Saltar para o conteúdo
Inferências

InferênciasEsta «solidariedade» está a fazer-nos sentir humilhados...valhos-nos a «caridade»!

Porque se a «caridade» dá com «amor» e a «solidariedade» dá com «humanismo», o que falta no meio de tudo isto…é olhar para o ser humano com «dignidade», e não como meros números financeiros e estatísticos, como é o caminho para onde esta Europa nos está a conduzir.

7 min de leitura
Inferências Esta «solidariedade» está a fazer-nos sentir humilhados...valhos-nos a «caridade»!

Por Jornal Rostos

Quando eu era criança, órfão de mãe desde os 7 anos, vivia com a minha avó que sempre lutou de forma total para me dar a mim e a minha irmã Josefa, uma vida digna, com o apoio do meu Tio Lisberto.
Guardo muitas recordações desse tempo de criança, uma delas foi uma prenda de natal, um transístor azul que o meu tio me ofereceu e no qual eu ouvia música e escutava as noticias, de um mundo e de um país, que para mim era uma completa ignorância.

Ocorreu-me também que, neste tempo, existiam duas irmãs (com as quais me encontrei ainda recentemente quando estive na minha terra natal, na inauguração da exposição do Kira, dedicada ao Mestre Manuel Cabanas) que todos os anos, pelo Natal, me davam uma prenda que me enchia de orgulho.
Vestiam-me de alto abaixo. Dos sapatos, calças, camisa, ficava num brinco.
Uma condição que colocavam era que no Dia de Natal eu vestisse a nova roupinha e fosse a casa delas mostrar-lhes para verem como ficava.
Pela manhã, lá seguia eu, todo imponente, pela «Avenida», até casa delas, na rua por trás da Câmara Municipal de Vila Real de Santo António, quase em frente ao Posto da GNR.
Chegava e elas olhavam-me com um grande sorriso. Sempre tiveram um grande e bonito sorriso. Eram e são as duas muitos bonitas.
Diziam-me : “Tonico estás lindo!”. Eu agradecia, ainda trazia uns doces, e lá vinha para a rua brincar feliz .

Nunca senti qualquer humilhação. Sentia-me muito satisfeito. E esperar pelo Natal era sempre uma grande emoção, pois sabia que contava anualmente com esta agradável prenda.
Cresci. Sai da terra e vim para estas bandas, primeiro para Lisboa, e, depois, há 43 anos, fixei-me aqui no Barreiro, esta, que considero a terra dos meus filhos.

Recordo, hoje, o orgulho que eu sentia naquela roupinha nova, que, todos os anos estreava pelo Natal.
E recordo, a propósito desta polémica que há por aí sobre «Caridade» e «Solidariedade».
Sei, hoje, que aquelas duas irmãs, convictas católicas, agiam por «caridade», por quererem partilhar, no Natal, com alguém que sabiam necessitava.
Fui o «menino» da «Rua Estreita» escolhido por elas, para anualmente praticarem esse acto que, para elas, era uma forma de expressarem a sua fé Cristã.
Nunca me exigiram nada. Nunca me impuseram nada.
Apenas sentia a enorme alegria e o sorriso que guardo dos seus olhos, de olharem para mim, ali, vestido de alto abaixo, com a roupinha nova que assinalava o Natal.
Sentia que o faziam com amor. Sentia que eu para elas era um «menino» que elas estimavam.
Depois, ao longo do ano, perguntavam-me sempre como ia a escola e incentivam-me a estudar e a aprender.

Tinha por elas uma grande estima e ainda hoje, quando vou à terra e as encontro nas esplanadas no Café na Praça Marquês Pombal, dou-lhes um beijo e saúdo-as com muita estima.
Elas, sinto que retribuem e querem sempre saber como vai a vida do «menino» que elas acarinharam e trataram sempre com muito amor e respeito.

Não sei se é isto que a Jonet, do Banco Alimentar, se refere quando fala em ser diferente receber por solidariedade, ou receber por caridade.
Naquilo que, quando criança, recebi por «caridade» recordo quem deu, recordo os seus sorrisos e o calor humano. Recordo que aquelas duas irmãs me davam um pouco de amor humano, e faziam-me feliz.
Não eram exploradoras de trabalho alheio, não eram empresárias, eram duas pessoas que viviam do seu trabalho.

