Director do Teatro Municipal de Almada - Joaquim BeniteMensagem no Dia Mundial do Teatro

Por Jornal Rostos
Concelebramos hoje o Dia Mundial do Teatro. O próprio facto de se consagrar anualmente um dia ao Teatro mostra como os povos têm a consciência de que este precisa de ser desenvolvido, acarinhado e apoiado na luta pelos seus direitos.
O Dia Mundial do Teatro, como outros dias do calendário das celebrações – o 1º de Maio, o Dia da Mãe, o Dia da Mulher, o Dia da Música, etc. –, é consequência natural da exigência de preservar valores que se consideram fulcrais da convivência humana.
Todos os anos o Instituto Internacional do Teatro divulga a mensagem de uma figura distinta do Teatro, que é lida em todos os palcos do Mundo, e que este ano é da autoria de John Malkovitch.
Não obstante, existe uma tradição, desde o início da Companhia de Teatro de Almada, de propor aos espectadores uma mensagem própria. Por isso me permito aproveitar este dia para duas ou três reflexões mais centradas no nosso País e na comunidade em que o Teatro Municipal de Almada está inserido.
Nos países civilizados (verbo e gratia a Alemanha, a França, a Itália, a Inglaterra, a Espanha, etc.) desconhecer tudo o que diz respeito ao teatro, ou não acompanhar as suas actividades, é um motivo de constrangimento e de vergonha. Para muitos destes países, o índice de desenvolvimento teatral (vide o caso da Alemanha) é o principal indicador do desenvolvimento cultural. E, para se analisar o estado de saúde de uma Cultura, é pelos números e pela análise do teatro, pela quantidade de teatros, pela sua riqueza e qualidade, que se começa.
Ao contrário, no nosso País, com a mais alta iliteracia da Europa, não ir ao teatro é uma atitude normal, que não mereceria a crítica de ninguém. Também só aqui, e ao contrário do que sucede noutros países, todas as manifestações “teatrais” que envolvam agentes do espectáculo, incluindo os produtos derivados do show business, são metidas no mesmo saco, numa forma amalgamada que não permite definir categorias, e que é instaladora de uma confusão que mais ainda aprofunda o fosso em que o Teatro caiu na nossa sociedade. O Teatro di prosa, na acepção italiana, o Teatro de arte, na acepção inglesa, russa e alemã, o Teatro de natureza cultural, na acepção francesa, é misturado e avaliado com subprodutos de natureza parateatral, e é empurrado cada vez mais para uma lógica de mercado que continua a alastrar na sociedade consumista em que vivemos. Sem instrução não pode desenvolver-se o hábito da frequência de teatros. O esforço de criar um público é uma tarefa que cabe ao Ministério da Educação e ao Ministério da Cultura, que nunca mais vemos inaugurar um tipo de colaboração que poderia desempenhar um papel fulcral na formação de públicos. Ibsen, Brecht, Genet, Shakespeare, Garrett, Thomas Bernhard ou Schnitzler, que neste momento representamos na nossa Sala Principal, são, para uma maioria esmagadora dos portugueses, ilustres desconhecidos.
O Teatro Municipal de Almada conseguiu, através de um esforço enorme, que se prolongou por dezenas de anos, criar um público fiel, que cada vez mais se alarga, constituindo, na minha opinião, um exemplo do que poderia ser uma actividade teatral organizada no nosso País. Tendo conquistado, para o seu trabalho, um contingente de público entre os quais muitos espectadores que nunca tinham ido ao teatro – e da experiência que tiveram connosco partiram para a descoberta de outras salas e outros universos – atinge hoje uma expressão que se traduz numa média de mais de 50.000 espectadores por ano, o que, numa cidade de 173 mil habitantes, é, mesmo em termos europeus, um feito considerável.
Não obstante este êxito, e apesar do seu significado nacional e internacional – não nos esqueçamos de que este ano apresentaremos espectáculos de grandes Mestres internacionais, como Peter Stein, Christoph Marthaler, Claus Peymann, e companhias como o Berliner Ensemble, uma das mais famosas do mundo – não conseguimos conquistar uma parte da sociedade almadense, que nos olha ou com desprezo, ou com uma aceitação forçada e formal. É raro ver um político local de primeiro plano nas nossas estreias. A sobranceria desta atitude constitui, porém, para nós, um desafio, que enfrentamos com mágoa e alguma frustração.
Ao Teatro de Arte cabe hoje a responsabilidade de defesa da cidadania, da democracia e dos seus valores, numa luta que terá certamente sucessivos desfechos, derrotas e vitórias, e que se inscreve na História da Cultura.
O resto é silêncio.
Joaquim Benite *
Director do Teatro Municipal de Almada
Nota - Esta mensagem será lida hoje à noite antes da encenação da peça “Dança de roda”, às 21h30. Nesta ocasião será também lida a mensagem do ITI - Instituto Internacional do Teatro, que pediu a John Malkovich um discurso comemorativo do 50º aniversário do Dia Mundial do Teatro.
* Joaquim Benite é Cavaleiro da Ordem das Artes e Letras de França, Comendador da Ordem de Mérito Civil de Espanha e Comendador da Ordem do Infante D. Henrique.













