InferênciasO regresso de José Sócrates
«O país tem urgente necessidade de parar com a austeridade»
O seu modelo é o dos PEC’s – somos pobrezinhos, vamos gerindo a crise e caminhando.
O outro modelo, deixou claro é o da troika, que não conhece o país real, o país que vive de pequenas e médias empresas e de uma classe média encostada ao estado.

Por Jornal Rostos
Estava com muita curiosidade de escutar atentamente a entrevista de José Sócrates porque, considero, neste «jogo» de fazer politica no sistema que está implantado, ele, é um dos protagonistas que marcou a história recente e, desde o seu discurso no Congresso do PS, realizado antes de perder as eleições, sempre tive duas convicções: a primeira era, se tivesse ganho as eleições, com o pedido de resgate à porta, e com o «memorando» que estava assinado o caminho que Portugal seguiria, certamente, não era muito diferente daquele que infelizmente estamos a viver e vamos continuar a viver, porque quem manda e decide é a Europa; a segunda, estava convicto que no caso de José Sócrates perder as eleições, era óbvio o seu regresso à vida política e o seu posicionamento nos confrontos do sistema. José Sócrates não é o José Sócrates é ele e a corrente socialista no contexto europeu, onde Portugal nada conta, ou só conta como «bom ou mau aluno», gerido ou pelo PSD, ou pelo PS.
José Sócrates afirmou, ontem, que a politica faz-se com acção, e, provando, mais uma vez que ele é um homem de acção politica, de combate, de crenças, por um modelo “europeísta”, onde Portugal negoceia, ou com PEC, ou com troikas.
O seu modelo é o dos PEC’s – somos pobrezinhos, vamos gerindo a crise e caminhando.
O outro modelo, deixou claro é o da troika, que não conhece o país real, o país que vive de pequenas e médias empresas e de uma classe média encostada ao estado.
José Sócrates demonstrou ontem que conhece bem o país real e sabe como deve ser feita politica neste sistema politico-partidário, que funciona com base nos contextos eleitorais e nas estratégias eleitorais.
Ele não brinca em serviço. Sabe que para se ser poder e conquistar o poder, em democracia, só há um caminho, ganhar eleições e estas ganham-se fazendo a diferença, separando as águas, e até com a convicção que uma derrota de hoje, trás dentro de si, se bem gerida, a vitória de amanhã. Ele aí está!
A acção politica também se faz com palavras, mas com palavras que produzam efeitos reais e que toquem os alvos eleitorais, a base social de apoio que se carece para conquistar o poder.
A acção politica com palavras, portanto, também, aí, as palavras são contextualizadas neste «jogo» eleitoral, e, na verdade, são a ponta do «iceberg» da acção politica, para o imediato ou para o futuro.
Para mim, na entrevista de ontem e como futuro comentador, ficou claro o regresso de José Sócrates para a vida politica portuguesa.
E, regressou «sem papas na língua» para dizer três coisas, para três alvos distintos, e para três cenários políticos distintos.
No cenário das Presidenciais, veio arrumar a casa com Cavaco Silva, e dizer-lhe, (in)directamente, que pode dizer o que entender, pode falar de jogadas politicas, pode colocar-se em bicos de pés, mas, neste jogo politico-partidário, deixou de contar como árbitro – porque não tem “autoridade moral”, porque é o «patrono da actual politica» e porque faz jogos partidários, com opções claras.
José Sócrates coloca-se claramente na corrida para as Presidenciais, quando faz um ataque cerrado ao actual Presidente da República. Não porque este seja um adversário directo, mas é o «patrono» de uma corrente de acção politica.
António Costa, que comentou este regresso de José Sócrates como sendo uma “má ideia”, a esta hora, já deve ter percebido que afinal, José Sócrates está a tirar-lhe terreno dos pés num eventual cenário de pretender posicionar-se na corrida a Belém.
António Costa não avançou para a liderança do PS e o mais certo é que o seu futuro politico ou será na Câmara de Lisboa, enquanto durar, ou volta a um Governo com a liderança de José Sócrates, ou quem José Sócrates apontar, porque, a partir de agora, a sua palavra vai contar, porque o PS conta com José Sócrates, o seu novo «senador». Mário Soares fica para a história como o fundador.
