Barreiro - a cidade dos três «dês»Por António Sousa Pereira
O Barreiro hoje tem excesso de memória e ausência de fantasia.
No Barreiro muitas vezes, privilegia-se a crítica pela crítica, rotula-se, estigmatiza-se, mistifica-se, modela-se. Matam-se ideias, para mais tarde as descongelar.

Por Jornal Rostos
Quando penso Barreiro e quando me penso, a mim próprio, no contexto Barreiro, normalmente, procuro equacionar – quer aquilo que dou, quer aquilo que recebo, deste lugar onde tenho construído a minha vida.
Terra dos meus filhos. Terra dos meus mortos.
A minha visão da vida (talvez, devido à minha experiência de associativista e cooperativista) é que cada um de nós – individualmente – deve assumir que tem direitos e deveres para com a comunidade.
Nesta perspectiva considero que é essencial, no plano individual, e, obviamente, no plano da comunidade, que a vida tenha por referência aquilo que costumo designar por «três dês». Que são três dês de direitos e de Deveres, porque na vida é preciso assumir direitos e deveres.
Pela experiência de vida, considero de relevo uma abordagem das experiências humanas, quer no plano individual, quer no plano das vivências na comunidade, que sejam tomados como essenciais «três dês»: Direitos Humanos; Direitos da Natureza e Direito à Diferença.
1º - Direitos Humanos
A minha experiência associativa levou-me a conceptualizar que é vivendo a individualidade através da construção da diversidade que se dá sentido à vida.
Para mim, fazer cidade, é indissociável do respeito pelo outro(a).
Por essa razão, afirmar no quotidiano a valorização dos «Direitos Humanos», é afirmar uma dimensão ética de realização da vida humana.
Naturalmente, que esta dimensão ética é indissociável da Liberdade.
E, para mim, desde que cheguei a esta terra nos anos 70, aqui, aprendi a viver e a sentir a Liberdade, como motor da história.
Aqui, aprendi a encontrar a dimensão Ética, como energia própria que se expressa na solidariedade associativa, nas amizades, nas esquinas, que marcam o pulsar deste lugar.
2º Direitos da Natureza
Aqui, também, aprendi a descobrir essa relação com a natureza, numa relação com o espaço, onde, a fábrica, que era um foco de poluição, era, simultaneamente, a referência que dava ao Barreiro essa dimensão de «casa comum».
Este sentir o ambiente, desde cedo levou-me a descobrir as belezas naturais do Barreiro – Alburrica, Barra à Barra, Ilha do Rato, Praia da Copacabana, Mata da Machada, Rio Coina, Rio Tejo – a varanda do Tejo que é a Avenida da Praia.
Nesta relação com os barcos do Tejo, as buzinas das fábricas, o movimento dos nossos autocarros, as sucessivas transformações da paisagem pela chegada do betão, as nossas gaivotas, e, os sons dos pássaros na Rua Miguel Pais ou no Parque Central.
Em tudo isto, senti a diversidade desta «casa comum» e encontrei uma dimensão estética deste lugar…
Aqui, aprendi a sentir com o olhar, a imaginar, e a descobrir que este lugar é um espaço de criatividade.
Aprendi a sentir a natureza – natural e humanizada – tomando a consciência que a afirmação dos «Direitos da Natureza» é afinal aquilo que dá uma dimensão Estética, onde emerge a criatividade que se expressa nas mais diversas artes – fotografia, música, pintura, poesia…
3º Direito à Diferença
Foi antes de Abril acontecer que, nesta terra, descobri o valor do Direito à Diferença.
O Direito à Diferença como cultura de Liberdade e de rejeição do pensamento único.
Esta era uma terra olhada com uma simbologia – como espaço de resistência, de luta, de trabalho.
Uma terra que afirmou uma identidade.
Uma terra marcada por valores – a luta pela democracia.
Este Direito à Diferença teve sempre subjacente uma Axiologia – era uma identidade que se escrevia com um valor: o amor à Liberdade.
O Barreiro é, pois, para mim, esta cidade dos «três dês:
- Direitos Humanos, que se reflectem numa ÉTICA, que tem por motor a LIBERDADE.
. Direitos da Natureza – que se reflectem numa ESTÉTICA que se impulsiona pela CRIATIVIDADE.
- Direito à Diferença – que se traduz numa AXIOLOGIA que se forja na SOLIDARIEDADE.
Esta, penso, é uma forma de SER e ESTAR no Barreiro, que, em cada um de nós individualmente, e, na vida em comunidade, se reflecte em comportamentos, e marcam a nossa acção quotidiana.
1º EU ÉTICO – tem reflexos na nossa relação com os outros, emerge através da vontade de partilha, de sociabilização.
Esta dimensão ética dá ao Barreiro e aos barreirenses ( todos aqueles que aqui construíram a sua vida, tendo, ou não, cá nascido) uma característica especifica no modo de viver, quer na conflitualidade, quer na formação de amizades.
Esta é uma terra onde em cada esquina encontramos um amigo.
Somos aquilo que costumo designar como uma «aldeia-cosmopolita».
Considero que a dimensão intelectual do Barreiro se projecta nesta sua dimensão ética – individual e comunitária – como lugar que se afirma em defesa dos Direitos Humanos, uma terra de Liberdade.
