Carreira 7«Pai, perdoa-lhes que eles sabem o que fazem!»

Por Jornal Rostos
Comecei esta minha semana com um intervalo matinal. Aproveitei para estar um pouco sentado, a ler, na esplanada daquele «centro comercial de rua» no meu «bairro».
O nosso «bairro» é um pouco um espelho do país. Sente-se nas pessoas alguma angústia. Cansaço da política e dos políticos.
Na Livraria, onde compro o meu jornal pela manhã, muitas vezes troco breves palavras com o seu proprietário. Temos olhares diferentes sobre a vida, mas há coisas que partilhamos, nomeadamente, o nosso olhar sobre a situação a que este país chegou devido a sucessivos erros governativos, que alimentaram ilusões e procuravam tapar o sol com uma peneira.
Para onde querem conduzir este país? Como vamos viver ou sobreviver? Ele é PCP tem a sua visão do mundo, mas, sente que é difícil encontrar uma solução com as propostas do seu próprio partido.
Rasgar o memorando da troika para ele não é solução, mas também, acrescenta, com este caminho que estamos a seguir – “Não vamos lá” – comenta.
Para ele, José Seguro ou Passos Coelho são a cara e coroa da mesma moeda.
Depois, na rua, encontra-se no caminho outro empresário, na sua luta diária, num combate contra o tempo, porque, como ele sublinha – “É preciso não perder a esperança”.
Sente as dificuldades do mercado. “Isto está mau. Demoram a pagar” - diz.
É este o dia- a- dia de muitos pequenos e médios empresários que, afinal, são o grande tecido empregador deste país, no Barreiro e no Distrito de Setúbal.
“Isto está mau” – comenta.
Na escada do prédio, um vizinho comenta. Sente-se que a preocupação é geral. Assumi compromissos, agora vão fazer cortes – “pelo que dizem vou receber menos 400 euros da reforma”.
“Como vou manter os meus compromissos?” – interroga.
Não sei que dizer, e limito-me a comentar – “Comigo vai acontecer o mesmo!”
São estes os lamentos que se escutam. Um sentimento generalizado de angústia e medo.
Outra vizinha, comenta que uma amiga, que teve uma vida razoável, neste momento, há dias que não tem em casa nada para comer. Está desempregada.
Os proprietários dos cafés queixam-se. As pessoas caminham com ar sombrio e triste.
Um destes dias, um político, numa conversa telefónica perguntava-me como é que eu via a actual situação politica, respondi-lhe – “O que eu sinto é o que escuto, quase todos os dias, de muitas pessoas, é que estão fartas da politica e dos políticos, sejam do PS, PSD, PCP ou BE”.
É isso que se vai escutando, retirando aqueles que vivem mais próximos das vidas partidárias ou com ligações a actividades com elos políticos, no geral função pública ou sectores empresariais do estado, sente-se que as pessoas começam a olhar para os nossos políticos como meros gestores da crise.
As pessoas comentam que eles, os políticos, não mandam nada, não decidem nada, limitam-se a ser os «gestores da crise» e das opções colocadas pelos grupos financeiros a um país que foi conduzido às portas da bancarrota e perdeu parte da sua soberania.
Durante a tarde, em conversa com uma amiga, trocámos opiniões sobre a vida politica.
Ela defendia que a esperança está no Bloco de Esquerda, porque diz é o único partido que «combate a corrupção».
Mas, ao mesmo tempo, concluía, na verdade, aquilo que todos vamos sentindo, que dificilmente vamos sair desta embrulhada em que todos nos meteram, ou por causa da PPP, ou por causa do BPN, ou por causa das autoestradas, ou por causa da energias renováveis, etc, etc..
Enfim, neste processo em curso, uns vão viver, outros sobreviver, e outros outra coisa qualquer, uma certeza vamos ter dias dolorosos.
Mas, na nossa conversa, referia, a minha amiga, que o país continua a viver esta «brincadeira» de jogos políticos, onde uns são os bons e outros os maus.
Os maus estão sempre no poder, os bons sempre na oposição.
Cá continuamos, sem encontrar caminhos e lançando poeira para os olhos, com tácticas e estratégias que colocam acima de tudo os interesses politico-partidários, que, afinal, são jogos que fazem parte de um contexto mais vasto, esta Europa onde estamos inseridos e suas famílias politicas.
Uns falam hoje como se não tivessem nenhuma responsabilidade sobre o estado a que isto chegou, outros acusam os outros do estado a que isto chegou, como se, também, não tivessem responsabilidades.
E quem vai sentindo na pele somos todos nós que, se calhar, também acusamos, querendo ignorar, que também temos alguma responsabilidade porque só agora, muito tarde, começamos a viver com alguma indignação.
Mas, há alguém, por aí, que consiga governar este país no estado em que ele está, ao estado que ele chegou, sem ter que obedecer às regras do memorando?
Mas, não será urgente alertar os senhores que nos emprestam dinheiro – os senhores do memorando - que, afinal, por este caminho, não vamos conseguir dar a volta e pagar o que devemos?
Ou será que tudo isto, afinal, serve apenas para criar o «caldo politico» de obrigar Portugal, a aceitar e calar que será a Europa, no futuro, a determinar o nosso Orçamento de Estado?
É esta «Europa Federal» que nos querem impor, será? Então decidam-se e deixem-nos viver com dignidade e deixarmos de sentir, todos os dias, a corda na garganta, ora com PEC 1,2,3,4, ora com o PREC – Processo Reformista em Curso.
Só resta dizer, como ontem, numa conversa, um amigo meu sublinhava : “Pai, perdoa-lhes que eles sabem o que fazem!”













