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Inferências

Rostos da 1ª Década do Século XXI - BarreiroDistinção «Voluntariado» para Bombeiros Voluntários do Barreiro

. Situação de ambas as corporações não é famosa

. Estatuto social dos bombeiros encara-nos como desgraçadinhos

O jornal Rostos, com a colaboração dos jornalistas da imprensa local vai atribuir este ano a distinção «Rostos da 1ª Década do Século XXI».
O objectivo é destacar entidades e personalidades, em diferentes áreas que pela sua acção foram uma referência nestes anos que marcam a 1ª década do século XXI.

A Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários do Barreiro – Corpo de Salvação Pública foi escolhida como «Rosto Voluntariado da 1ª Década do Século XXI».

7 min de leitura
Rostos da 1ª Década do Século XXI - Barreiro Distinção «Voluntariado» para Bombeiros Voluntários do Barreiro

Por Jornal Rostos

José Manuel de Oliveira Soares, Presidente da Direcção da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários do Barreiro – Corpo de Salvação Pública, considera que – “esta atribuição - "Voluntariado" - Rostos da 1ª Década do Séc. XXI mais não é que o reconhecimento do papel que as Associações de Bombeiros Voluntários têm na comunidade em que se inserem. Papel que ultrapassa em muito o de socorro. É um papel de verdadeira cidadania, quase nunca reconhecido pela população. Que se estende desde formar mulheres e homens os nossos voluntários - até à sensibilização dos mais jovens e dos seus professores quando nos deslocamos às escolas ou os recebemos no nosso quartel para as questões de entreajuda, altruismo e actuação de conjunto, passando pelo verdadeiro serviço social de ajuda aos mais necessitados e carenciados quando os socorremos e transportamos sem receber nada em troca.
Para além destas missões que só estão inscritas no "código genético" das Corporações de Bombeiros, existe ainda a de elevarmos o nome do Concelho e do País onde que se desenrole a nossa intervenção.
Assim, a atribuição desta, digamos, homenagem pública é sempre merecida e por isso a aceitamos de coração aberto como aceitamos qualquer pedido de intervenção”.

