O milagre económicoPor Carlos Alberto Correia
Barreiro

Por Jornal Rostos
Descíamos o Chiado na hora em que o sábado se torna domingo, por entre a multidão de jovens e menos jovens, espalhados até á Rua Garrett, em demanda do Bairro Alto quando, do meio da turba, vindos de vasculhar um caixotão de lixo, frente a uma padaria, um casal de idosos me chamou a atenção. Enrugados de pele, roupas enxovalhadas deixando ainda transparecer alguns vestígios de outros tempos de melhor vida e menos humilhação, transportava, cada um deles, um atado de cartões, de que iriam fazer cama e teto, para essa noite, em qualquer local minimamente abrigado.
O contraste entre a turba agitada na procura do atordoamento e o passar silencioso, quase no limite da percetibilidade daquele casal, foi grito rutilante a cravar-se no coração da realidade. Fugiu-me a imaginação para os mais de oitenta anos que ambos teriam. Certamente tiveram emprego, possivelmente filhos, votaram, expenderam opiniões, ajudaram, fosse no que fosse, a construir a sociedade que agora, de tão despudorado modo, os relega para o pé de página da história. A pergunta que me surgiu de rompante foi a de como, quarenta anos após a madrugada de esperança, chegámos a isto? Veio-me à memória o tempo, ainda jovem, em que a revolta me assaltava ao ver, na soleira da porta de uma loja de luxo na Baixa, uma mulher muito velha, estendendo cartões semelhantes, num dia de forte chuva, sobre o lajedo molhados pelos pés dos transeuntes.
A velha agonia voltou a tomar conta de mim. Retrocedemos tanto. Não perdemos apenas bens, poder de compra. A regressão é maior, mais essencial. Em nome de interesses espúrios vamos sendo empurrados para uma perda de direitos capitais. Recordo-me de mestre Aquilino a perguntar: Quantos pobres são necessários para fazer um rico? Assalta-me a memória o aumento inusitado, no ano transato, de milionários em Portugal. Alguém aqui está interessado em transformar a nossa gente em miseráveis que vendam a força de trabalho por uma sopa aguada e um pedaço de pão. E nós não fazemos nada? Encolhemo-nos na “apagada e vil tristeza”?
Entenebreceu-se-me a noite até aí interessante, leve, alçada para lá do quotidiano. Bati com o corpo no chão mais duro. Os passos doíam-me ao encaminhar-me para o barco. Azar! Por cinco minutos perdi-o. Agora vou ter de esperar uma hora pelo próximo. Paciência! Que posso fazer? Resignado pus os auscultadores no ouvido. No noticiário, a voz do ministro da economia, ofensiva, vomitativa, informava-nos de que o país estava em pleno “milagre económico”. Agoniado desliguei o rádio e, por todo o tempo de espera, tentei não pensar em bombas nem em corpos dependurados dos candeeiros por uma população ofendida, famélica, sem ponta de esperança no mais distante horizonte.
Carlos Alberto Correia













