A(nota) mentosDar à vida política um sentido humanista e com valores.
Precisamos de políticos que tenham orgulho em ser políticos, dispensamos os políticos da «politiquice» e dos «jogos de poder pelo poder».

Por Jornal Rostos
“Eu simplesmente gosto de ser politico e quero continuar a ser político” – afirmou António Costa, ontem, no decorrer do lançamento do seu livro «Caminho Aberto».
Ao ler estas palavras ocorreu-me que, ainda recentemente, também Mário Soares, lançou o seu livro «Um político assume-se» e, pensei, que, afinal, parece estar a emergir um «vontade politica» de dar à «vida política» um sentido positivo, gerando um discurso que contribua para aproximar os políticos dos cidadãos.
Na verdade, o sentimento genérico que sentimos na opinião pública é que ser politico é ser “aldrabão”, sentimento que tem contribuído para afastar os cidadãos da politica e abrir um fosso entre os eleitos e os eleitores.
Mário Soares e António Costa tocam na mesma tecla, nesta vontade de afirmar a politica como uma causa nobre, como uma opção de vida de quem decide «fazer politica» e «assumir a politica» como ideal que contribui para dignificar a vida humana.
Mas, afinal, que discurso está por trás deste discurso, num país que cada vez tem mais repulsa pela politica e pelos políticos?
Será uma vontade de repensar a política e a vida democrática?
Será o rasgar caminhos para reinventar a acção política?
Um dia, em conversa com um politico, um homem que fez da sua vida a intervenção politica, ele dizia-me que não era politico. “Eu disse-lhe: politico não sou eu, porque nunca optei por fazer da politica a minha vida. Tu sim és politico”.
Ele respondeu – “Que todos somos políticos”.
Sim, de facto é importante que todos sejamos políticos, que tenhamos da politica uma ideia, valores e principios, mas, «políticos, políticos» são aqueles que optam por «fazer politica» e «fazer da politica as suas vidas».
Esses têm uma responsabilidade acrescida, porque colocam-se como referência, modelos de acção e de avaliação, pelos cidadãos, pela forma como agem e assumem o seu carácter e modo de «fazer politica».
O objectivo primeiro da politica não é, não deve ser «o poder pelo poder», o objectivo primeiro da politica deve ser a «autenticidade» na defesa de valores e princípios que o politico, enquanto homem ou mulher, que quer ser «actor politico» deve demonstrar que são aqueles que acredita e pelos quais vive com a finalidade de construir um mundo melhor, porque acha que as suas ideias e estratégias – do seu partido – são aquelas que contribuem para transformar o mundo.
E digo, escrevo tudo isto, para retomar de novo palavras de António Costa, ao jornal «Público», a propósito do actual Primeiro-ministro Pedro Passos Coelho : “Quando Passos Coelho diz que não executa esta politica por obrigação dos compromissos internacionais, mas por vontade própria e que quer ir mais além e que o fará custe o que custar, não tenho a menor dúvida da convicção e da sinceridade com que o faz”
Interrogado se concorda com as soluções, respondeu: “Não. Eu discordo das soluções. Mas do ponto de vista ideológico ele não enganou ninguém. Enganou-se ou enganou os eleitores em relação aos compromissos eleitorais que assumiu”.
Pois. É neste espaço no confronto de ideias e de valores ideológicos que a politica deve diferenciar os homens e as mulheres, deve marcar as diferenças.
É neste espaço que os políticos devem assumir-se, é, por essa razão, que há políticos com os quais tenho diferenças ideológicas, modos diferentes de olhar para a vida e a para a evolução do mundo, mas admiro-os como políticos – “porque não enganam ninguém”.
Sabemos o que pensam, o que defendem, discordamos, mas, sentimos a nobreza da acção política com que vivem e lutam pelas suas convicções e objectivos.
Depois, o eleitorado que decida e, ao longo da história, apesar de sentirem repulsa pela politica e pelos políticos, sendo a democracia um exemplo de vida e de cultura que os portugueses estão a construir e ainda em fase de aprendizagem, o facto é que, nas urnas, os portugueses votam e escolhem quem, em primeira análise, lhes dá mais credibilidade, alguém, de quem, até, podem discordar das suas ideias, mas acreditam no ser humano.
De facto, cada vez é mais urgente dar à vida política um sentido humanista e com valores.
Precisamos de políticos que tenham orgulho em, ser políticos, dispensamos os políticos da «politiquice» e dos «jogos de poder pelo poder».
A democracia agradece!
António Sousa Pereira