Tempos que aí vêm não auguram nada de bom

Como analisa a actual situação dos Bombeiros Voluntários no Barreiro? - perguntámos
“ A nossa situação, de ambas as corporações, não é famosa. Nunca o terá sido e penso que os tempos que aí vêm não auguram nada de bom. Será assim no Barreiro como o será por todo o País. Desde sempre que as actuações dos dois anteriores governos visavam a destruição dos bombeiros voluntários. A atribuição de tarefas semelhantes, em teoria, a forças militarizadas a quem foram disponibilizados equipamentos que os bombeiros voluntários nem em sonhos as poderiam vir a adquirir, só teve por objectivo a descredibilização dos bombeiros.
Em 1980 o Ministério da Saúde entendeu por bem que os bombeiros teriam uma actuação no âmbito do ambulatório indispensável e insubstituivel. Desde essa data que os sucessivos governos encorajaram e incentivaram esta actuação dos bombeiros, levando os mesmos a equiparem-se e a admitirem pessoal para poderem levar a cabo as missões que lhe foram e são cometidas. Isto, até que em 29 de Dezembro passado, um Secretário de Estado da Saúde exarou um despacho limitando o transporte de doentes não urgentes.
Esta medida, interpretada casuísticamente e a belo prazer de pequenos tiranetes, existentes em Centros de Saúde e Hospitais que, apesar dos médicos passarem as credenciais, decidiam e decidem não autorizar administrativamente essas credenciais levou à ruina diversas Associações de Bombeiros que ficaram sem poder pagar a bombeiros (com consequentes despedimentos) e as prestações das ambulâncias. Mais, ainda mais grave que isto, foi o originar que muitos cidadãos abdicassem dos seus tratamentos por não poderem pagar o transporte. Transporte este, efectuado por Bombeiros a quem tudo é exigido: um condutor, um "maqueiro", ambulâncias equipadas de acordo com o que a legislação impõe, que esperam nos Hospitais que lhes libertem, por vezes, as macas - porque os sucessivos governos não souberam ou não quizeram impôr a normalização de macas, que possibilitariam chegar a um hospital ou centro de saúde e simplesmente trocar de maca -, que nalguns casos tinham de pagar estacionamento, em que as faixas identificadoras têm de ter uma determinada medida e estar colocadas a "x" ou "y" graus. Ao contrário, em determinados Concelhos, contratam taxis, a um preço mais elevado e sem as condições necessárias a transportar um doente.
Mais recentemente, quando recebemos uma chamada relacionada com alguém que está doente ou ficou doente em casa, ficamos sujeitos a que se nas urgências do Hospital derem a pulseirinha verde ao doente não recebemos o transporte. Por vezes as pessoas não têm mesmo condições para pagar, mesmo que lhe facturemos o transporte. Estas medidas atingem todos os cidadãos directamente e indirectamente os bombeiros que efectuam os transportes. Se isto não é querer acabar com os bombeiros! Agora com as exigências dos nossos financiadores externos de um novo mapa administrativo, muitas Associações deixarão de ser necessárias e ocorrerão fusões ou extinções.
Por vezes os cidadãos não têm a noção destas dificuldades. Enganam-nos quando chamam para aberturas de portas, não nos pagando. Pensam que tudo o que temos é pago pelo Estado ou pela Autarquia. Mas não é assim. Só os carros de socorro são subsidiados pelo Estado e pela Autarquia ( esta por vezes - no caso do Barreiro sempre, até agora). As ambulâncias, os equipamentos de protecção individual, as mangueiras, a electricidade, telefones, seguros, etc. é tudo pago pelas Associações. O gasóleo, é pago ao preço que os cidadãos pagam, mais caro que o que pagam os possuidores de barcos de recreio. Vimos há anos a pedir a criação de, chamemos-lhe assim, "gasóleo social".
É triste que num Concelho - com tanta tradição de associativismo - com cerca de 90.000 habitantes, as duas Associações tenham em conjunto cerca de 8.000 associados, isto é, 9% da população. Com quotas, no nosso caso, de 26 € anuais.
Também é triste e muito, que hajam cidadãos que desistem de ser associados por não poderem pagar 26 € por ano (13 quotas x 2 €), em que 20 % são para os cobradores.
É também triste que na época de fogos, o Estado subsidie os bombeiros em 20 € por dia ( 24 horas ). É também triste que quando se avarie ou estrague equipamentos, carros ou mangueiras, o Estado só venha a pagar muito depois de acabar a época dos fogos e após as Associações terem feito a despesa.
O Estatuto social dos bombeiros encara-nos como desgraçadinhos. Não como pessoas que tudo dão e nada pedem.
Somos voluntários a quem tudo é exigido. Somos voluntários a desempenhar tarefas só ao alcance de verdadeiros profissionais. A quem a formação exigida - 70 horas anuais, quando às empresas e aos funcionários do Estado são exigidas apenas 30 horas - é paga integralmente pelas Associações. E estes bombeiros, se por qualquer motivo - mesmo profissional -não cumprirem estas horas, são passados compulsivamente à situação de reserva. Como se toda a formação anterior e trabalho desenvolvido não sirva para nada. Num País de poucos recursos, é obra! Descartam-se os voluntários.
No meio de todo este espectro de desgraças tem, no nosso caso, de se reconhecer que não nos têm faltado adesões de novos voluntários.”

Basta de termos de andar de mão estendida.

Que perspectivas e projectos estão a encarar para o futuro próximo pela vossa associação?
“ Continuar a apostar na formação dos nossos homens e mulheres, de forma a podermos cumprir o melhor possível as nossas missões humanitárias de socorro e ajuda ao semelhante e aos seus bens.
Lutar, em todos os contextos, para clarificar o financiamento das Associações de Bombeiros Voluntários e o papel das Corporações de Bombeiros, enobrecendo-as. Ajudar a clarificar quem nos tutela. Se querem separar a protecção civil e o socorro do serviço de saúde que o façam, assumindo no caso da saúde todas as responsabilidades que estão cometidas às Associações de Bombeiros, como equipamento e pessoal. Basta de termos de andar de mão estendida.
Tentar pagar todos os compromissos assumidos.
Tentar reparar o nosso quartel, que foi mal construido.
Tentar que o Estado nos atribua um veículo de desencarceramento pesado.
Tentar que o viaduto que vai atravessar a estrada Barreiro-Coina, no prolongamento do IC32 , seja construido de forma a que em caso de catástrofe natural grave, o Barreiro não fique inacessível por via rodoviária” – sublinha José Manuel de Oliveira Soares.

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