InferênciasA 1ª lista de independentes no concelho do Barreiro
- ou a ruptura entre duas concepções de Poder Local
O que é óbvio neste processo é a discussão politica sobre aceitar ou não aceitar pelouros. Ser eleito para dar sentido ao voto expresso pelo eleitorado. Ou não querer aceitar pelouro ou pelourinhos.

Por Jornal Rostos
No último fim-de-semana realizaram-se as tradicionais Festas de Coina, para além das diversas actividades recreativas e religiosas foi inaugurado o polidesportivo do Alto da Malhada, uma obra realizada da inteira responsabilidade do Executivo da Junta de Freguesia de Coina, com um custo total da obra foi de 43 468.38€, num terreno cedido pela Câmara Municipal do Barreiro.
Acompanhei de perto, em diversas reportagens, realizadas na freguesia, o empenho e a dedicação de Juvenal Silvestre na concretização deste projecto.
Uma aposta que o autarca colocou no programa eleitoral do seu actual mandato e que, tudo fez, para concretizar.
Juvenal Silvestre, presidente da Junta de Freguesia de Coina, eleito pelo Partido Socialista, tem sido há vários mandatos o exemplo de autarca socialista, pelo seu empenho, pela sua entrega à causa pública, por colocar o serviço à comunidade como vontade politica.
Foi merecedor do reconhecimento pelo seu próprio partido, tendo-lhe sido entregue o Prémio Autárquico Aires de Carvalho, distinção instituída para “premiar o trabalho quotidiano dos autarcas socialistas e perpetuar a memória do político barreirense.”
A primeira cerimónia de entrega do “Prémio Autárquico Aires de Carvalho”, contou com a presença de Jorge Coelho, dirigente nacional do Partido Socialista, tendo sido entregue a Juvenal Silvestre.
Igualmente, a imprensa regional atribuiu a Juvenal Silvestre a distinção «Rosto da 1ª Década do Século XXI» pela forma como sempre cultivou uma relação estreita com a população e com a comunidade, promoveu serviços públicos de apoio a idosos, apoiou alunos carenciados, estimulou tradições locais, tendo sido reeleito sucessivamente, com maiorias absolutas, e, até hoje, continua a liderar os destinos das Freguesia de Coina, sendo a presença PS « o bastião socialista», num concelho de maioria absoluta PCP/CDU.
Recentemente, Juvenal Silvestre anunciou o seu afastamento do Partido Socialista porque, pessoalmente, considerava que, pelo trabalho realizado e pelo seu exemplo de autarca, era merecedor de lhe ser atribuído um lugar na lista para a Câmara Municipal do Barreiro, nas próximas eleições autárquicas, em lugar elegível.
Não foi esse o entendimento do seu Partido e, magoado, bateu com a porta e optou por ser o protagonista da 1ª lista de independentes no concelho do Barreiro.
Este processo não pode ser meramente analisado como a luta por lugares, ele, trás, dentro de si, duas concepções de Poder Local, que, nos últimos anos, mais que uma vez foram espelhados após os resultados eleitorais, nomeadamente quando se registou a passagem à condição de Vereador Independente de João Soares e no actual mandato de Nuno Santa Clara.
O que é óbvio neste processo é a discussão politica sobre aceitar ou não aceitar pelouros. Ser eleito para dar sentido ao voto expresso pelo eleitorado. Ou não querer aceitar pelouro ou pelourinhos.
Há exemplos de referência na vida autárquica do concelho do Barreiro, de eleitos do Partido Socialista que deram contributos positivos para a vida local – Jorge Fagundes, João Pintassilgo e Aires de Carvalho são exemplos, mas também outros poderiam ser referenciados.
No actual contexto do Poder Local, ainda não está em prática a concepção de quem ganha tem a governação, ou a eleição de executivos monocolores.
O PCP/CDU, no Barreiro, tem sempre, ao longo de décadas, partilhada a gestão da vida municipal com o contributo das forças da oposição, quer em situações de maioria absoluta, quer em situações que careceu de receber o apoio de um partido de «charneira, nomeadamente do PSD.
O PSD tem sido um partido exemplar na vida local, aceitando sempre pelouros ou pelourinhos - nem que fosse apenas o Trânsito – afirmando-se como uma referência na vida autárquica e dando o seu contributo para valorizar e enriquecer a vida local.
Mendes Costa, Marcos Pimenta, Eduardo Porfirio, Eduardo Xavier, Águadoce Engrossa, Bruno Vitorino, Nuno Banza e Olga Paredes, são nomes que registamos, pela sua dedicação à vida autárquica e cujo trabalho tem sido meritório, pondo de lado as diferenças ideológicas, mantendo as suas diferenças e posições criticas, mas, na prática, dando um contributo para o desenvolvimento local.
O mesmo foi feito por João Soares e Nuno Santa Clara Gomes, que colocaram acima das opções partidárias a defesa dos interesses do concelho do Barreiro e quiseram trabalhar e não reduzir os seus mandadatos à critica da critica e mais critica.
Pelos vistos a não aceitação de Juvenal Silvestre em lugar elegível tinha por base a eventualidade de este, ao ser eleito, como homem de trabalho que é no terreeno, tomar a decisão de aceitar pelouro, coisa que, pelos vistos, poderá não ser do agrado da actual liderança socialista.
Assim, para se evitar que a ruptura aconteça amanhã, faz-se a ruptura já hoje e desbarata-se, num ápice, um dos maiores capitais políticos que os socialistas tinham no concelho do Barreiro, como exemplo de trabalho e verticalidade politica.
Aceitar ou não aceitar pelouros é uma opção politica, é uma decisão, e, se assim é, o PS deverá dizer previamente divulgar ao eleitorado que, caso sejam eleitos, os seus vereadores não vão aceitar pelouros, vão estar por ali a comentar as decisões.
O PSD todos sabemos aceita pelouros. Se eleger um vereador será um a trabalhar, se eleger dois serão dois a trabalhar. E tem demonstrado que faz, fazendo.
Portanto, o caso Juvenal Silvestre não é um caso pessoal, é uma concepção do Poder Local, é uma forma de encarar a vida autárquica.
A ruptura em Coina foi, afinal, uma ruptura de quem gosta de ter as mãos na terra, trabalhar, e contribuir para transformar com trabalho e não fazer politica apenas com palavras...e mais palavras.
António Sousa Pereira













