O pacote de leitePor Pedro Estadão

Por Jornal Rostos
Tenho um amigo, militar no activo, que costuma dizer que descascar batatas é um exercício de construção da personalidade. A tarefa não exige grande capacidade intelectual, pelo que se torna rapidamente introspectiva. Se o batatal for muito, dá tempo do fulano passar em revista a vida toda. Ao fim de algum tempo, o único pensamento que ocorre é: onde é que está a próxima batata?
Estava eu perdido nessa cogitação, a meio da descascação do material para uma sopa, maioritariamente de origem nacional, (só as batatas é que eram francesas), quando pus os olhos no pacote de leite que trouxe do supermercado da esquina e que ainda não estava guardado no frigorífico. Dizia: Compre local. Comprar local é um acto de cidadania. Comprar local é ecológico, reduz a pegada ambiental, uma vez que os produtos têm que viajar menos para chegar até si. Comprar local também é uma garantia adicional da frescura do produto, uma vez que um produto que viaja uma distância mais pequena está sujeito a menos armazenamentos frigoríficos e variantes ambientais. Também dizia que o leite que estava dentro do pacote, (por esta altura já o bebi), viajava menos de 170 Kms desde a vaca até mim, o que, dado o tamanho de França, não é dizer pouco.
Para além da minha secreta desconfiança de que os nossos produtos horto-frutícolas devem ser dos mais mal pagos ao produtor, o que é a única coisa que justifica que se consigam encontrar praticamente em qualquer ponto da Europa, sem qualquer dificuldade, frquentemente com a designação de "gourmet", e os nossos agricultores ainda viverem numa penúria pré-industrial, fica a minha certeza de que o escrito no pacote de leite encerra significados da mais relevante importância para o futuro da minha pátria.
Já anteriormente tinha notado, e creio que, escrito algures, o facto de ter encontrado quantidades abundantes de pera rocha nacional em Inglaterra, quando dias antes, em Portugal, só se conseguia encontrar daquela porcaria verde espanhola que nem a abacate sabe, apesar de se parecer com um. Não faço esta observação levianamente: é que os nossos frutos e legumes, sendo de elevada qualidade e pouco adubados quimicamente, atingem valores elevadíssimos nos mercados estrangeiros, dos quais nós não beneficiamos, porque mais de noventa por cento do valor fica nos intermediários, enquanto à nossa porta descarregam o material que os outros não querem comer e vendem tudo, porque é barato: Ora, se a vista não me falha, parece-me que há aqui qualquer coisa de profundamente errado.
Pois é, parece-me que o que está profundamente errado é a forma de pensar dos portugueses, que ainda não pararam para pensar sobre a diferença que representa gastar o dinheiro perto de casa, nos produtores locais em relação às idas às cadeias internacionais para arremessar o dinheiro para o estrangeiro. É que consumir local produz dois efeitos interessantissimos: o primeiro é que o dinheiro viaja num circuito muito próximo de nós e multiplica-se muitas vezes antes de se perder; o segundo é que, se nós consumirmos a produção local, quem quiser levar os nossos produtos para fora vai ter de os pagar mais caros porque a disponibilidade é menor e assim vai entrar muito mais dinheiro para o circuito económico local. Cria-se um circuito virtuoso de valor dos produtos e fortifica-se a nossa economia. Consumir produtos locais, nos mercados de produtores, nas quintinhas da região ou até nas camionetas que estão paradas à beira da estrada favorece o desenvolvimento económico local. À falta disto, ajuda, nos outros mercados, procurar os produtos de origem nacional e os códigos de barras começados por 501.
Quer dizer, isto é a velha história: se nós não dermos valor ao que é nosso, os outros também não darão. É por isso que mesmo aqui tão longe, continuo a preferir os produtos portugueses, sempre que existem, aos estrangeiros, e digo-vos que ficavam espantados com as coisas que consigo encontrar. Marimbo-me na pegada ecológica e Português é que é bom, mesmo que faça 3000 Kms para chegar aqui, como a Água das Pedras que estou a beber enquanto vos escrevo. Sinto que continua a faltar uma grande campanha nacional de apoio ao consumo da nossa produção própria, e assusta-me o que pode estar por trás disso, mas entretanto, como cidadão, faço o que posso. Ajudo Portugal nas pequenas coisas do dia a dia, na medida do que posso, nem que seja a fazer uma sopa só com ingredientes nacionais.
E vocês, de onde é que virá a vossa próxima batata?
Pedro Estadão
24 de Maio de 2012
Bar-le-Duc, Lorena, França













