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Memórias da Escola Alfredo da SilvaPor Jorge Fagundes
Barreiro

A Escola Alfredo da Silva teve uma importância extraordinária no nosso tempo- e não só- pois, sem ela, a esmagadora maioria dos rapazes e das raparigas barreirenses, acabada que fosse a Escola Primária, por insuficiência económica dos pais, não tinha hipóteses de continuar a estudar. Tinham de ir trabalhar!

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Memórias da Escola Alfredo da Silva Por Jorge Fagundes Barreiro

Por Jornal Rostos

Esta manhã, ao dirigir-me à estação dos correios, dei conta que o meu velho Amigo e Colega da Escola Alfredo da Silva, aproveitando o sol que fazia, se encontrava numa das esplanadas ali ao pé do Mercado 1º. de Maio. Aproximei-me e...
“Bom dia! Bons olhos te vejam. Até pensava que tinhas emigrado.”
“Bom dia, meu velho! Não emigrei, não, mas se fosse mais novo era canja. Estive uns tempos no Algarve, naquela casa que era dos meus sogros e, regressado ao Barreiro, não tenho saído, quer pelo tempo não estar agradável, quer por ter andado a arrumar umas coisas.”
“Tem graça, também andei em arrumos. E lá encontrei uma série de fotografias tiradas na Alfredo da Silva, umas quando andava no segundo ano do Comércio, outras quando finalista. Que saudades!”
“Dizes bem, que saudades! E já se passaram sessenta e sete anos desde o primeiro dia que ali entrámos!”
“E ambos, já colegas na Escola Nova, acabámos por ficar na mesma turma do Ciclo Preparatório.”
“É verdade. Os dois, de calções, tu vinhas da Telha e eu, por morar na Rua Aguiar, mesmo ao pé da Igreja da Senhora do Rosário, só tinha de atravessar o largo, então com o cruzeiro ao meio.”
“E por falares que andávamos em calções, recordei-me qua as minha primeiras calças compridas não foram mais do que as de um fato macaco de trabalho, em ganga, estreado nas aulas de mecânica do Mestre Adrião.”
“Tem graça. Agora me lembrei que comigo também sucedeu o mesmo, só que estreei o meu fato de trabalho nas aulas de carpintaria do Mestre Vieira.!
“Dois grandes Homens, a incluir na lista daquele escol de Professores que ali tivemos.”
“Tens toda a razão. Quando acabámos o Ciclo Preparatório tu foste para o Comércio, eu para a Indústria. Mas tínhamos muitos Professores em comum. Aliás, tu bem os referiste naquela intervenção que tiveste, em nome dos antigos alunos, quando a Escola comemorou os cinquenta anos.”
“D acordo! A Escola Alfredo da Silva teve uma importância extraordinária no nosso tempo- e não só- pois, sem ela, a esmagadora maioria dos rapazes e das raparigas barreirenses, acabada que fosse a Escola Primária, por insuficiência económica dos pais, não tinha hipóteses de continuar a estudar. Tinham de ir trabalhar! Passados tantos anos, ainda ninguém se aventurou- e no Barreiro há gente muito capaz de o fazer- ao estudo da influência da Alfredo da Silva na vida barreirense. Em minha opinião, tal estudo dava bem para uma tese de Mestrado, ou mesmo de Doutoramento!”
“É um bom repto que lanças a quem o quiser fazer.”
“Olha lá, se não estou enganado, aquele que ali vinha e que, quando deu por nós, se enfiou de imediato no Mercado, não era o Lopes, do nosso tempo?”
“Era, era, mas quando me vê foge de mim que nem o diabo da Cruz!”
“Foge? Mas porquê?”
“Muito simples caro Colega e Amigo. Aqui há três anos caí na asneira de lhe emprestar uma razoável quantia e, sempre que lhe lembro o pagamento da dívida, invoca o facto de estar a sofrer de uma curiosa doença.”
“Qual ?”
“Doença muito estranha! Enquanto nós, aqui, nos recordamos, ,passados já sessenta e sete anos, dos nossos tempos da Alfredo da Silva, ele, só três anos após eu lhe ter emprestado o dinheiro, alega que sofre…de amnésia selectiva!”
“Essa agora! Não sabia que ele era membro do governo!”
“Não é, não, mas bem o parece!!!!!”

Jorge Fagundes

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