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Inferências

Al Capone, um percursor?Por Nuno Santa Clara
Barreiro

O comum das gentes deste país começou já a afirmar que vão ser espiolhados os baixos rendimentos, perseguidos os desastrados, exemplarmente punidos os que se enganarem no preenchimento de uma das casinhas do IRS – enquanto as grandes fugas ao fisco irão continuar, se não a proliferar ainda mais.

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Al Capone, um percursor? Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Alphonsus Gabriel Capone, comummente conhecido por Al Capone, foi talvez o gangster mais conhecido dos Estados Unidos da América, isto numa época, a da chamada Lei Seca, em que a concorrência era muita. Basta lembrar o massacre de S. Valentim, em 14 de Fevereiro de 1929, em que foram mortas sete pessoas, para constatar que os gangsters não brincavam em serviço, e Al Capone, que se admitia ser o mandante do morticínio, era considerado o máximo.
A crer no que diz a Wikipédia, ele foi considerado nesse mesmo ano de 1929 como um dos homens mais importantes do mundo, a par de Albert Einstein e de Mahatma Gandhi.
Apesar de todas as suspeitas que sobre ele pesavam, Al Capone foi condenado em 1931 a onze anos de prisão por evasão ao fisco, o que levou muita gente a comentar negativamente a Justiça americana. Com efeito, de entre todos os crimes que lhe eram atribuidos, dos quais se destaca o referido massacre de S. Valentim, o único por que foi formalmente acusado e condenado foi o de fuga ao fisco.
É portanto grave, a fuga ao fisco! Estamos todos de acordo, sobretudo os que, como eu, não têm forma de escapar às Finanças, já que o malvado computador e o cruzamento de dados não nos dão qualquer hipótese de fuga.
Portanto, congratulamo-nos com a anunciada medida de combate à evasão fiscal, que passará a punir com pena de prisão os prevaricadores (congratulamo-nos nós, os que não podem prevaricar). E pensamos que, agora talvez sim, os tubarões serão presos, tal como Al Capone foi. E se ele, com todos os seus milhões e advogados em barda, se salvou, talvez se possa esperar que os nossos fugitivos ao fisco sejam também trazidos a tribunal, e devidamente castigados.
Mas o bichinho da descrença é pertinaz, contumaz, eficaz. Portugal é reconhecidamente um país com duas justiças (se fosse só uma, escreveria Justiça, com maiúscula). Afirmam-no os políticos, comentam-no os jornalistas, invocam-no os lesados, escarnecem-nos os estrangeiros.
O comum das gentes deste país começou já a afirmar que vão ser espiolhados os baixos rendimentos, perseguidos os desastrados, exemplarmente punidos os que se enganarem no preenchimento de uma das casinhas do IRS – enquanto as grandes fugas ao fisco irão continuar, se não a proliferar ainda mais.
E não faltará que assinale que o tal ano de 1929, que consagrou Al Capone, foi o mesmo da Grande Depressão, em que a especulação desenfreada desencadeou a maior crise financeira de sempre. Diga-se, de passagem, que todos os sisudos e aceites analistas dizem que 1929 nada tem de comum com a atual crise (embora tudo se tivesse passado de forma semelhante).
Que nos reserva o futuro? Um volte face no rumo dos acontecimentos, e um eficaz combate à evasão fiscal? Nesse caso, deveríamos considerar Al Capone como um grande percursor – aquele figurão que foi efetivamente preso por delito contra as sagradas finanças (aparentemente, mais sagradas que a vida humana).
Porque, se assim não for, e tudo continuar segundo a secular tradição, Al Capone não foi um percursor.
Foi apenas um grande homem, galardoado naquele famoso ano de 1929, mas tão desastrado e azarado que se deixou enredar pelo fisco.
Nem se pode dizer que acontece aos melhores.

Nuno Santa Clara

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