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Inferências

InferênciasPREC – Processo de Reconstrução da Esperança em Curso
Repensar as heranças do século XIX
Por António Sousa Pereira

Todo este movimento à escala global – OS INDIGNADOS - coloca um problema central, a urgência e necessidade de ser repensado todo o modelo político e social que herdámos do século XIX.

Este de facto é um PREC – um Processo de Reconstrução da Esperança em Curso, que, um pouco por todo o mundo saiu à rua, com lágrimas, com amargura, com ternura, com raiva, pois, está marcado de contradições, e, como refere Marshall Ganz, é – “uma faísca que se espalha pelo mundo”.

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Inferências PREC – Processo de Reconstrução da Esperança em Curso Repensar as heranças do século XIX Por António Sousa Pereira

Por Jornal Rostos

Todos estamos conscientes que o actual modelo político e social que marca as nossas vivências quotidianas é o fruto da herança que a humanidade recebeu das teorias geradas muito especialmente no século XIX.
Todos estamos conscientes que os partidos políticos são a essência das vivências que marcam todas as concepções políticas e ideológicas que herdámos do século XIX.
Curiosamente, todo este modelo, é marcado por concepções «escatológicas» que apontam para um fim da história.

Francis Fukuyama, nos anos 90, retomou as teses hegelianas do «fim da história», e, nesse tempo, a queda do regime soviético veio abrir o caminho para se consolidar a ideia que este percurso, que herdámos do século XIX, era a única via que a humanidade podia percorrer na busca da felicidade.
Nunca acreditei no fim da história, mas, sim na sua renovação e na possibilidade de se reencontrarem novos caminhos.

Ontem, um pouco por todo o mundo, em 951 cidades, de mais de 80 países, saíram às ruas milhares de pessoas de diferentes gerações, nesse movimento social denominado «Indignados».
Um movimento social de escala global, desta natureza, não nos pode deixar indiferentes.
Este é um dos sinais dos nossos tempos que nos move a pensar e sentir o pulsar da humanidade.

Este PREC – Processo de Reconstrução da Esperança em Curso que é associado a ideias como «democracia não é medo», ou, «a nossa raiva está ligada à esperança e não ao medo», é, um sinal que devia fazer pensar os políticos do nosso tempo.
Na minha opinião, todo este movimento à escala global coloca um problema central, a urgência e necessidade de ser repensado todo o modelo político e social que herdámos do século XIX.

No jornal «Público» de hoje, Marshall Ganz – o homem que foi essencial no movimento social que levou Obama à presidência dos Estados Unidos da América, deixa uma série de temas para reflexão.
Recorda que todos estes movimentos são abertos, tolerantes e globais, unindo pessoas de todas as idades, numa «dinâmica juvenil».
Sublinha que estes movimentos assumem uma ideia central o combate contra a «injustiça do Mundo», e, salienta que na acção conjunta são partilhados valores individuais «cheios de esperança» pela valorização da «Dignidade» e «Liberdade», numa dimensão económica, moral e politica.

Nestes movimentos globais, somos levados a pensar e sentir como cada uma das nossas histórias individuais é uma ponte com a história da nossa comunidade, do nosso país, da Europa ou do Mundo.
Sentimos que neste mundo marcado pela comunicação global, afinal, aquilo que pode ser partilhado entre a humanidade é mais, muito mais, que a divulgação de tragédias naturais ou crimes fruto da violência humana.

Marshall Ganz, refere que todo este movimento dos «indignados que percorre o mundo, assim como a «primavera árabe», são sinais, de valores que a humanidade valoriza – Igualdade, Dignidade e Justiça.
Na sua opinião este é “um desafio ao regime neo-liberal”.
Pessoalmente considero, que, na verdade, todo este movimento vai para além de um desafio ao «regime neo-liberal», é, sem dúvida, um desafio às ideologias que herdámos do século XIX, é um desafio ao modelo político que herdámos do século XIX.