Mas, também, nesse tempo recebi por solidariedade, quando tomava o pequeno almoço nas «instalações da Junta de Freguesia», antes de ir para a escola, ou quando almoçava na cantina da escola, e dessa solidariedade o que recordo é o ambiente, frio e de grupo – o sabor do queijo que vinha dos Estados Unidos, do leite em pó que vinha dos Estados Unidos ( porque como eu era, sempre, um dos que era destacado para ajudar o pessoal que trabalhava na cantina, recordo a bandeira de estrelas e riscas vermelhas e brancas impressas nos sacos).
Isso era a solidariedade. Parece que estamos de novo a voltar a esses tempos.

Não estou muito preocupado com esta discussão ideológica sobre «solidariedade» e «caridade».
Ambas são necessárias para ajudar e dar a quem precisa apoio para viver e sobreviver.
Sinto que cada vez há mais pessoas com carências, mesmo aqueles que tinham algo na vida começam a sentir o peso desta situação de austeridade.
Pessoas a viver no limiar da pobreza são cada vez mais…

Como senti na pele o que é viver com pouco e com o indispensável para manter a vida com dignidade, quando escuto este debate sobre «caridade» e «solidariedade», o que me incomoda, não são as diferentes concepções, o que me incomoda é sentir, de facto, que fruto de muita coisa que é feita em nome da solidariedade, de um mundo melhor, estão a conduzir Portugal e a Europa para um beco sem saída…e isto dói!

Depois, arranjam-se estas discussões teóricas, já com barbas, sobre a «caridade» e a «solidariedade», enquanto, ali, num canto qualquer da cidade, alguém chora no silêncio, porque, como tem vergonha de recorrer à «caridade» e a «solidariedade» não funciona…passa fome e pensa a festa do Natal, com lágrimas a correr por dentro dos nervos e do coração.

Escrevo estas palavras apenas para dizer que, ainda hoje, recordo as duas irmãs, que todos os anos pelo Natal, com um gesto marcado pela «caridade» davam-me uma grande alegria e contribuíam para que eu me sentisse mais humano e mais pessoa.
Obrigado! É isso que lhes digo, com um grande sorriso, sempre que vou à minha terra natal e as reencontro.
“Olha o Tonico!” – dizem elas.
Eu beijo-as, sorrio e agradeço com o meu sorriso nos olhos, porque, nunca me senti humilhado com o gesto delas, nunca me senti infeliz, antes pelo contrário, era para mim, repito, uma honra e um orgulho receber aquela roupinha nova todos os anos pelo Natal.
É talvez por isso que penso, hoje, só quem nunca sentiu a força da caridade e o amor da caridade, pode afirmar que a caridade humilha.

E quanto à solidariedade, já agora, adulto, deste «estado solidário», que assumiu comigo compromissos, cada vez me retira mais os meus direitos, aquilo que se comprometeu dar-me e que eu paguei ( começou com o José Sócrates, passa agora para o Passos Coelho) e tenho cada vez mais dúvidas que isto vá parar…
Esta «solidariedade», essa sim, está a fazer-nos sentir humilhados, porque abre a porta para, quem sabe, por este andar, um destes dias, muitos vamos ter que recorrer à caridade para sobreviver.
Porque se não for a caridade…no sistema que temos pouco ou nada vai mudar.
Porque se a «caridade» dá com «amor» e a «solidariedade» dá com «humanismo», o que falta no meio de tudo isto…é olhar para o ser humano com «dignidade», e não como meros números financeiros e estatísticos, como é o caminho para onde esta Europa nos está a conduzir.

Porque, de certeza, os que hoje na oposição, levantam a voz e criticam a «caridade», de certeza, amanhã, serão eles que vão apelar à «solidariedade» da sociedade civil para que intervenha e dê o seu contributo ao ..Banco Alimentar!
É a Europa meus senhores! É a Europa!

António Sousa Pereira

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção