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Quotidianos

Passos começa a entenderPor José Assis
Seixal

A diferença entre um bom e um mau primeiro ministro estará na coragem que tenha em impor o direito que Portugal tem na UE de ser tratado igualmente e a uma recuperação em condições de acesso iguais aos membros mais fortes.

4 min de leitura
Passos começa a entender Por José Assis Seixal

Por Jornal Rostos

Com uma overdose de crise, numa economia que só fala de economia e que colocou em causa todos os fundamentos livrescos da teoria económica, começa a surgir ao fundo a realização de que a camisa de forças pode ser desamarrada. Foi precisa uma overdose mortífera em parte para que, tendo como pano de fundo uma opinião pública global de protesto, as instituições e os indivíduos começassem a mudar de posicionamento face ao futuro do planeta. Bater no fundo, neste caso, significou o risco do colapso global e provocou na consciência colectiva um recuo à sua memória dos momentos mais nefastos e arrasadores da história.

A overdose, induzida pela arritemia noticiosa, vertiginosa no vicio, é o principio da cura. Não da cura pelo aumento da dose mas pelo bom senso da mudança de rumo terapêutico.

Como aqui já aqui escrevi https://www.rostos.pt/quotidianos/111500-quando-menos-com-menos-nao-da-mais-por-jose-assis-seixal o ciclo da mudança está já em movimento e é preciso que Portugal, apesar da ajuda externa, dos planos de ajustamento e dos reajustamentos aos ajustamentos, acompanhe essa mudança. Se no exemplo que nos conduziu à overdose, estivemos numa linha da frente que, não sendo a primeira linha, permitiu evidenciar, a todos, que o caminho da UE, espelho para o mundo, não é este que se está a seguir, o pior que nos poderia agora acontecer seria não acompanharmos o sentido inverso, o da recuperação, nas mesmas condições de acesso à mesma, por pensarmos que ainda estamos na trajectória do fim da linha. Não. Por uma questão de justiça é importante que os Estados, aqueles que foram colocados quase involuntariamente numa situação de necessidade, induzida por padrões errados, sejam os da linha da frente no novo paradigma. Se assim não for a desigualdade agravar-se-á e a injustiça duplicará na medida em que aos Estados que se auto- protegeram da overdose provocada, porque detém esse poder, é permitida uma saída mais rápida do que aqueles que foram empurrados por um vicio que não é só seu.

O novo ciclo está em marcha. Os mais vulneráveis e mais expostos, designadamente na UE, devem poder manter, designadamente na UE, os poderes de igualdade e solidariedade que os tratados já conferem.

Neste novo quadro, rever os tratados, de modo a fazer constar uma recuperação desigual é quebrar pelo elo mais fraco e reescrever pela força da lei injusta o que os povos não deixaram pelo legitimo protesto. Agora que pela força da natureza o ciclo muda não pode ser pela força da norma injusta que ele tente ser contrariado.

Passos Coelho parece começar a entender este novo ciclo. A diferença entre um bom e um mau primeiro ministro estará na coragem que tenha em impor o direito que Portugal tem na UE de ser tratado igualmente e a uma recuperação em condições de acesso iguais aos membros mais fortes. A atitude do assinalar constante do sentimento da culpa, e do chicote de auto- flagelação só socorre quem não quer a igualdade e pretende alterar a correlação de forças institucionalizada no seio da UE. Por isso rejeitar, neste preciso momento, a revisão dos tratados da UE é rejeitar que, por essa via, se tente resistir á mudança originada pelo protesto global.

Magaret Thatcher já disse que a esquerda (left) poderá está certa (right) e na própria direita continental se questiona afinal o que é isto do "primado do mercado" vide Frank Schirmacher . Como intitula Charles Moore no The Daily Telegraph "E se a esquerda tiver razão?" (in Courrier International,Outubro 2011).

Depois de satisfeitas as fantasias e os fétiches do sagrado mercado desenvolvido pelos sem alma, cuja libidinosa satisfação foi a de uma "tempestade perfeita", cabe agora às pessoas de bom senso, normais, com sonhos terrestres, cumprir a "recuperação justa ".

José Assis

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