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É da praxe!!Por Jorge Fagundes
Barreiro

“Não, da praxe, no sentido de costume. Antes das eleições todos prometem mundos e fundos, mas a praxe é, quando se chega ao Governo, esquecer completamente as promessa eleitorais.”
“Mas, segundo o mesmo jornal, os donos dos restaurantes queixam-se do imposto sobre as refeições, que é muito elevado, o que lhe faz perder clientela. É verdade?”
“Meras atoardas, sem fundamento. Os três restaurantes existentes na nossa capital estão sempre cheios.”

5 min de leitura
É da praxe!! Por Jorge Fagundes Barreiro

Por Jornal Rostos

Nota prévia: a entrevista que se segue não passa de uma mera ficção, pelo que qualquer semelhança com uma eventual realidade é , apenas, uma simples coincidência.

O reino da Alburricalândia encontra-se encravado entre os montes Himalaias e, após diligências demoradas, mas coroadas de êxito, conseguiu-se, em exclusivo mundial para o Rostos, uma entrevista com o Príncipe Pilares Verde, Ministro de Estado e porta voz do Governo daquele longínquo País.

“Antes do mais, os meus agradecimentos a Vossa Alteza por ter acedido a conceder-nos esta entrevista, ainda por cima sem me serem exigidas quaisquer limitações nas perguntas.”
“Registo esse agradecimento, até porque não é muito vulgar jornalistas europeus se deslocarem ao nosso Reino. Quanto a limitações nas perguntas, tal não é mais, afinal, do que uma das normas principais do meu Governo: a transparência. Queira perguntar.”
“Alteza, antes de nos deslocarmos, procurámos documentar-nos o mais possível sobre o vosso Reino. E assim soubemos que, há três anos, se realizaram eleições para o vosso Parlamento, não é verdade?”
“É verdade, sim. Este Reino é uma monarquia constitucional e, de cinco em cinco anos, realizam-se eleições para o Parlamento, que tem trinta membros.”
“Só trinta deputados. E chegam?”
“Chegam perfeitamente. Aliás, é uma grande honra pertencer-se ao nosso Parlamento, sendo que o exercício das funções é exercido, em exclusivo, pelos deputados.”
“Mas, Alteza, segundo um dos vossos jornais, o vosso Partido, vencedor das eleições, quando no período pré-eleitoral, prometeu que, se chegasse ao Governo, jamais aumentaria os impostos, mas, aumentou-os.”
“Meu caro senhor jornalista, no seu País não sei o que se passa, mas aqui isso é da praxe!”
“Da praxe académica?”
“Não, da praxe, no sentido de costume. Antes das eleições todos prometem mundos e fundos, mas a praxe é, quando se chega ao Governo, esquecer completamente as promessa eleitorais.”
“Mas, segundo o mesmo jornal, os donos dos restaurantes queixam-se do imposto sobre as refeições, que é muito elevado, o que lhe faz perder clientela. É verdade?”
“Meras atoardas, sem fundamento. Os três restaurantes existentes na nossa capital estão sempre cheios.”
“E passam faturas aos clientes?”
“Passam, passam. Ai deles se o não fizessem, era cadeia garantida. Uma vez por ano, as faturas passadas são objeto de um sorteio, e o cliente vencedor tem direito a uma fotografia, autografada e emoldurada em ouro, do nosso bem amado Rei!”
“Alteza, o vosso País atravessou um período de grandes obras públicas, como estradas, pontes, túneis, viadutos, hospitais. Os prazos de conclusão dessas obras foram sempre cumpridos?”
“Essa agora! Nunca! Mas é da praxe!”
“E consta que há, sempre, trabalhos suplementares, que aumentam, em muito, os custos finais. É verdade?”
“Pois claro que há! É da praxe!”
“ E pagamentos especiais, que em Portugal se chamam luvas?”
“Luvas? Que termo tão original! Aqui as luvas só servem para proteger as mãos dos frios. Mas, pagamentos especiais, há-os sempre. É da praxe!”
“Mas há uma certa imprensa que se queixa da baixa de salários aos funcionários públicos, e de taxas elevadas a incidir nas pensões e nas reformas. É verdade?”
“Tudo, tudo especulações por parte daqueles que, não tenho ganho as eleições, só demonstram um mau perder. O nosso País atravessou algumas dificuldades, é certo, e todos, todos sem exceção, tiveram de suportar uns pequenos sacrifícios.”
“Mas esses pequenos sacrifícios vão durar ainda muito tempo?”
“Nem pensar, são apenas de natureza provisória. É da praxe dizer-se que o pior já passou e que o futuro será bem risonho.”
“Mas, Alteza, havendo eleições daqui a dois anos, por causas desses tais pequenos sacrifícios, não poderá o vosso Partido perder as mesmas?”
“Perder? Nunca! A Princesa Flor de Liz, nossa ministra das Finanças, tem já de parte umas verbazitas para, na altura devida, distribuir umas benesses.”
“Benesses, Alteza, de que tipo?”
“Ora, ora, baixam-se, um pouquito, os impostos, aumentam-se, não muito, os ordenados, as pensões e as reformas, e toda a gente, satisfeita da vida, volta a votar no meu Partido. É da praxe!”
“Alteza, muito grato por este entrevista.”
“De nada, senhor jornalista. Foi um grande prazer da minha parte. E, por favor, aceite uma modesta oferta do meu Governo.”
“Oferta?”
“Sim, oferta. Para além desta fotografia, autografada e emoldurado em ouro, do nosso bem amado Rei, todas as suas despesas serão pagas por nós: hotel, viagem de regresso, tudo. É da praxe!”

Jorge Fagundes

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