AQUI D´EL REI!Por Nuno Santa Clara
Barreiro
Acabada a guerra, reinstituída a democracia, o sistema manteve-se… Só há uma explicação: o sistema era bom.

Por Jornal Rostos
Este era o grito típico dos portugueses de antanho, quando a contas com algum meliante ou salteador de estrada. Pois de El Rei vinham os meirinhos, quadrilheiros, homens d´armas que defendiam as populações desses malfeitores. E, de caminho, também se recorria a El Rei para defender os direitos espoliados, os bens ameaçados ou a honra ultrajada.
E hoje, quem nos acode?
Os poderes públicos, de então e de agora, têm por dever defender tanto o público como o privado. E os dois, como sabemos, são muitas vezes antagónicos. Mas, num Estado de Direito, esses problemas estão normalmente bem delimitados, e como tal devidamente acautelados.
O que sucede é que, no espírito comum das gentes, muitas vezes o público é desvalorizado, quando não esquecido. Explicitando, o património coletivo é muitas vezes esquecido, quer pelos antagonismos criados pelo interesse privado, quer por aquele alheamento a que votamos, tradicionalmente, tudo o que não nos toca de imediato.
A vaga de incêndios que assolou o nosso país nos últimos dias, com particular incidência na Madeira e no Algarve, dá boa amostra disso.
Há poucos anos, o incêndio que devastou o Parque Natural da Madeira foi notícia, mas como de costume, foi avaliado em termos de paisagem e passarinhos. A verdadeira dimensão ecológica foi deixada de parte – porque se tratava de património público. Não houve vítimas humanas, e, olhos que não vêm, coração que não sente. Isto apesar das pesadas consequências que a desflorestação acarreta, numa terra com fortes inclinações e sujeita a trombas de água.
Desta vez, na Madeira, arderam áreas habitadas (as outras já tinham ardido), e foram destruídas casas, carros, pomares, hortas. O alarme foi maior, e maior a cobertura mediática. Sempre eram bens privados.
No Algarve arderam milhares de hectares, e em consequência foram também destruídas árvores de fruto, sobreiros, hortas, casas, gado, deixando aquela já pobre gente numa ainda maior miséria. Também foi mediático, mas ficamos à espera das medidas concretas de apoio.
Deixo propositadamente de fora as questões da necessidade de bombeiros, na Madeira, ou dos erros no combate ao fogo, no Algarve. Não estou vocacionado para manobras de diversão.
A grande questão está em saber que futuro nos espera, nos próximos vinte anos. Esses vinte anos são o tempo que leva uma árvore a desenvolver-se e dar fruto, sombra, celulose, energia, enfim tudo quanto se espera do nosso património florestal. E esses vinte anos não se aplicam a todas as árvores.
Ao ritmo da destruição das nossas zonas florestais, públicas ou privadas, daqui a vinte anos pouco teremos.
É pacífico que dentro desses mesmos vinte anos haverá que recorrer cada vez mais a energias alternativas; aliás, há já diretivas comunitárias nesse sentido. Uma dessas energias é a que decorre da biomassa, produzida na nossa floresta. Ora, atualmente importamos a esmagadora parte da energia que consumimos, na sua maioria do tipo poluidora e não renovável. Quando daqui a vinte anos quisermos recorrer à biomassa, teremos de voltar a importar, porque queimámos a que era nossa.
O estranho é que se fazem diariamente, manifestações contra a dependência do exterior – e com toda a razão! – nas áreas da economia, das finanças, da cultura, da tecnologia, enfim, de toda a sorte de coisas, enquanto deixamos delapidar em fumo e aquecimento global o nosso património.
Pergunto-me se a reação seria a mesma se fossem incendiados poços de petróleo; o assunto seria decerto muito mediático, e exigidas severas medidas de repressão, mas quanto à floresta, deixa arder…
Não sou adepto da teoria da conspiração. Mas, para quem o for, medite na possibilidade de estarmos simplesmente a ser vítimas de uma política que visa sermos, dentro de vinte anos, dependentes do exterior numa área em que poderíamos ser autónomos.
Ou seja, teremos de importar madeira da Alemanha, para produção de energia, tal como agora importamos empréstimos, a juros usurários.
A propósito - na Alemanha, a esmagadora maioria das florestas são públicas; podem ser federais, estaduais ou distritais, mas são geridas como coisa pública. Esta política foi iniciada pelo regime nazi, sendo Jägermeister (com o encargo da direção das florestas) nem mais nem menos que Herman Göering, o n.º 2 do III Reich.
Acabada a guerra, reinstituída a democracia, o sistema manteve-se… Só há uma explicação: o sistema era bom.
Será de importar a solução? Não me parece; mas que deve haver maior cuidado na gestão e proteção das florestas, é imperativo. E isso faz-se com medidas preventivas, e mediadas repressivas.
De modo a que, quando se grite Aqui d´el Rei, porque há fogo, não fiquem os incendiários impunes, ainda que sob o manto diáfano do julgamento adiado e das medidas de segurança – que, ao que parece, não incluem a proibição de comprar fósforos.
Nuno Santa Clara













