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Inferências

VIOLÊNCIASPor Armando Sousa Teixeira
Barreiro

Ao contrário do que diz o senhor cardeal-patriarca (onde está a Igreja dos fracos e oprimidos?...), os portugueses têm o direito de resistir, de lutar, de protestar, de gritar bem alto aos céus, à divindade inexistente, pois de contrário, como diria Antero do Quental, já teria caído um raio sobre este governo!.

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VIOLÊNCIAS Por Armando Sousa Teixeira Barreiro

Por Jornal Rostos

Citamos Bertholt Brecht de cor : “ Dizem que o rio é violento, e não são violentas as margens que o oprimem ?”
*
Pelo aspecto teria uns sessenta anos, vestida de forma modesta mas proba, o semblante carregado e uma breve luminosidade nos olhos :
- Desculpe, queria pedir-lhe um favor !
- ?
A pausa interrogativa não tem surpresa, estamos na saída sul da grande superfície :
- Dá-me uns cêntimos para comer uma sopa !?…
O Sol brilha com intensidade, reflectido nos olhos muito abertos e húmidos da angústia da humilhação. O tempo tem estado radiante nos primeiros dias de Outubro, teimando em afastar do céu as nuvens cinzentas que carregam o horizonte da vida dos portugueses.
- Então não tem uma pensão, uma reforma ?
- Duzentos e poucos euros… Não chegam para nada!...
As memórias cruzam-se fulminantes, como dizem que acontece aos náufragos em mar de tempestade. E é uma autêntica tempestade económica e social (pérfida, ao contrário das naturais) que varre neste momento o país e destroça os portugueses.
Recordamos os textos dos livros da 2ª e 3ª Classes, e as recomendações da senhora professora que ensinava com proficiência gerações de infantes: “Dar aos pobres é emprestar a Deus!”. Era o tempo da caridadezinha, em que o regime fascista se perpetuava acentuando a discriminação elitista e repressiva em Portugal. Em muitos aspectos estamos a regredir aos tempos da ignomínia.
A interlocutora sobressalta os pensamentos hesitantes do transeunte :
- Por amor de Deus, ainda hoje não comi nada!
Os reflexos irisados nos olhos agora definitivamente molhados e castigados pelo Sol em declínio acentuado, são reflectidos nas pupilas escuras que se afligem e comovem também :
- Por amor Dele não! Se existisse não permitiria tanta malfeitoria dos poderosos …
Restam poucas moedas, o orçamento é curto, cada vez mais apertado, este governo está a fazer um autêntico saque à classe média.
- É o que tenho… - um nó embargou a garganta, fundado na indignação, na humilhação, na vergonha de estarmos a recuar aos tempos da apagada e vil tristeza.
*
Ao contrário do que diz o senhor cardeal-patriarca (onde está a Igreja dos fracos e oprimidos?...), os portugueses têm o direito de resistir, de lutar, de protestar, de gritar bem alto aos céus, à divindade inexistente, pois de contrário, como diria Antero do Quental, já teria caído um raio sobre este governo!.
Roubam-nos os meios de subsistência!
Tiram-nos direitos duramente conquistados!
Espezinham a nossa dignidade de cidadãos!
Em manifestações! Em concentrações! Em marchas! Em greves!
Na rua!
Esta política tem de ser derrotada!

13/10/12
Armando Sousa Teixeira

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