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Inferências

InferênciasNa região de Setúbal – a hora do «confronto» esquerda - direita

A esquerda se não perceber que a diferença reside em valores e ideário, consubstanciado nas práticas quotidianas, dificilmente conseguirá travar esta viragem do eleitorado à direita.

Os tempos que se avizinham vão exigir, mais democracia, mais valores, mais ideologia, mais diversidade, mais cultura democrática e mais respeito pelas diferenças.

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Inferências Na região de Setúbal – a hora do «confronto» esquerda - direita

Por Jornal Rostos

Pronto, passada a fase dos PEC1, PEC2, PEC3, PEC4, conhecido o programa da Troika (mais pec, menos pec), passada a campanha eleitoral onde tudo passou ao lado dos “pec’s”, cá estamos, neste Portugal que optou por votar à direita, apesar de todos os alertas e sobressaltos sobre os perigos dos ataques ao Estado Social.
Os portugueses estiveram-se nas tintas para os papões e, de facto, fizeram a catarse da direita, gostem, ou não gostem, as forças de esquerda.
Agora, o que por aí vem, com mais lutas, ou menos lutas, será, talvez, o arrumar das contas, e, para já, entrarmos nessa «cultura europeia» que anda à procura de si própria, indecisa, entre dois pólos – valorizar a importância do euro e a economia de mercado, ou, optar por uma «economia solidária», que integre e não exclua, contribuindo para o desenvolvimento e consolidação do projecto Europeu.
Bom mas, deixemos este assunto para outro momento…
Falemos dos resultados eleitorais de 5 de Junho, particularmente no que diz respeito ao Distrito de Setúbal, pois, na verdade, se passarmos os olhos pelos diferentes concelhos, encontramos, praticamente, as mesmas opções do eleitorado, com mais, ou menos expressão.
Estes resultados permitem abrir um conjunto de diversas pistas de reflexão.

Afastamento dos cidadãos dos partidos

A primeira reflexão é o registo dos níveis de abstenção e a dimensão, pouco referenciada, de votos brancos e nulos, este, no seu conjunto mais de 16 mil eleitores.
Esta realidade demonstra o afastamento dos cidadãos da vida política, o sentido critico em relação à vida partidária, num distrito, onde a acção politica foi sempre caracterizada por valores e ideais e como forma de vivência da cidadania.
O aumento da abstenção é preocupante, numa região onde a politica é sentida nas vivências diárias – nas fábricas, nas escolas, na vida associativa, nas autarquias.
Os partidos essenciais à vida democrática e principais responsáveis pela motivação dos cidadãos na “coisa pública” deviam reflectir sobre esta realidade, e, avaliar como, será possível motivar os cidadãos para que não abdiquem de ser actuantes e participarem na resolução dos problemas do país e das suas comunidades.
Ou, será que os partidos já esqueceram que deviam ser a principal escola de promoção da vida democrática.

Eleitorado faz a «catarse» da direita

A segunda reflexão, é, de facto, pensar como num distrito que tradicionalmente tem um eleitorado com um «coração à esquerda» começa a sentir-se uma viragem, que se expressa num crescimento na votação dos partidos de direita e centro direita.
Talvez, seja a hora de pensar que, essa ideia, durante alguns anos erguida, do “papão da direita” – uma espécie de «comem criancinhas» ao contrário – já foi chão que deu uvas, porque, em democracia, há diversidade de opiniões, e, os partidos são precisamente a expressão dessa diversidade.
O aumento de votação nas forças de «direita» devia levar as forças de «esquerda» a reflectir em que medida não foram capazes, neste quase 40 anos, após o 25 de Abril, de consolidarem e demonstrarem a dimensão político-cultural que marca a diferença entre ser de «esquerda» ou ser de «direita».
Há uma realidade que marca a vida política distrital durante décadas, isto é, a existência de um «bloco central» na região influenciado pelo PCP e PS.
Esta votação em crescimento das forças de «direita» não deve ser olhada de ânimo leve, pois, ela, no essencial, demonstra que o tradicional «bloco central de esquerda» está a sofrer desgaste, e, que, afinal, no distrito estão a começar a afirmar-se tendências de se aproximar do «bloco central – o centrão» nacional.
As forças de esquerda foram as grandes perdedoras. O BE perdeu mais de metade do eleitorado. O PCP/PEV estabilizou a sua base social de apoio.
O PS perdeu de forma significativa eleitorado, tendo, eventualmente, capitalizado os «descontentes» do BE, e, aquela base social que, pelos vistos, ainda vota de forma reactiva, contra o «papão da direita».
Pelos resultados das forças de direita, pode, de facto, de momento, pensar-se que o eleitorado do distrito começa a fazer a «catarse» da direita.