Ontem sentiu-se um «tremor de terra» em torno da Presidência da República e das presidenciais. Os estragos ainda estão por avaliar e se há um «tsunami» é isso que está a ser avaliado.
José Sócrates não veio para ser candidato presidencial, afirmou que não é esse o seu desejo, mas, se houver um «tsunami», uma onda de fundo que o empurre, será que um homem que privilegia a acção politica vai negar e não aceitar esse desafio.
Sócrates, ontem, até deixou recados subliminares para eventuais adversários como Marcelo Rebelo de Sousa – os jornalistas políticos, da politiquice.
No cenário das Legislativas, enterrou as políticas de austeridade, destruiu dois anos de governação da coligação.
Ele, deixou claro que quando governou estava com uma solução nas mãos negociada com os «patrões» europeus e que, afinal, foi o PR e a pressa que o PSD tinha de ir para o poder que conduziu Portugal para a crise e para o resgate.
Fazendo o papel de vitimização, deixou em aberto o caminho para entrar nesta corrida, dando a Passos Coelho umas traulitadas e dizendo-lhe que se cuide, porque, a partir de agora, a «narrativa» que faz de José Sócrates o «bombo da festa», vai deixar de estar sem resposta.
“A direcção do PSD terá as eleições que tanto desejou” – afirmou José Sócrates quando do chumbo do PEC 4, pois agora, sejam antecipadas, ou seja no final da Legislatura, que é pouco provável, as eleições estão a caminho e José Sócrates vai estar presente, se não for na acção politica directa, porque não quer estar nesse tabuleiro, será na acção politica da palavra.
Mas, ontem, José Sócrates deixou claro que não vai mais ser o bombo da festa, que nem está com a responsabilidade «nobre» de «pensar no futuro» isso é para António José Seguro, que também vai contar com este osso duro de roer.
E, obviamente, a José Sócrates não lhe interessa abrir, desde já, a «guerra no seio do PS», essa fica para depois, no entanto, deixou claro que o PS não esteve à altura de valorizar o legado governativo do período socrático.
Sócrates deu um pseudo beneficio da dúvida ao que, quase com ironia subjectiva, classificou de «novo ciclo» do PS que vive a pensar no futuro, uma atitude que classificou de «nobre» ( uma espécie de gato escondido com rabo de fora), porque acrescentou de imediato como a actual liderança do PS o deixou exposto às mentiras sobre a sua governação.
Assim como quem diz: António, eu depois trato de ti, agora tu não contas nem quero estar a incomodar-me contigo. Mas pensa no futuro, pensa…
Afinal, neste jogo pré-eleitoral, António José Seguro vai ter que escolher, quando se tratar de Presidenciais, estão na mesa duas cartas: ou António Costa ou José Sócrates.
Se optar por António Costa, abre caminho ao regresso de José Sócrates ao PS.
Se a opção for por José Sócrates, então sim, pode garantir o seu futuro, no curto prazo para o cargo de 1º Ministro, com José Socrates a fazer uma espécie de «Mário Soares».
José Sócrates afirmou - “a minha única preocupação é participar no debate político” e ninguém pode ter outra ideia que é essa a sua intenção, sendo injusto pensar que o antigo líder do PS regressa com a intenção de se candidatar a Presidente da República ou que pretende regressar à liderança do PS. Isso, é de facto claro que ele não pretende e seria um erro afirmar, neste momento, que era essa a sua pretensão. Não tinha capitalizado politicamente, nem aberto caminho para nada.
Não é José Sócrates que deseja, vai ser o PS a desejar, vai ser o país a levantar-se numa onda, hoje, já se escutava nas ruas: “Voltou um homem que sabe fazer politica”, ou, é isso, “O Passos Coelho dizia que não cortava subsídios de férias e cortou, José Sócrates, nunca o fez”...
António José Seguro, para se manter na liderança do PS, tem que fazer a «mea culpa», e vai já começar com o conteúdo da moção de censura.
José Sócrates deu-lhe os motes - «os três embustes». E vai estar atento. A moção de censura vai, certamente, ter como pedra de toque os três embustes. Tem que ter, sob pena do Grupo Parlamentar continuar esse «erro» dito «nobre» de manter o silêncio sobre a acção governativa de José Sócartes.
