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Quotidianos

O 25 de Abril explicado às crianças (e a alguns políticos barreirenses)Por Miguel Amaral
Barreiro

Partilho o enorme privilégio de ter sido uma das pessoas convidadas pela União de Resistentes Antifascistas Portugueses para, ao longo desta semana, visitar algumas escolas no Barreiro e conversar com várias turmas de crianças sobre o 25 de Abril.

4 min de leitura
O 25 de Abril explicado às crianças (e a alguns políticos barreirenses) Por Miguel Amaral Barreiro

Por Jornal Rostos

Nessas visitas tenho abordado diversos tópicos ligados ao regime ditatorial fascista em Portugal que, durante mais de quatro décadas, empobreceu, oprimiu, perseguiu, torturou, matou, condenou jovens portugueses e estrangeiros à guerra. Um regime que negou direitos fundamentais, nomeadamente os princípios da universalidade, da solidariedade e da igualdade no acesso à saúde, à justiça, à educação, ao trabalho digno, ao apoio social, à igualdade de oportunidades, ao bem-estar e à coesão social, à liberdade religiosa e de expressão, ao acesso à cultura e ao conhecimento. Nas sessões em causa falo com as crianças sobre a resistência anti-fascista e a revolução; sobre a criação da Constituição da República e em muitas outras conquistas de Abril, como a criação do Serviço Nacional de Saúde e do Sistema Público de Segurança Social, a consagração de um Estado laico e a separação do poder judicial do poder executivo.

Abordo com algum detalhe as denúncias, a censura prévia, conhecida como “lápis azul”, e a forma como impedia a divulgação de ideias contrárias ao regime e subordinava o pensamento crítico e livre dos indivíduos aos interesses de um Estado autocrático. Mostro-lhes o importante papel que o regime atribuía ao “marketing” político e ao Secretariado de Propaganda Nacional. Digo às crianças que o 25 de Abril é um processo cujo espírito deve ser perpetuado pois, infelizmente, há muitos problemas que, ao longo destes 49 anos de democracia, não conseguimos ainda resolver. Dou-lhes o exemplo dos cerca de dois milhões de portugueses que ainda vivem na pobreza, dos que não têm acesso à saúde, à justiça, à educação, à habitação digna ou a uma segurança social de qualidade; falo dos milhares de trabalhadores precários e explorados que ainda existem em Portugal, das clivagens sociais, da discriminação e da inequidade – uma pesada herança que vamos deixar a estas crianças e jovens.

Termino as sessões alertando para o perigo do branqueamento da história, para a necessidade de estarmos atentos e vigilantes ao que se passa à nossa volta, para que o 25 de Abril se projecte para o futuro, viva para sempre e para que o fascismo não volte nunca mais.

As crianças seguem estas explicações sempre muito atentas, curiosas, fazem perguntas, interagem, entendem perfeitamente tudo o que lhes é transmitido.

É, no entanto, com elevada tristeza que verifico que muitos adultos não possuem o grau de maturidade destas crianças. Por exemplo, na Reunião de Câmara do Barreiro de 19/4/2023, o Presidente da Câmara e os seis Vereadores do PS votaram contra uma saudação ao 25 de Abril e ao 1º de Maio apresentada pela CDU. Numa inaceitável tentativa de condicionar os proponentes da saudação e de escamotear a realidade portuguesa, os autarcas do PS mostraram grande desconforto com a referência feita a factos reais como as conhecidas ineficiências do SNS, as fragilidades da Segurança Social, a instabilidade do Sistema de Educação, ou a existência de precariedade laboral em Portugal. Pior, o Vice-Presidente repudiou publicamente a ideia de que a CMB se deve opor às práticas e políticas públicas que não respeitem os princípios da universalidade, da solidariedade e da igualdade, alegando que tal incitava à organização de manifestações na rua contra o actual Governo do país! Por sua vez, o responsável pela Concelhia do PS no Barreiro deu-se ao desplante de catalogar a saudação da CDU ao 25 de Abril e ao 1º de Maio de “Salazarista”!

Quem assistir ao vídeo da sessão* ou ler o texto da saudação** facilmente concluirá que o mesmo apenas descreve e valoriza de forma muito clara, as várias conquistas da democracia portuguesa nos últimos 49 anos, mencionando também, de forma transparente e objectiva, os desafios que a sociedade portuguesa tem ainda pela frente. Ou seja, o texto não vai além daquilo que é evidente e que tenho partilhado com dezenas os alunos do ensino básico para lhes explicar o 25 de Abril.

Mas, quando adultos com responsabilidades pelos destinos de um município não conseguem assimilar aquilo que as crianças de 10 anos entendem tão bem; quando as tentativas de condicionamento e de branqueamento, a leviandade e o constante “marketing” político prevalecem, ficamos com a certeza de que, de facto, ainda temos um caminho extremamente longo a percorrer para cumprirmos plenamente Abril.

* https://rb.gy/t74dv
** https://www.rostos.pt/bastidores/2003495-saudacao-ao-25-de-abril-e-ao-1-de-maio-apresentada-pela-cdu

Miguel Amaral
Professor Universitário
Vereador (CDU) na Câmara Municipal do Barreiro

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