Carta de Raul ZagaloPor Carlos Alberto Correia
Barreiro

Por Jornal Rostos
Não gosto de me enfeitar com penas alheias mas não posso ficar indiferente, nem deixar passar sem a devida referência, um ato de enorme dignidade de um homem a que tenho a honra de chamar amigo.
Raul Zagalo, de seu nome completo Raul Zagalo Gomes Coelho, um dos participantes do assalto ao Quartel de Beja, ocorrido em 1 de janeiro de 1962, onde foi ferido e aprisionado pelas forças fascistas, é também o autor da peça de teatro “A cumeadas dos montes” em apresentação pela Companhia de Teatro do Barreiro – Projector.
Esta carta dirigida ao movimento NAM – Não Apaguem a Memória, é, nos tempos de apatia e submissão que vivemos, um grito de alerta e coragem que vale a pena ouvirmos e entendermos.
Para que se não diga que nada fazemos, aqui, à falta de melhor ação, deixo a carta que demonstra a continuidade da força e nobreza que um dia levou Raul Zagalo a pegar em armas pela Liberdade.
“Caros Companheiros do NAM,
Tenho sempre presentes, na minha memória, os advogados que tomaram posições contra a ditadura, ao lado dos presos políticos, nos Tribunais Plenários. Recordo sempre, com emoção, os meus advogados Castanheira Lobo, Duarte Vidal e Cunha Leal, que no Tribunal Plenário, mais que advogados, foram combatentes ao denunciarem o regime, enfrentando a
PIDE e os "juízes" fiéis servidores do regime fascista. Todos merecem o nosso reconhecimento, com exceção de alguns, transformados, entretanto, em políticos carreiristas e acomodados. Contudo, a memória da maioria que já partiu e outros que ainda estão entre nós, mereciam ser homenageados noutro local e não na atual Assembleia da República, com o "oportuno" apoio da sua designada Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias.
Existem, atualmente, Direitos, Liberdades e Garantias que todos os dias são sonegados aos portugueses, sem que a dita Comissão se indigne, ou se perturbe, minimamente, impante na sua indiferença e ignorância satisfeita. Esta é uma iniciativa, "politicamente correta", da dita Comissão, sem custos, nem coragem, com que a maioria esmagadora dos seus membros pretende ficar bem. Será que não sabem que essa maioria não tem consciência, e/ou reconhecimento sincero, pelos sacrifícios dos resistentes e dos seus advogados dos Tribunais Plenários? Depois de termos PIDES "homenageados com pensões", o que é que a dita Comissão, ou Comissões, fizeram para denunciar a ignomínia que atentou contra os direitos e a memória dos resistentes?
Por estas razões e em memória dos meus advogados, velhos republicanos e democratas, que estranhariam e se incomodariam estar na presença da maioria daqueles personagens, que vão "decorar" a Sala do Senado, não
poderei estar presente na referida homenagem. Com outros companheiros, noutro local, e sem "estranhas criaturas", homenagearemos, mais uma vez, os advogados, que nos Tribunais Plenários lutaram, ao nosso lado, contra o
regime fascista.
Saudações fraternais”,Raul Zagalo.
Carlos Alberto Correia













