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Inferências

Quotidianos na Cidade - BarreiroO sistema vai continuar a funcionar democraticamente.

Pego no meu cachimbo. Fumo. Sinto a vida real. O sol. O chilrear dos pássaros.
Vou lendo o jornal. Sinto que as ditas reformas que a troika exige a Portugal, afinal, estou convicto, nas próximas décadas, limitar-se-ão à palavra «CORTES» - nos salários, nas pensões.

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Quotidianos na Cidade - Barreiro O sistema vai continuar a funcionar democraticamente.

Por Jornal Rostos

Hoje, pela manhã, fui, como é habitual, comprar o pão para o pequeno almoço, vem quentinho e sabe bem sentir a manteiga a derreter, marcando o começo do dia com um agradável sabor.
Lá estava o meu amigo Branquinho e sua esposa. Cumprimentamo-nos, como se cumprimentam os amigos que se reencontram.
Ela disse-me: “Ele tem uma coisa para te mostrar”.
Ele pegou no telemóvel e mostrou uma foto minha, que tirou nuns arquivos que lhe passaram pelas mãos, onde eu estava um jovem de cabelos pretos.
“Esse era o tempo em que eu sonhava” – comentei.
“Já não sonhas?” – interrogou.
“Sonho. Mas já não sonho como nesse tempo que achava que era possível mudar o mundo” - respondi.
Despedimo-nos depois de uma breve troca de palavras e conversa.

Fui comprar o jornal. Olhei as manchetes do dia.
“Bolas, não há mais títulos para as primeiras páginas em Portugal. Todos os dias só se refere os cortes de pensões e salários. São sempre os mesmos a pagar a crise.” – comentei.
“Estou cansado. Cansado de cortes. Cansado de não saber com o que vou contar amanhã. Estou cansado e farto.” – acrescentei.
“Mas é isso que eles querem, que as pessoas fiquem cansadas. Entrou aqui, há pouco, uma professora que disse que já nem ligava aos cortes, se desse para continuar a viver, por pouco que seja. As pessoas estão a desistir…” – comentou o proprietário da Livraria.
“Sim, as pessoas estão a desistir, porque não acreditam em mudanças. Estão fartas de ser enganadas. Vivemos numa democracia. Votamos. Decidimos. Escolhemos, até temos o direito de não votar, votar em branco. Mas nada disto resolve nada.” – disse-lhe.
“Sabes, recordo aquela manifestação dos indignados. As pessoas saíram à rua, acreditaram que era possível contribuir para mudar. Manifestação após manifestação, sentem a impotência. O sistema está assim, bem gerido. Uns gerem os descontentamentos. Outros gerem recebendo ordens da Europa. É assim, isto não vai mais mudar, porque os partidos têm o sistema bem blindado para que nada mude. É a nossa democracia partidocrizada” – sublinhei.
“Se as pessoas não desistirem, isto vai mudar…” – respondeu ele convicto.
“Sim, talvez, se pelo país forem crescendo nas próximas décadas movimentos de cidadãos que vão conquistando autarquias, e, pela base autárquica, obrigarem o sistema a mudar. Demonstrando aos mil dirigentes de cada partido, ao nível nacional, que gerem o sistema, que eles não são donos do eleitorado e, também, que esta forma de fazer politica nada tem a ver com a politica como causa nobre e de missão ao serviço de todos” – referi.

Sai com o jornal e o pão. Cheguei a casa pensando nestas palavras.
Resolvi escrever estas notas do quotidiano, porque, afinal, a vida é isto que nós sentimos diariamente, nas conversas, nos encontros e desencontros dos dias.

Dou comigo a pensar e a interrogar-me. “Deixaste de sonhar?” Fico na dúvida comigo próprio.
Pego no meu cachimbo. Fumo. Sinto a vida real. O sol. O chilrear dos pássaros.
Vou lendo o jornal. Sinto que as ditas reformas que a troika exige a Portugal, afinal, estou convicto, nas próximas décadas, limitar-se-ão à palavra «CORTES» - nos salários, nas pensões.
O sistema vai continuar a funcionar democraticamente. Podemos votar em branco. Podemos optar pela abstenção. São opções democráticas.
Até podemos sair para a rua e gritar. Até convém que isso aconteça. É preciso gerir a revolta.
Podemos até escrever uns poemas.
Podemos sonhar…sonhar não é proibido.
Sim, mas, de facto sonhar sempre, também cansa.
E cansa muito mais, quando sentimos que neste país, neste cantinho com mil anos de história, com uma energia muito própria e com uma afirmação única na história da humanidade, afinal, o futuro não se escreve, não se inventa…é uma ilusão!
É por isso, que conclui: não deixei de sonhar, mas deixei de sonhar que neste tempo que me resta para viver, este sistema não vai mudar, e vamos continuar a sentir na pele a castração dos sonhos.
Deixei de sonhar que é possível ter esperança em melhores dias…quem manda é a Europa. Ponto final.
O meu país, Portugal, de hoje, faz-me lembrar aquelas lutas dos operários da Monpor, da Equimetal, da Lisnave, da Siderurgia, da Setenave, da Quimigal – eu também lá andei nessa luta -... de greve em greve, de manif em manif, até ao encerramento das portas, depois o esquema DLD’s – desempregados de longa duração…assim é Portugal, nos dias de hoje, um país sem estratégia, sem rumo..enfim, um PLD – Protectorado de Longa Duração.
Ao menos, vou sonhar que amanhã, quando acordar ainda vou comer pão quente com manteiga, e sentir o paladar de um copo de café com leite ( afinal, ainda sou um privilegiado).
Quanto às manchetes dos jornais já sei, cortes e mais cortes, desta vez, deverá ser – Angola corta com Portugal!

António Sousa Pereira

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