O que sentimos nas ruas, com todas as suas contradições, presentes entre aqueles que se juntam em protesto nas cidades – desde Católicos a Anarquistas, desde Comunistas a Sociais Democratas – é que, de facto, há um sentimento comum – vontade de participar, vontade de agir, vontade de quebrar o silêncio, vontade de partilhar valores democráticos de tolerância e de afronta às injustiças do mundo.

Todos sabemos que neste modelo herdado do século XIX, na vida democrática, os partidos políticos são a essência da democracia.
No entanto, todos estes movimentos, são de facto um sinal, para quem quiser reflectir e estar na vida de forma atenta, como é urgente e necessário repensar os modelos de vida partidária, para que estes sejam um exemplo de vida, de partilha de valores e motores da construção da democracia.
Estes movimentos sociais de forma global, no limite, colocam em causa o modelo politico que herdámos do século XIX, porque exigem, com gritos na ruas - «democracia não é medo».

Outro aspecto que me faz pensar, todo este movimento dos «INDIGNADOS», dentro daquilo que é matriz de pensar a história e os movimentos da história que também herdámos do século XIX, é, essa ideia que em cada época existe uma classe que age como motor das mudanças históricas.
Ora, o que sentimos, nos dias de hoje, é que junto a este movimento global dos indignados existe um «grupo» ou «classe» social que está a intervir de forma activa – a classe média.
A classe média que andou anos a pensar que era rica e com níveis de vida estimulados por entidades financeiras, sente, agora, que, afinal, está tão pobre ou mais pobre que os pobres, e, desesperada descobriu, finalmente, que não pode deixar nas mãos de outros a luta por um mundo melhor.
A classe média, emerge, nos dias de hoje, com uma cidadania mais consciente e com uma forte vontade de ser mais participativa.

A classe média, para mim, vai ser a «classe revolucionária» do século XXI.
E quando digo «revolucionária» é com base nessa ideia global que faz agir todo este movimento global dos indignados – uma classe que assume uma vontade de agir , usando as armas dos tempos de hoje, nomeadamente a comunicação, não como instrumentos de mera propaganda, mas como instrumentos de mobilização e consciencialização para acção.
Uma acção que tem valores – éticos, de vivência da Liberdade e cidadania; cívicos, de debate de ideias, de tolerância e vivência democrática; políticos, de solidariedade activa, de quem acredita, hoje, e sempre, é possível construir um mundo melhor.

Porque essa coisa do fim da história é negar que a humanidade pode sempre ir mais além, e, manter viva a esperança.
Este de facto é um PREC – um Processo de Reconstrução da Esperança em Curso, que, um pouco por todo o mundo saiu à rua, com lágrimas, com amargura, com ternura, com raiva, pois, está marcado de contradições, e, como refere Marshall Ganz, é – “uma faísca que se espalha pelo mundo”.

Esperemos que esta faísca não nos conduza ao pior, no fundo, ao que tem acontecido ao longo da história da humanidade, a guerras fratricidas, a um conflito mundial de consequências imprevisíveis.
Este Movimento dos Indignados é também um sinal, um grito de alerta, para que a humanidade seja capaz de aprender com as lições da história, e, una todos os esforços para evitar o pior.
Porque é possível vivermos partilhando as diferenças - ideológicas ou até mesmo religiosas.
Os indignados vêem também dizer-nos que estão fartos de verdades absolutas.

A Europa tem um papel central neste processo, mas a Europa, tem que ser capaz de pensar, como o «espaço mediterrânico» é essencial ao seu futuro.
Se continuar este caminho de «marginalização» e «submissão» dos países que define como PIGS – Portugal, Itália, Grécia e Espanha – está a cavar um fosso, e, sem dúvida, a afastar-se do papel que pode e deve desempenhar na actual fase da história da humanidade.
Bom, mas este é um assunto para outra reflexão…

António Sousa Pereira

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