Carreira 7O primeiro dia dos dias do mundo que tenho ainda para viver
Todas as ruas têm histórias para nos contar que estão gravadas na nossa memória.

Por Jornal Rostos
Como habitualmente, aos sábados vou buscar os meus jornais à Tabacaria Vitorius, ali, no Pingo Doce, no Lavradio. A D. Cacilda deu os parabéns pelo 11º aniversário do jornal «Rostos».
“Já passaram onze anos” – comentou, acrescentando que – “no início tinha dúvidas sobre a continuidade deste projecto”.
Por outro lado, salientou o facto de, ao longo destes anos, o «Rostos» ter contado sempre com um conjunto de colaboradores que o valorizaram e marcaram sempre uma presença regular.
É verdade, D. Cacilda, já passaram onze anos e, de facto, parece que foi ontem, pelo meio, tantas aventuras, tantas dificuldades, tantos momentos bonitos, e, o mais importante, é que temos sido uma presença diária, num projecto vivido com muita paixão e dedicação por todos os que nele marcam presença e sentem satisfação de integrar esta equipa.
Muito trabalho voluntário. Muitas horas de entrega.
Mas, sentimos que afinal vale a pena dedicar os dias e as horas, neste projecto e manter viva esta voz, umas vezes incómoda, outras vezes apenas isso um meio de dar a conhecer o pulsar da região.
Hoje, pela manhã, fui à Caixa Geral de Depósitos, no Lavradio, falava-se que era o dia do “fim do mundo” e comentei que, afinal, todos os dias para cada um de nós “é um dia de fim do mundo”.
Por isso, o importante é nesta caminhada para o “fim do mundo” que é a nossa vida, devemos procurar encher os dias, dar-lhe cores e alegria.
Se hoje anunciaram o fim do mundo, para mim, este, parafraseando o poeta, será o primeiro dia dos dias do mundo que tenho ainda para viver.
Porque, afinal, a morte está sempre anunciada, mas a vida, essa somos nós que temos o dever de a viver…vivendo!
Muitas vezes, como hoje, vou à estante e pego num livro de poesia. Hoje trouxe comigo para ler enquanto bebia a bica matinal, a «Obra Poética», de David Mourão Ferreira. Um homem que tive o prazer de conhecer e com ele partilhar breves momentos da minha vida.
Um dia convidei-o para vir ao Barreiro, para falar do seu livro «Um Amor Feliz». Depois da conversa animada sobre a sua obra, que decorreu no Auditório de Centro de Trabalho do Partido Comunista Português, fui com ele para Lisboa e continuamos a conversar, pela noite dentro, no Galeto, a conversa que ao jantar partilhámos. Trocámos tabaco de cachimbo. Deliciei-me com o tabaco dele, com um cheiro espectacular.
Ele, na conversa, motivava-me a escrever poesia. E, no final, disse que ficava à espera que lhe enviasse o meu primeiro projecto de livro. Nunca o fiz.
Recordo as suas palavras e a dedicatória que escreveu no livro, sempre, com simplicidade, estimulando-me a escrever.
O dia a dia, sempre o senti, é um permanente viver de emoções. Por vezes, vou pelas ruas e recordo situações, momentos vividos. Encontros e desencontros.
Todas as ruas têm histórias para nos contar que estão gravadas na nossa memória.
Faça esse exercício. É giro e agradável. Pare numa rua e pense as memórias que tem daquele lugar, e, certamente, encontrará, um momento, um pensamento, que emociona.
Uma recordação que faz que nós sintamos, de forma viva, como somos também parte da paisagem.
Somos na medida em que a paisagem se integra nas nossas vivências e memórias.
Um Café que existiu e fechou. Uma conversa que tivemos com um amigo. Um amigo que morava ali, naquela esquina, ou naquele andar, mas que já partiu ou mudou-se para outro local. Um beijo. Um abraço. Uma discussão. Um acidente.
Hoje, recordei, junto ao LIDL, uma conversa que tive uma noite no Café Catita, com um homem cujo nome não recordo, que era Administrador da empresa Móveis Baía, estávamos em pleno PREC e, ele, comentava a vida e a situação do país, recordo uma pergunta que fazia – “Um país vive de impostos, se os impostos não chegam para as despesas do pais, como é possível fazer tudo o que você diz?”
É que na conversa eu, nos meus sonhos de revolução e transformação da vida, defendia, acaloradamente o ensino gratuito, o Serviço Nacional de Saúde, as Reformas e tudo o mais que o Estado deveria assumir…
Hoje ocorreu-me esta pergunta, quando passava junto ao edifício onde funcionou uma magnífica empresa – Móveis Baía - porque, afinal, parece que, o país, tal como aquela empresa, bateu no fundo.
Dou comigo a repensar esta pergunta, e, com a pergunta, repensar os discursos do emprego, do desenvolvimento, da crise…
Já há alguns dias que não ia ao almoço da Tertúlia da Transmontana. Lá voltei. Falou-se como sempre do Barreiro, da vida política do Barreiro. O José Caro Proença falou do seu sonho de ligação do Barreiro ao Mar. Falámos das freguesias das actuais e das possíveis futuras. Falou-se de candidatos e candidatáveis, são as próximas eleições autárquicas a animar as conversas.
É um almoço que anima, e, por vezes, até as conversas chegam ao rubro.
Até amanhã,
António Sousa Pereira.