José Sócrates tem da politica uma ideia clara que esta se faz com acção, e já está em acção, deixa o mote, sabe que tem na Assembleia da República a sua base de apoio e sabe que António José Seguro não tem outra saída se quiser continuar o «novo ciclo» , resta-lhe contar, a partir de agora com a sombra de Sócrates, escutá-lo e agir em conformidade se quiser continuar a sua acção «nobre».
José Sócrates ontem nem se preocupou em criticar o PCP ou o BE por terem votado a moção de censura que derrubou o seu Governo. Apontou o dedo apenas a Cavaco Silva e acusou Passos Coelho de ambição e pressa de chegar ao poder.
Não valia a pena estar a criar fricções com o eleitorado à esquerda, ou hostilizar essa franja do eleitorado. Antes pelo contrário juntou-se ao protesto, fez eco dessas posições e apontou um único adversário a direita – Governo e Presidente da República.
Toda a gente sabe, em Portugal, que na luta das presidenciais, numa segunda volta, o eleitorado do PCP e do BE tem, por vezes, nas mãos o voto decisivo. Basta tapar o voto e engolir o sapo.
E, outra linha estratégica de ontem, para José Sócrates, foi conquistar o «centrão» do país que ora vota PS, ora vota PSD, cuja principal base social de apoio está na «função pública» lesada pelo cortes dos subsídios de férias, de Natal e tantas outras penalizações.
O sentimento que, ontem à noite, ficou em muitos lares foi : “Volta Sócrates, estás perdoado!»
Para esses, José Sócrates recordou o seu erro – “ter formado um Governo minoritário”, ficando dado o sinal, que nas próximas eleições legislativas a solução está no regresso à maioria absoluta, porque não há solução possível governativa com PCP ou com BE.
E, portanto, para finalizar, a realidade é que o sistema politico português a forma de sentir a politica em Portugal coloca-nos permanentemente perante duas únicas opções, aquela vulgarmente dita do chamado “arco governativo”, ou, como referiu José Sócrates, ontem, na sua entrevista “partidos do área institucional” – ou governa o PS, ou governa o PSD.
É isso que faz parte de todo este jogo, tácticas, estratégias. É esse o nosso dilema.
Em Portugal não há qualquer crise política, tudo está no rumo certo.
José Sócrates conhece bem o país, conhece os dossier’s, conhece como tudo funciona, no estado, na relação com o estado, conhece o sistema partidário, conhece a europa e o que nós contamos na europa, conhece a força da TV e sabe que para fazer acção politica só há uma forma – ter nas mãos o Poder Politico.
Ontem, assistimos ao regresso de Sócrates, cuidem-se…é que ele não brinca em serviço!
Agora, só nos resta esperar...não há muito por onde escolher.
A nós portugueses, neste sistema, só temos que escolher quem vai negociar com a Europa, saber se nos vamos manter no Euro, se saímos do Euro e ficamos na União Europeia.
Quanto ao resto está claro, sabemos o que há para pagar – seja divida pública, sejam a divida soberana, seja aguentar a banca, seja pagar as PPP, seja pagar as energias renováveis, o que temos pela frente são tempos difíceis, mesmo muito difíceis.
Quem estiver com o papel de «gerir as dividas» só tem que submeter-se aos ditames da Europa, ou numa estratégia «pequiana», ou numa estratégia «troikiana».
É isso que o país real quer, basta ir lendo as sondagens.
Sócrates sabe isso, e Sócrates sabe como conquistar o coração dos portugueses, basta por Portugal a pensar, como vive a pensar desde o século XIX – de um lado os bons, de outro lado os maus.
De um lado os «históricos» do outro os «Regeneradores».
De um lado os «monárquicos» do outro os «republicanos».
De um lado os «fascistas» do outro os «comunistas».
Depois, após Abril o inverso, de um lado os «comunistas» do outro lado os «fascistas».
E por aí fora…
Entretanto o sistema funciona.
Os sindicatos fazem greves.
Vamos cantando a Grândola.
Arranjamos uns «culpados» - ora a Troika, ora aquele que estiver como 1º Ministro, porque nós, todos nós, sentimos que estamos bem assim…numa «democracia partilhada».
António Sousa Pereira













