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Inferências

A(nota)mentosUm Manifesto de Maio «para um mundo melhor»
por António Sousa Pereira
Barreiro

Hoje, ao ler o Público, deparei com um Manifesto subscrito por um conjunto de cientistas da área de Ciências Sociais que afirma partilhar valores «de democraticidade e de justiça social», que alertam para a «crise económica», e, referem as «consequências negativas no que diz respeito ao progresso da humanidade».
Alertam que o «ataque ideológico ao modelo social europeu é um ataque ao mundo, dado que aquele é um modelo padrão”.

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A(nota)mentos Um Manifesto de Maio «para um mundo melhor» por António Sousa Pereira Barreiro

Por Jornal Rostos

Chegam até mim, via Antena 2, os sons andinos do Chile. Paro e penso, divago pelas recordações de um tempo em que discutíamos de forma acalorada, antes do 25 de Abril e depois dessa data histórica, se a mudança, a revolução era possível pela via democrática, pelo voto dos cidadãos – o Chile era a referência mundial desse debate.
Salvador Alllende um símbolo, um homem do socialismo democrático, um sonhador que acreditava num mundo melhor. Recordo debates acalorados que, depois, no pós 25 de Abril, no calor da revolução, sustentávamos, recordando o golpe de Pinochet e as vitímas anónimas e, também, as figuras públicas da arte, da música, da cultura.
Escuto estes sons andinos, na Antena 2, hoje, dia 1º de Maio – Dia do Trabalhador – e a minha memória feita de tempo vivido percorre esta distância do pensamento, até, àquela noite de 11 Setembro de 1973, quando, na varanda da minha casa, então na Rua Adelina Abranches, ao escutar a Rádio Renascença, no Programa Limite, estes mesmos sons, faziam sair dos meus olhos lágrimas sufocadas, pensando o Chile de forma solidária e sentindo a dor daqueles que morriam, entre eles Salvador Allende, ou os milhares que foram feitos prisioneiros nos campos de futebol de Santiago.
Senti a dor, por sentir «derrotado» ou «adiado» o sonho de um povo que queria mudar a vida do seu país, e, construir um mundo melhor, com a força do seu voto.

Estamos em Maio de 2011, hoje, aqui, escuto estes sons andinos e sinto que afinal, esse sonho de um mundo melhor continua a ser uma realidade e, uma força que move muitos homens e mulheres por todo o mundo, com diferenças de modos de agir, com propostas alternativas, mas todos com uma ideia central: há mais vida para além do deficit.
Hoje, ao ler o Público, deparei com um Manifesto subscrito por um conjunto de cientistas da área de Ciências Sociais que afirmam partilhar valores «de democraticidade e de justiça social», que alertam para a «crise económica», e, referem as suas «consequências negativas no que diz respeito ao progresso da humanidade».
Alertam que o «ataque ideológico ao modelo social europeu é um ataque ao mundo, dado que aquele é um modelo padrão”.
Sublinham a importância de «todos serem interpelados, descontentes e explorados, pois, «não podem ser mobilizados pelo “medo” para soluções autoritárias. E corre-se esse perigo».
Consideram essencial a construção de novos paradigmas, que contribuam para «o compromisso a todos nós, para que diminua a distância entre governantes e governados», apostando no «aprofundamento da democracia», e, visando que seja possível trabalharem «em conjunto todos aqueles que estão dispostos a trabalhar por um mundo melhor».
É um manifesto que vale a pena ler e sobre ele reflectir. Um manifesto que lança o repto de «construção de um movimento social internacional» que seja capaz de unir vontades para “enfrentar o actual capitalismo desenfreado que se quer fazer “senhor do mundo” e reféns as pessoas que o habitam».

Fica o registo…com esta certeza, parafraseando Jorge Sampaio: «há mais vida para além do deficit», e, agora, actualizando, para além do FMI e dos PEC´s todos que nos foram sucessivamente aplicando...reduzindo o Estado Social, e, de facto, na prática, rasgando compromissos que foram aceites por gerações - também hoje à rasca - que trabalharam durante anos, e, agora, foram espoliadas de direitos, pois, os deveres cumpriram-nos!
Esperemos que seja possível esse mundo melhor. Um mundo onde não seja a força do «capital» a impor as regras, como tem sido nas últimas décadas, de facto, neste Portugal à beira-mar plantado...

S. P.

Post scriptum - O que este Manifesto veio gritar, hoje, neste dia 1º de Maio - Dia do Trabalhador - é que é preciso trazer para a politica a sua nobreza, os valores, o debate de ideais, o confronto democrático de valores, e, que, de uma vez por todas se acabe com a política espectáculo, feita de marketing, de ilusões, de promessas, de venda da «banha da cobra»...que depois passadas as eleições vão para gaveta.
É tempo de sonhar com um mundo melhor e de fazer renascer a esperança!
É tempo de acreditar que a politica - com ideias - é essencial à vida e, que, é dela que se faz a vida democrática, com energia suficiente para dizer não ao «capital financeiro» que sufoca a humanidade.

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