A alternativa e a alternância em políticaPor António Sousa Pereira
Barreiro
No entanto, a história tem demonstrado que esse não é o caminho, nem nunca será o caminho, num Distrito que tem o coração a pulsar à esquerda, um distrito que legou de avôs e de pais para filhos e netos, uma cultura de viver com princípios e com valores.

Por Jornal Rostos
Na vida politica uma coisa que, por vezes, alguns não entendem, ou fazem que não entendem, é que há uma grande diferença entre ser alternativa e ser alternância.
Uma força politica que se pretenda afirmar como alternativa deve ser capaz de apresentar um projecto politico que seja portador de diferenças: diferenças de modo de estar na vida politica; diferenças de modo de fazer politica; diferenças nas conceçpões de cidade, diferenças nas concepções de cidadania.
Uma força politica que opta por ser alternância, essa opta por demarcar campos, procura criar factos políticos, aponta caminhos que possam forjar ódios de estimação, gera conflitos para criar o “inimigo comum”, joga politicamente no campo do adversário e não cria o seu espaço politico de intervenção próprio, vive uma «politica de sprint”, sempre atrás da roda do adversário.
Eles dizem alhos, nós dizemos bugalhos. Eles são os maus, nós somos os bons.
Para perceber isto não é preciso ler nenhum Manual de Estratégia Politica, basta reflectir sobre as experiências vividas e pensar as experiências vividas.
O Distrito de Setúbal e os concelhos do Distrito de Setúbal, contrariamente ao que acontece no país, tem o seu próprio «Bloco Central», aqui, essa base eleitoral está centrada no PS e PCP, por isso é que sempre escrevi e muitos o têm também dito: o Distrito de Setúbal tem o coração a pulsar no lado esquerdo.
Quantas vezes escutamos militantes socialistas, ou até sociais democratas, afirmarem com orgulho e satisfação: “O meu avô era comunista».
É por essa razão, que o anticomunismo primário nunca deu, nem nunca irá dar resultados políticos.
O anticomunismo primário pode ser uma boa alavanca de acção politica em tácticas de quem vive gerando acções politicas com a finalidade de ser alternância politica, mas, nunca de quem se quer afirmar como sendo alternativa.
Os resultados políticos da região são disso uma evidência, com a permanente fixação dos ciclos pendulares – PS vence legislativas, PCP/CDU vence as autárquicas.
Sempre que se afirmou a ruptura foi porque o eleitorado acreditou numa alternativa de construção de cidade e de afirmação da cidadania.
A alternativa politica no Distrito de Setúbal só pode ser gerada nas diferenças conceptuais de cidade e cidadania, que estão latentes no seu «Bloco Central», ou seja: afirmar o Distrito como um “distrito de classe”, ou afirmar o Distrito como um “distrito interclassista”.
O PCP/ já de há muito percebeu essa realidade e por essa razão tem vindo a estimular práticas politicas «participativas» ou estratégias de «Participação», procurando gerar dinâmicas locais de envolvimento alargado da sociedade civil, independentemente das suas concepções de classe,
O PCP/CDU já de há muito percebeu que há três níveis de acção politica que marcam a sua intervenção – a acção partidária, de dimensão vanguardista; a dimensão de classe, ao nível da luta sindical e laboral, e a dimensão interclassista ao nível do Poder Local, vida associativa e comunitária.
Ou seja de há algum tempo que o PCP, mesmo que com a reserva de alguns sectores partidários, percebeu que não se faz acção politica para construir uma cidade que seja apenas dirigida para os comunistas, mas sim, é preciso construir uma cidade onde todos gostem de viver.
Depois, outra coisa é, até onde, na prática, esses objectivos são mais ou menos desenvolvidos, mas esse é outro assunto. E motivo de outras reflexões.
A questão central é saber e verificar que, na prática, o PCP/CDU procura fazer politica para abrir as brechas de promoção da cidadania e da participação, gerando politicas interclassistas, mesmo quando age com a «consciência de classe».
O PS por natureza é um partido interclassista, e, portanto a sua acçao politica devia ser sempre exemplar de que aposta na projecção de acçao politica voltada para a construção de uma cidade – “onde o que é de todos por todos deve ser decidido”.
Ou seja, demonstrar que quer construir uma cidade onde há lugar para socialistas, bloquistas, sociais democratas, centristas, comunistas, pessoas sem partido, uma cidade sem exclusões.
Isto é abrir as brechas para se afirmar como alternativa, de quem não quer o Poder pelo Poder, e que não é de quem não olha a meios para atingir os fins.
Mas, isso obrigava a ser actor na vida politica, ser agente de mudança, ser protagonista, agir na comunidade, ligar-se à comunidade.
Sei, por vezes, o caminho mais fácil para quem luta por ser alternância, e não quer afirmar-se como alternativa, é dividindo o mundo nos bons e nos maus.
No entanto, a história tem demonstrado que esse não é o caminho, nem nunca será o caminho, num Distrito que tem o coração a pulsar à esquerda, um distrito que legou de avôs e de pais para filhos e netos, uma cultura de viver com princípios e com valores.
Sei que é difícil encontrar esse caminho, quando a apetência pelo poder é grande, mas, ou muito me engano, ou se a história não nos engana e o eleitorado continuar a ter as mesmas opções de voto, das últimas décadas e décadas, mesmo com novo eleitorado, não acredito que seja pelo caminho da construção da alternância que possam registar-se grandes mudanças nas próximas eleições autárquicas.
A mudança faz-se com alternativas e essas parecem não existir, pelo menos, pelo que vamos sentindo, naquilo que são os sinais dos tempos.
António Sousa Pereira