Forças políticas com «ideário»

Outra reflexão que emerge dos resultados eleitorais é que, no distrito, o eleitorado vota com alguma consciência político-ideológica.
As forças políticas com «ideário», concordando-se ou não, foram aquelas que cresceram e mantiveram a sua base eleitoral.
O eleitorado respeita as forças políticas que se afirmam com «consistência ideológica» ou «objectivos politico-programáticos».
No essencial, todas as forças políticas com ideário mantiveram, a sua base social de apoio – PCP/PEV, PSD, CDS/PP e, até, uma força política nova, como foi o caso do PAN, recebeu sinais de afecto do eleitorado.
Outras forças políticas difusas, como o Bloco de Esquerda, sofreu profundo desgaste, fugindo o seu eleitorado para o PS, não por razões ideológicas – tou court – mas por razões pragmáticas, os tais aspectos relacionados com o «medo da direita».
O PS sofreu desgaste, por um lado, certamente, pelo efeito de rejeição de José Sócrates, e, pela sua indefinição política – ausência de ideologia - que, nos últimos anos, afastou o PS do seu centro politico.
O PS não sofreu mais, porque beneficiou do novo «recentrar do eleitorado» que lhe dá o benefício da dúvida de ser, afinal, a força à «esquerda» que marca esse pulsar «anti-direita» ao nível nacional.
É curioso olhar para o mapa eleitoral nacional e verificar, nos dias de hoje, que na mancha de cor, ao nível dos distritos, aquela que outrora era a mancha de cor da CDU – Évora, Beja e Setúbal - hoje, resiste à onda laranja, com a afirmação das cores rosa.

PCP/PEV uma força politica de referência

O PCP/PEV com este processo eleitoral consegue, mais uma vez, dar passos em frente, mesmo que pequenos, para se manter como uma força política de referência na região.
O PCP/PEV consolida, de forma estável, a sua base social de apoio, facto, que, naturalmente, não é indiferente, ser um partido que exerce poder político autárquico na região.
No entanto, o PCP/PEV não consegue ainda, alargar de forma substantiva a sua base social de apoio, perdeu algum eleitorado, naturalmente, até, pelo efeito do «papão da direita» que levou alguns eleitores a optar pelo PS.
Ao PCP/PEV, tudo indica, continua faltar-lhe a consolidação e desenvolvimento de uma linha estratégica que, na verdade, lhe permita ser «mais CDU».

Bloco não consegue ser alternativa ao PCP/PEV

O Bloco de Esquerda, não sendo partido de poder na região, não se afirmando, no quadro nacional, como partido que possa protagonizar qualquer aliança para entrar no “quadro da governação”, começa a deixar cair a «esperança» que alguns sectores descrentes do PCP, colocaram, e, talvez, vissem no Bloco como sendo uma força capaz de marcar a diferença, e, tornar-se, eventualmente, o “grilo falante” do PS, na criação de uma «maioria de esquerda».
Este esvaziamento politico já tinha sido sentido quando das presidenciais, pois, o BE, não acrescentou nada, em termos de votação, à candidatura de Manuel Alegre.
O Bloco de Esquerda, com o resultado eleitoral de 5 de Junho, está numa fase difícil e de mudança, e, as suas duas principais tendências vão, certamente, retirar lições dos resultados.
Penso que no BE, a partir de agora, nada vai ficar como dantes – ou opta por continuar o caminho de fazer um permanente «sprint» na roda do PCP/PEV, ou, então, opta por se afirmar como uma esquerda que, quer fazer alguma diferença, e, afinal até está disposta a entrar na área da governação.
Este caminho de ser um PCP/PEV estilo «moderno» deu como resultado a perda de eleitorado e abriu um caminho sem retorno.
Uma coisa é certa, o Bloco não consegue ser alternativa ao PCP/PEV, porque ao Bloco falta-lhe ser poder, para criar uma base social de apoio sólida, e, também, falta-lhe uma clara definição «ideológica».

PSD referência para o eleitorado «centro-direita»

A votação nas forças de direita diga-se aquilo que se disser, perante a frieza dos números, demonstra uma alteração do comportamento do eleitorado no distrito de Setúbal. Tal, de facto, já tinha dado sinais visíveis quando da eleição de Cavaco Silva para Presidente da República.
O PSD recupera o eleitorado que já tinha conquistado nos tempos das maiorias de Cavaco Silva, dando sinais que começa a ser uma força de referência para o eleitorado «centro-direita», roubando espaço ao PS que também tem bebido nesta área.
O PSD é, sem dúvida, o grande vencedor no distrito de Setúbal, por conquistar uma franja substancial do eleitorado, por conquistar deputados, e, acima de tudo, por gerar fracturas no tecido sociológico que, podem, ou não, ser decisivas.
Se olharmos, com realismo, os números em alguns concelhos, e, se pensarmos que a abstenção se aproxima dos valores das autárquicas, esta realidade deixa em aberto que, num cenário de alianças PSD/CDS-PP, estes partidos, nas próximas eleições autárquicas podem começar a sonhar que está aberta a possibilidade de conquistarem Câmaras Municipais na região.
E, caso, ainda, com o programa da troika se registem alterações ao nível do número de municípios, a criação de mega municípios – que pode afastar a influência do fenómeno de proximidade actual – então, de facto, o PSD/ CDS-PP ainda mais podem sonhar em tornar-se uma força com mais influência na região.
O PSD por muito que doa às forças de esquerda está a conquistar espaço politico na região devido à incapacidade política da esquerda.

CDS/PP vai dar força à diversidade

O CDS/PP cresceu na região, aliás, tem sido um crescimento regular de eleição para eleição, sem que tal resulte de um trabalho político concreto na região.
O CDS/PP tem conquistado eleitorado por via de se afirmar com um «ideário», e, demarcar-se da realidade sociológica tradicional da região.
Por outro lado, por ser um partido que aposta na «área da governação» torna-se apetecível para os eleitores, e, pouco a pouco, tem vindo a criar a sua estrutura regional.
O CDS/PP não é um adversário directo das forças de esquerda, mas, é, de facto, um concorrente do PSD, e, na verdade, com o seu crescimento e com a sua acção contribui para desenvolver a afirmação da direita na região.
Não foi por mero acaso que Paulo Portas escolheu Setúbal como lugar para encerrar a campanha eleitoral, o líder do CDS/PP, de há muito percebeu que sendo esta região um espaço onde a politica se faz pelo confronto de ideias, aqui, chegou a hora de sublinhar que, na realidade, a democracia se constrói com direita e esquerda.
A esquerda que se cuide, porque isso do «papão da direita», com os PEC’s e com as «troikas», é coisa, que o eleitorado, deu os sinais neste acto eleitoral, pouco conta, ou conta quanto baste perante a dureza da vida.
Não basta afirmar esquerda, é preciso afirmar diferença – em actos, valores e princípios.
O CDS/PP veio dizer que, de facto, os políticos não são todos iguais, porque, acima de tudo, os políticos são diversidade.

Esquerda está a perder autoridade moral

A esquerda se não perceber que a diferença reside em valores e ideário, consubstanciado nas práticas quotidianas, dificilmente conseguirá travar esta viragem do eleitorado à direita.
Como disse, um dia, estas eleições de 5 de Junho, marcam, aqui e agora, um novo tempo e, impõem, uma nova forma de estar e fazer politica – sem papões e sem comer criancinhas – porque, agora, temos pela frente uma «via democratizante», para trás, talvez, vão ficar os resíduos de uma «via socializante», e, isto, em nada significa, pensar, o «fim da história».
A esquerda tem responsabilidades acrescidas, porque, na vida política, para se ter poder politico é fundamental ter, autoridade política, e, também, ter autoridade moral.
O que está a acontecer na região de Setúbal é que, na verdade, a esquerda está a perder autoridade moral, e, não está a ver os sinais dos tempos – os números e as opções dos eleitores.
Os tempos que se avizinham vão exigir, mais democracia, mais valores, mais ideologia, mais diversidade, mais cultura democrática e mais respeito pelas diferenças.

António Sousa Pereira

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