Saltar para o conteúdo
Quotidianos

Por Rui Pedro Pereira35 horas: o caminho é alargar direitos, não retirar conquistas
Barreiro

As declarações do Primeiro-Ministro, Luís Montenegro, sobre as 35 horas semanais na Administração Pública merecem uma reflexão séria. Quando se aponta para os direitos conquistados pelos trabalhadores como um dos principais problemas da despesa pública, corre-se o risco de desviar a discussão do essencial e de alimentar uma divisão que não serve os interesses de quem trabalha.

4 min de leitura
Por Rui Pedro Pereira 35 horas: o caminho é alargar direitos, não retirar conquistas Barreiro

Por Jornal Rostos

Há anos que defendo uma posição clara, o problema não está nos trabalhadores da função pública trabalharem 35 horas, mas no facto de ainda não termos conseguido garantir melhores condições de trabalho e de vida a todos os trabalhadores, incluindo os do setor privado.

Colocar trabalhadores contra trabalhadores não resolve os problemas do país. Pelo contrário, alimenta desigualdades, cria divisões e desvia as atenções das verdadeiras questões que devem estar no centro das preocupações de quem governa: os salários, a valorização profissional, a produtividade, a conciliação entre a vida pessoal e profissional e a qualidade dos serviços públicos.

Importa recordar que, em 2016, durante o Governo do Partido Socialista, foi reposto o horário das 35 horas semanais na Administração Pública, e o mesmo Governo do PS avançou com um projeto-piloto da semana de quatro dias, envolvendo organizações que aceitaram testar novas formas de organização do trabalho.

Foi uma iniciativa que procurou estudar alternativas, avaliar resultados e demonstrar que é possível pensar o trabalho de outra forma, colocando também no centro das decisões a valorização dos trabalhadores, o seu bem-estar e a conciliação entre a vida profissional, familiar e social.

Este é o caminho que devemos aprofundar, valorizar quem trabalha, melhorar a organização do trabalho e criar condições para que todos possam ter mais tempo útil para a família, para a vida social e acima de tudo para si próprios. 


O melhor caminho para a produtividade será sempre através da realização pessoal do trabalhador.

Mais tempo de qualidade não significa desvalorizar o trabalho. Significa reconhecer que a vida não pode resumir-se ao emprego e que o desenvolvimento de um país também se mede pela qualidade de vida das pessoas, pela sua saúde, pelo tempo que podem dedicar aos filhos, aos pais, aos amigos e mesmo a dedicação à comunidade em associações sociais, culturais e ou desportivas por exemplo.

É fundamental discutir a despesa pública, a eficiência dos serviços e a utilização dos recursos do Estado. Mas essa discussão deve ser feita com seriedade, com dados e com propostas concretas, sem transformar os direitos laborais em simples bodes expiatórios, nem desvalorizar o contributo diário de milhões de trabalhadores para o funcionamento do país.

Se os trabalhadores da Administração Pública conquistaram as 35 horas, a resposta não pode ser transformar essa conquista num problema a eliminar. A resposta deve ser criar condições para que os trabalhadores do setor privado também possam alcançar as 35 horas semanais, com respeito pelos seus rendimentos e pela sustentabilidade das empresas.

De um Primeiro-Ministro espera-se capacidade para unir, encontrar as  soluções e construir consensos. Espera-se que procure melhorar as condições de vida dos portugueses, em vez de alimentar uma discussão que pode colocar uns contra os outros.

Os trabalhadores do setor público e do setor privado não são adversários. São pessoas que todos os dias contribuem para a economia, para os serviços públicos e para o desenvolvimento do nosso País. Os trabalhadores merecem respeito  e políticas que valorizem o seu trabalho.

É esse o caminho que devemos seguir, não colocar trabalhadores contra trabalhadores, mas unir esforços para construir um país onde se trabalhe com dignidade e se viva melhor.


Rui Pedro Pereira

Presidente da Concelhia do PS Barreiro

Trabalhador dos Serviços Municipalizados de transportes Colectivos do Barreiro e sindicalizado no STAL da CSS CGTP-IN

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção