Inferências«EU TENHO UM SONHO: QUERO SER FELIZ EM PORTUGAL!»

Por Jornal Rostos
Ontem, muitos jovens do Barreiro rumaram a Lisboa para marcar presença na Manifestação. Nas mãos levaram poemas e sonhos. E espalharam poemas pelas ruas.
Alguns deles pela primeira vez sentiram essa necessidade de sair para a rua e gritar.
Foi um movimento cívico impressionante. Um mar de gente. Uns podiam ter opções politicas partidárias e juntaram-se a muitos milhares, como o grupo de jovens que estou a recordar, sem opções politicas ideológicas, mas transportando no coração uma ideia que alguém me transmitiu – “Tudo é politica. Temos que agir”.
Mas este sentimento de politica que me transmitiram esses jovens é que a politica que tudo é, é uma politica com valores, com princípios. É a vontade de querer construir um mundo melhor.
Acho que todos aqueles que têm partido e acreditam nos valores que os seus partidos defendem deviam, de facto, reflectir sobre esta onda de gente, este mar humano que transporta consigo um sonho – a liberdade, a democracia, o trabalho, a dignidade da vida humana.
A politica se não é feita para concretizar este sentido da vida – de construção de felicidade – afasta-se do sentir das pessoas.
Os jovens que estou a falar foram para Lisboa, juntaram-se num grupo, como muitos grupos, porque sentem o futuro sem esperança e, no dia-a-dia, sentem a vida dos seus pais num constante sufoco. Porque perdem o subsidio de férias ou o subsidio de Natal com o qual contavam para o equilíbrio das suas vidas. Porque lhes cortam as pensões e ficam mais apertados nas suas responsabilidades.
São jovens sem cultura politica de «juventudes partidárias», mas são jovens que votam e cada vez mais têm uma noção da politica com um sentido de uma causa nobre.
Mas, esses jovens, distanciam-se dos partidos. Sentem-se iludidos e enganados pelos partidos. São jovens Universitários. São jovens recém-casados. São jovens recém entrados no mundo do trabalho.
São jovens que acreditam no futuro mas não querem que o futuro seja este presente que se arrasta à décadas, como um deles me dizia numa politica que ora é «PING», ora é «PONG».
Não se iludam muita da contestação que ontem saiu à rua não foi só contra o Passos Coelho, ou José Sócrates, foi um grito pela DEMOCRACIA.
Mas, os jogos da macro politica vão continuar e, aqui e agora, com as regras do sistema, pouco ou nada vai mudar. O sistema funciona assim, não gerando alternativas, mas apenas gerando alternâncias.
O Governo talvez já esteja a prazo. Com o CDS/PP a preparar-se para saltar do barco e ajustar-se a uma nova futura coligação seja com o PS, ou seja num eventual dito Governo de unidade Nacional ( PS, PSD, CDS/PP e no limite o BE). O PCP esse nunca irá entrar nessa onda. E o BE também tenho dúvidas, mas, quem sabe…
Tudo indica que a curto prazo as eleições parecem inevitáveis no decorrer do próximo ano, mais cedo que muitos esperam.
A manifestação de ontem, foi também um dizer BASTA! Há algum cansaço deste sistema. Quem acompanhar o que se escreve e diz nas redes sociais, quem escutar os comentadores políticos, sente, objectivamente, que este país tem que mudar de rumo.
Os cravos nas mãos de alguns, são esse sinal de vontade de retorno aos valores de Abril, que tinha um programa – DESCOLONIZAR, DEMOCRATIZAR, DESENVOLVER. Muito foi cumprido, mas ainda falta cumprir PORTUGAL COM OS PORTUGUESES, principalmente no DEMOCRATIZAR e NO DESENVOLVER.
Numa foto tirada na Manifestação de ontem, lia-se: “EU TENHO UM SONHO: QUERO SER FELIZ EM PORTUGAL!”
Eu que tenho 60 anos também mantenho vivo esse sonho, continuo a lutar por esse sonho: QUERO SER FELIZ AQUI!
E sonho com esse Portugal na Europa. Uma Europa de cidadãos.
Só que, por este rumo prevejo o pior. Fico triste.
Sinto que não vamos aguentar no euro. Tenho dúvidas se a Europa, ela mesma, vai aguentar.
Esta Europa a duas velocidades, que exige que todos sigam no mesmo TGV, quando alguns ainda estão na era do comboio a carvão é difícil manter unida.
É que há mais vida para além do valor do dinheiro, tem que haver mais vida para além do valor do dinheiro.
Sim, é verdade, o dinheiro não dá felicidade, mas ajuda…
A verdade é que 38 anos após o 25 de Abril, estamos de tanga. Somos um país teso junto a clube de ricos, que olha para nós como os coitadinhos.
Portugal tem problemas estruturais de décadas. Somos um país que vive do Estado.
Não sei se alguma vez vamos conseguir deixar de ser assim… isso faz parte da nossa genética.
Ontem, senti que há um país com esperança, um país que quer gritar e está cansado de «brincadeiras» e começa a despertar. E estavam lá de todos os partidos, certamente até muitos que votaram PSD ou CDS/PP, mas, no centro, lá no centro de tudo, estavam jovens, como os jovens que me motivaram a escrever este texto – sem Partido, com valores e com Portugal no coração.
Sim, português acorda e deixa de esperar por D. Sebastião!
António Sousa Pereira
Foto – Marta Pereira













