Carreira 7«Tarde da ginjinha» no Barreiro nasceu há cerca de 15 anos
Não percebo o porquê de estar já a ser rotulada de «Ginja Operária». Será mais chique? Será que nos torna mais «in»...

Por Jornal Rostos
Numa conversa com um amigo, ele contou-me que, nas vésperas de Natal, ali no concelho de Palmela, um empresário suicidou-se.
Esteve em casa com a família, conversou. divertiu-se e até bebeu ao jantar um pouco mais que o habitual.
Depois, terminada a refeição disse à família que ia até à fábrica.
A família não estranhou porque era habitual, muitas vezes, sair e deslocar-se à noite à fábrica para trabalhar.
Já pela noite dentro não chegava e a sua esposa estranhou e comentou com o filho, mas, como, por vezes, as noites na empresa prolongavam-se um pouco mais foram descansar.
De manhã a preocupação aumentou, dado que o pai não voltou para casa.
Foram para a empresa. O carro estava à porta. Mas estava tudo encerrado.
Lá procuraram meio de entrar, forçando janelas, para, por fim, depararem com uma cena angustiante no armazém.
O meu amigo contava-me a situação e expressava a sua tristeza, porque era uma situação dramática e inesperada, acrescentava ele, que – “este é um fruto da crise que estamos a viver.”
“Isto cada vez está pior “ – referia.
O acontecimento não foi notícia, ou não chegou ao conhecimento das televisões que, diariamente, só nos deprimem e nos tornam os dias mais angustiantes.
Recordo aqui, hoje, esta conversa porque, de facto, todos os dias nós sentimos como a situação das pessoas está sendo dramática e como é triste esta situação que nos atormenta e nos vai destruindo o coração.
Solidariedade com Kira
Fui ao atelier do Kira, no dia de véspera de Natal. Estava muito preocupado. Um acidente no sistema eléctrico do seu forno de cozer azulejos destruiu os materiais que estava a produzir e deixou o equipamento inutilizado.
Este era um equipamento de grande importância para a sua actividade profissional e de Fátima Gama.
Fiquei preocupado, muito preocupado.
Espero que tenha solução. Eles bem precisam.
Se não temos que pensar em dar, todos, uma ajuda solidária. Eles merecem e o Barreiro merece o trabalho deles.
«Tarde da Ginjinha no Barreiro» uma marca
Realizou-se mais uma «tarde da ginjinha» no Barreiro.
Em conversa com um jovem de cerca de 30 anos ele comentava comigo – “Isto nasceu há cerca de 15 anos, quando o pessoal que trabalhava nos bares das noites do Barreiro começou a juntar-se em diversos locais ao fim da tarde, para festejar o Natal com uma ginjinha.”
Depois, acrescenta – “Um ou dois anos depois , o pessoal começou todo a juntar-se no Manuel da Galega. A Policia chegou a ir por lá e pedir ao pessoal para se afastar da rua e da estrada”.
“Começou a ser uma tradição, começaram a juntar-se outras pessoas, e, agora , são cada vez mais os que entram nesta iniciativa. Tenho estado lá quase sempre desde que começou” – sublinha.
“«A ginjinha de Natal» é já uma tradição no Barreiro e, hoje, em vez de ser só ao fim da tarde até ao principio da noite, há já quem comece pelas quatro horas” – salienta.
Foi assim, também, de acordo com esta conversa que conheci esta iniciativa.
Aliás, quem me alertou para ela foi o Nuno Banza, um dia, há uns anos atrás, quando me convidou para aparecer ao fim da tarde para a «ginjinha do Manuel da Galega».
Ontem, lia no facebook, que esta iniciativa era o retomar da «ginja operária».
Fiquei um pouco surpreendido e ocorreu-me um comentário de um leitor do «Rostos» que escrevia – “Tenho 48 anos. Moro no Barreiro há 44 anos e nunca ouvi falar desta tradição”.
É que de facto esta tradição, que eu saiba, não tem nada a ver com a «cultura operária», nem a «ginjinha» no Barreiro ou em Portugal é algo especificamente operário, era uma bebida típica de bairro e da cultura portuguesa e lisboeta.
Olhem o Fernando Pessoa em Lisboa «apanhado em flagrante delit(r)o».
Pronto, mas no Barreiro, tem que ser diferente e como para ser diferente só há uma forma é passar a rotular esta iniciativa popular, com origem na juventude dos anos 80 como sendo a - «Ginja Operária».
Este é um convívio salutar, sem pretensões «antropológicas» e sem querer reviver práticas ancestrais.
Este começou a ser um ponto de encontro para cultivar amizades, viver em convívio aberto e fraterno, em torno de um copo um fim de tarde na véspera de natal, mantendo vivo o «ser barreirense», o gostar de viver aqui….em cada esquina um amigo!
Não percebo o porquê de estar já a ser rotulada de «Ginja Operária». Será mais chique? Será que nos torna mais «in»...
No próximo ano talvez o melhor seja distribuir ao pessoal fatos de ganga azul, ou preparar uma «performance» com actores vestidos de ganga, e, porque não, para ser mais real, até podem passar pela Oficina da EMEF ( se ainda existir e sujam-se com um pouco de óleo), para ser um ambiente mais real, com o fato e cheiro a óleo e ferrugem.
Por favor, deixem a «Tarde da ginjinha do Barreiro» ser aquilo que é, que sempre tem sido – um ponto de encontro e de convívio.
Olhem, quando passeava pelo Barreiro com o Augusto Cabrita, uma coisa que muitas vezes fizemos foi ir beber uma ginjinha ao Manuel da Galega… e sempre vi ali entrar operários, empregados bancários, professores, estudantes, e, essa é a riqueza da «ginjinha do Barreiro», o respeito pela diferença e diversidade.
Porquê «Ginjinha Operária»? Será que torna o momento «antropologicamente» mais puro e genuíno?!
Dizia-me o jovem – “Nós o pessoal da noite dos bares é que começámos esta tradição!”.
Pronto é isso – “eram operários da noite».
Por mim, este evento até pode ser uma marca do Barreiro para região, uma referência da cultura local, uma marca do modo de ser e estar no Barreiro. Uma terra que cultiva a amizade!
Até amanhã,
António Sousa Pereira