2º EU ESTÉTICO - tem reflexos na nossa interioridade, é o nosso eu onde se espelha uma dimensão emocional, na nossa relação com o rio, na nossa relação com o passado.
Considero que esta dimensão emocional do Barreiro, devidos às transformações bruscas, destruição da fábrica – ponto de encontro e de referência da nossa «casa comum», hoje, é marcada por um «excesso de memória», e, simultaneamente por «perda de memória».
É neste campo que se estão a dar as rupturas.
Esta, considero que é a dimensão da nossa CRIATIVIDADE.
O artista, o actor, o escritor, o político, o associativista – os criativos e os agentes de acção – têm hoje um papel importante, no fazer a ponte entre o presente ( que está aí real) e o passado que é memória ( real dentro de cada um de nós).
3º EU AXIOLÓGICO - é o espaço onde cada um de nós é único, é o eu das diferenças, mas também o eu das crenças, é o eu da nossa espiritualidade e o nosso eu ideológico. É o eu dos valores.
E, neste campo, o Barreiro que foi construído como um espaço de LIBERDADE, muitas vezes, tem encontrado numa «identidade histórica» (mais ou menos excessiva) uma barreira, que, por vezes, parece esquizofrénica, pois, é contraditória, porque, não respeita valores e as raízes que caracterizam a nossa identidade de terra construída com amor à Liberdade.
É que o respeito pela nossa identidade axiológica – os valores que marcaram a luta de gerações – é acima de tudo marcada pelo respeito pela diversidade, respeito pelo outro.
Para mim, as palavras que marcam o nosso viver comum são três, porque são elas que são a expressão e definem a cidade dos três dês.
- SOLIDARIEDADE : na forma de estar e viver nesta aldeia cosmopolita;
-CRIATIVIDADE – o nosso olhar emocional por este lugar onde gostamos de viver e construir cidadania;
- LIBERDADE – a força que une as nossas emoções, que faz a ponte entre o presente e o passado, que une o presente ao futuro. Seremos sempre uma Terra de Liberdade.
“A beleza existe (no Barreiro) é preciso encontrá-la” – dizia Augusto Cabrita, com quem aprendi a olhar, com o meu olhar subjectivo, os recantos deste lugar Barreiro.
Acho que é este o desafio que se coloca aos Artistas e às Artes no Barreiro – encontrar a beleza!
E, este, é um acto individual, de construção da liberdade individual, não confundindo o acto individual com egoísmo.
A construção da individualidade faz-se na comunidade na construção das diferenças.
O egoísmo nega as diferenças, acha-se único e perfeito. O perfeccionismo e a superioridade moral são geradores da negação do Direito à Diferença.
Não há criatividade sem ligação a grupos activos que fazem pulsar a comunidade.
Hoje não temos a fábrica, mas temos a escola, as associações, as actividades promovidas pelas autarquias, e, até, novos espaços cosmopolitas, por onde e onde, a arte e os artistas devem fazer fluir a criatividade.
É preciso quebrar com o excesso de tradicionalismo.
É preciso quebrar com a falta de co-operação e sermos capazes de dar força a ideias inovadoras e irreverentes,
Na minha opinião o que falta hoje ao Barreiro é reencontrar-se com o seu amor à Liberdade, que lhe deu energias criadoras.
O Barreiro tem pessoas, tem saber, tem vontades, tem uma rede social de equipamentos e de associações que lhe dão coesão social.
O Barreiro tem criatividade, tem sido pioneiro em diversas áreas, e, exemplo para o país e para o mundo – falta-lhe largar as amarras e zarpar!
O Barreiro hoje tem excesso de memória e ausência de fantasia.
No Barreiro muitas vezes, privilegia-se a crítica pela crítica, rotula-se, estigmatiza-se, mistifica-se, modela-se. Matam-se ideias, para mais tarde as descongelar.
Os artistas no Barreiro deviam ser protagonistas, actores, criadores, sendo uma referência activa, de homens e mulheres capazes de ser os primeiros a afirmar esta cidade como a cidade dos três dês:
. Cidade dos Direitos Humanos – construindo uma ética, assente na solidariedade e Liberdade;
. Cidade dos Direitos da Natureza, construindo uma estética, assente na criatividade;
. Cidade do Direito à Diferença, construindo uma axiologia, assente no respeito pela construção de uma cidadania activa e democrática.
Homens e Mulheres que sentem que pela sua acção brota:
- Solidariedade
- Criatividade
- Democracia
É assim que se constrói esta terra de LIBERDADE.
É assim que se constrói o BARREIRO terra que se orgulha do seu nome como sendo aquele que significa um sentir e viver indissociável da palavra Liberdade.
É que, acreditem, o Barreiro escreve-se com a palavra LIBERDADE.
António Sousa Pereira
Barreiro – 12 de Junho de 2011
Nota – Este texto é o conteúdo global da intervenção que efectuei no Encontro “Arte e Local”, no Painel 1 – Autoria local na arte, uma iniciativa promovida pela Associação de Artes Plásticas do Barreiro - Artesfera.













