BARREIRO - Carreira 7Pensamentos numa manhã de inverno à porta de um supermercado!

Por Jornal Rostos
As estórias do quotidiano são muitas. Tenho pena, muitas vezes, não ter tempo para as escrever.
Hoje, pela manhã, quando fui ao Pingo Doce, com a minha Lurdes, ela foi fazer umas compras, entretanto, fiquei, por ali, à porta, esperando e a fumar uma cachimbada.
O tempo ia passando e lá fui cumprimentando uns com os «Bons Dias» de circunstância, outros com mais cumplicidade de quem se reencontra e cumprimenta, outros com alguma afinidade e amizade, mas, também, naturalmente, passou quem me olhou de soslaio como quem tivesse visto o diabo em pessoa.
Fiquei a pensar naqueles momentos, não que incomodasse quem falou ou quem deixou de falar, mas, por sentir que, só por estar ali parado, em vários encontros e desencontros, passaram pela minha memória muitos episódios de vida.
Coisas bonitas. Coisas que não se esquecem. Coisas que partilhei com paixão.
Coisas que também ficaram como registo, daqueles que, cada um sente os acontecimentos, da forma que lhe dá jeito para se sentir bem consigo próprio.
Dei comigo a pensar se, afinal, voltasses para trás na tua vida fazias tudo o que fizeste. E a resposta que encontro para esta pergunta, reconheço, é sempre a mesma : Sim!
Porque tudo o que fiz, foi feito com os sentimentos e paixões que me arrebatavam, de forma honesta e entrega total. Vivi sempre por dentro dos acontecimentos. Nunca estive a viver sem sentir e partilhar. Para mim, a vida ou é vivida com entrega ou, então, não faz sentido. È a isto que chamo construir os dias.
Lia um dia destes um comentário de um amigo, que escrevia, como dizia o Sousa : “Um dia que renasce!”.
É mesmo isso, para mim a vida, em cada dia, é sempre um dia que renasce!
Sei que depois, há coisas que podiam ter sido diferentes, que outros caminhos podiam ter sido percorridos.
A realidade é que nós somos produto do tempo que vivemos, das nossas relações epocais, da vida que construímos.
No fundo, não estamos sós, caminhamos com quem caminha ao nosso lado, com quem construímos os dias, com quem aprendemos a sorrir, a chorar, a combater e a superar todas as dificuldades e desafios.
E, só há uma forma de viver, vivendo e fazendo que cada dia nos transporte para dentro de nos sentirmos bem com a nossa consciência. Isso ajuda-nos a sermos felizes.
Porque, afinal, ser feliz, é sentirmos que estamos bem com aquilo que somos, com aquilo que construímos.
Por vezes, até podemos magoar os outros com a nossa irreverência, com o nosso silêncio, ou com as nossas palavras em excesso…
Mas, no final, no tira e põe que a vida nos proporciona, penso que o fundamental é que sejamos capazes de, para além das circunstancias que vivemos, ou vividas, o importante, é, estarmos um dia, como hoje de manhã, à porta de um supermercado, sentirmos as pessoas passarem por nós e com elas partilharmos sorrisos.
E, para aqueles que nos olham de soslaio, pensarmos, se erramos, ou até mesmo, se afinal não passamos de um bode expiatório dos acontecimentos.
Não sou perfeito. Nunca quis ser perfeito. Nem tenho a cultura de ser um perfeccionista. Até penso mesmo que o cemitério está cheio de perfeccionistas.
Sou daqueles que comete muitos erros. Que por vezes até repete os mesmos erros. Mas não deixo de tirar as lições, mesmo com a consciência que posso, de novo, voltar a errar.
Escrevo tudo isto, porque foram pensamentos que me ocorreram, hoje, pela manhã, quando, ali à porta do Supermercado, a minha vida se cruzou com muitas outras vidas… e senti que há mais vida que aquela que passa por nós, ali, numa manhã de inverno, à porta de um qualquer supermercado!
A Carreira 7 de hoje é esta, talvez, a reviver a minha velha Crónica do Jornal do Barreiro «Com pés de veludo», agora que este jornal regional vai deixar de ter a sua edição impressa, também, este acontecimento marca o meu quotidiano.
Comecei a escrever naquele jornal há 40 anos. Ali ficam muitas páginas de vida e emoções.
Fui Chefe de Redacção e Director, um tempo vivido, com uma intensidade apaixonante, dias quer nunca irei esquecer e que vou guardar sempre num canto do meu coração.
Dias de trabalho, loucura e emoções, que contribuíram para construir muitas amizades, daquelas que sabemos, pulsam por dentro dos nossos neurónios.
Foi um tempo de aprendizagem, de crescimento e maturidade.
No dia que sai, sai por mim próprio, e, com a alegria de ter dado o melhor e servido a cidade.
Aliás, nunca esquecerei aquele dia da despedida, e, muito especialmente, aquele quadro que o Kira me ofereceu com a «Joana», de cabeça baixa e uma lágrima a cair do seu sorriso.
Bom, por aqui me fico, esta crónica de hoje deu-me saudades e quase que sinto a lágrima da Joana a brilhar por dentro das minhas palavras.
E, afinal, escrevo tudo isto, também, porque, hoje, fiquei triste, quando recebi uma chamada telefónica de um amigo, a dizer-me que faleceu, subitamente, a Deolinda, esposa do César Mata, dirigente da SFAL.
Uma mulher simples, sempre disposta para a galhofa, cujas gargalhadas ecoavam diariamente no Café Bar da SFAL.
Uma mulher jovem, que deixa uma filha adolescente, e, tenho a certeza que o César, nesta hora, está a viver momentos de grande dor. Fiquei triste e a pensar que a vida é mesmo assim, tanta luta, tanta angústia, depois, de um momento para outro...ponto final. Um abraço ao meu amigo César!
Até amanhã,
António Sousa Pereira













