A(nota)mentosHá mais democracia e vida política para além dos partidos
Por António Sousa Pereira
Barreiro
Fazer política é fazer cidadania. Fazer política é agir para melhorar as condições de vida humana.

Por Jornal Rostos
A política em primeiro lugar tem que ser vivida com ética, uma dimensão que tenha por base a defesa dos direitos humanos, a afirmação de valores, de respeito pelo ser humano, independentemente de sexo, raça, religiões ou opções ideológicas.
A politica tem que ser vivida com uma dimensão estética, que valorize a nossa realidade humana emocional, a visão da criatividade, de respeito pela natureza e de partilha da nossa «casa comum».
A politica tem que ser vivida com o respeito pelas diferenças, no confronto de ideias, na afirmação de princípios, numa luta salutar, com uma dignidade que contribua para valorização da democracia como espaço essencial de construção das diferenças.
Os partidos políticos em democracia são a expressão da vivência política e, como tal, os partidos deviam ser o exemplo de referência para construção da vida cívica e desenvolvimento da cidadania.
Mas, a realidade que sentimos quotidianamente é que, de facto, acelera-se o divórcio entre os cidadãos e os partidos políticos, porque, muitas vezes, mais que valorizar o confronto de ideias, dá-se mais ênfase ao «bulling partidário».
As ideias boas são as nossas - do partido x ou y, as ideias más são sempre do outro partido x ou y.
No interior da vida politica partidária – todos os partidos sem excepção – estão marcados por estigmas, e, de facto, isto em nada ajuda a imprimir progresso ao desenvolvimento da vida democrática.
Hoje, por vezes, há mesmo homens cuja vida foi construída na politica, com a politica, pela politica, que, até, quando falam de si próprios recusam aceitar-se como sendo “políticos”, como se o facto de «ser politico» seja algo que diminui a qualidade cívica de um ser humano.
A vida é politica. E, cada vez mais sinto que é importante, para bem da democracia, que a capacidade de intervir politicamente não seja um «reduto» exclusivo das vivências ao nível partidário.
Há mais democracia e vida politica para além dos partidos.
Estou, aqui e agora, a escrever estas notas, porque, de facto sinto que em politica, há uma diferença muito grande entre “ser politico” e “fazer politica”.
E, de facto para «ser politico», isto é, fazer da politica um espaço de afirmação da vida cívica e da cidadania, é essencial ter valores, ter princípios, ter ideais – ou seja «fazer politica» com «politica».
Outra coisa é «ser politico fazedor de politica», porque para isto não são precisos valores, nem princípios, nem ideais, basta saber jogar, ser um «estratega», é «fazer politica» pela politiquice.
O que marca a diferença entre um «politico» e um «fazedor de politica», é, que um «politico» acredita nos seus sonhos e na partilha dos seus sonhos com os outros, tem visão de futuro.
Sempre que um politico se transforma num «fazedor de politica» deixa de ter valores e princípios, passa a ter apenas «estratégia», «tácticas».
O problema dos «tacticismos» e «estratégias» sem valores e ideais, mas, apenas pela «ânsia de poder» e pelo manter o «poder pelo poder» é que se esgotam perante a realidade e as durezas da vida.
Estes «fazedores de politica» vivem um drama constante, que é aquele que sentem os atletas de surf, manterem-se por cima da onda e conseguirem navegar sem cair, só que, na verdade, por muito bom que seja o surfista, acaba sempre por cair – a realidade da vida é mais forte.
Sempre que os «políticos» se transformam em «fazedores de politica» a vida torna-se mais complicada.
É por isso que admiro os políticos – mesmo que não sejam aqueles que defendem os meus valores e ideais – que têm a coragem de afirmar valores, lutar por valores e serem protagonistas das três grandes dimensões da nobreza da vida politica – respeito pelos direitos humanos; respeito pela natureza e respeito pelas diferenças.
Porque, afinal, só assim a politica é algo que nos motiva e nos move para a construção de um mundo melhor.
Claro que há exemplos na história da humanidade de políticos que viveram ao contrário de tudo isto, mas, esses, todos sabemos que foram os «gestores» de momentos que marcaram retrocessos de conquistas da humanidade.
E, no fim, afinal, acabaram derrotados e fazem parte do lixo da história da humanidade.
A história dos homens, por muitos que doa aos «fazedores de politica» foi progredindo com acção de políticos – homens políticos ou homens com ideais políticos, que acreditaram ser possível construir um mundo melhor.
E, eu, sou daqueles que acredita que a nossa vida de seres humanos, de cidadãos, de homens com ideias políticas, deve ser um contributo para deixarmos o mundo um pouco melhor que o encontrámos.
É assim que vejo a acção política.
É, talvez, por isso que sinto que as «politiquices» são os sinais da pobreza da acção politica – sem valores e sem princípios.
António Sousa Pereira













