cooperativismo na vida local, que, sendo de grande significado, tem sido sempre algo «residual» na avaliação do seu enquadramento nas dinâmicas associativas locais.
Há a presença de uma «cultura do futebol» na identidade do Barreiro?
Tem importância a «cultura cooperativa» na «identidade barreirense»?
Como não sou historiador, nem investigador da vida local, fico, apenas com a curiosidade desperta.
E, naturalmente, lanço o desafio para que, neste ano de dois centenários, seja promovido um debate sobre estas temáticas.
Afinal, digo-vos, a sensação que emerge das minhas perguntas sem resposta, é, que, também, sobre estas matérias parece existir «um discurso escondido» que urge trazer para a luz do dia.
É que, na verdade, a «identidade do Barreiro» é feita destas muitas «culturas» centenárias, e, se não estudamos o passado, de forma aberta e plural, corremos o risco de «abafar» a pluralidade dessa identidade.
Acho que, ainda hoje, continua por debater, reflectir e abordar a importância do Futebol na história e nas memórias do Barreiro.
Este ano de centenário do Futebol Clube Barreirense podia ser o ponto de partida para ser promovida essa análise – no pensar individual e no sentir em equipa.
Na visita que fiz à exposição que assinala o centenário da Cooperativa, hoje - Cooperativa Cultural Operária Barreirense – fiquei desperto, ainda mais, para a importância e necessidade imperiosa de ser pensado o papel do cooperativismo na «identidade do Barreiro», e, naturalmente, debater essa matéria, porque, ao longo da história, o cooperativismo, apesar de presente – na resistência, na luta pela liberdade, e, na sua acção na formação de gerações – ficou para a memória colectiva como algo apenas residual.
Outra, curiosidade, para mim em aberto, é esta: «cultura ferroviária» e «cultura corticeira», são duas correntes de pensamento e formas de estar no Barreiro?
A «cultura corticeira» também não é uma marca na «identidade do Barreiro»?
Ficam, pois, estas notas para pensar…
António Sousa Pereira













