«As Primeiras Coisas»(Belo romance de Bruno Vieira Amaral)
Por Manuela Fonseca
Barreiro
Eis a Obra de que precisávamos, um livro ímpar, um espantoso políptico que nos apresenta, com veemência, a verosimilhança / a verdade do que não queremos apreender / sentir / ver; a que nos cerceia as falsas esperanças: aqui, no País (no Mundo?).

Por Jornal Rostos
“As Primeiras Coisas” é um conjunto de narrativas, primorosamente organizadas, ricas na criação de personagens e das outras categorias da narrativa, em movimento permanente que quase entontece o narratário, tal o ritmo alucinante com que são tratadas.
Algumas daquelas, aparentemente desaparecidas no corpo da história, a ela voltam, nela se entrelaçam e (re)elaboram: engrandecem-na, tornam-na cada vez mais apelativa, fazem-na crescer: “O homem sentado ao balcão virou-se. Veio devagar até à minha mesa. Era ele, Abel, o Ho Chi Minh, como alguns lhe chamavam, o Mandarim. (…) Para mim era uma surpresa reencontrá-lo. Pensei que tivesse morrido.” – Pp. 51, 52.
Há diversas personagens indicadas, curiosamente, apenas pelo nome, a sua primeira construção, aliás, na aparente solidão da designação de cada uma – pp. [222], 223. Solidão, contudo, logo desfeita porque elas remetem para culturas, línguas e ideologias plurais: “Tatiana Filipa, Yuri; (…) Abdul; Denise, Vera Michelle, (…) Gonga N’Zagi; Rúben Filipe; Lenine, Inês Suleimane, (…) Álvaro M’Betetela de Carvalho Lutukuta.”, na dimensão de Portugal, na dimensão dos caminhos e buscas do Homem.
Culturas, línguas e ideologias – no espaço fechado, abafado, socialmente desvalorizado do Bairro Amélia, símbolo de parte da nossa região, esquecida, não poucas vezes escarnecida pelos que têm tido o dever, renegado, de a desenvolver –: “A decadência – talvez haja uma palavra mais branda – conta uma história que não é apenas a história de
Eva e não é tão grandiosa como a história do Bairro Amélia; é a narração de um fragmento de vida, entre um zénite e a sua deterioração, como se Eva se estivesse a desfazer à nossa frente e a utilidade do fragmento fosse apenas a de ilustrar a precariedade dos negócios, a transitoriedade das circunstâncias, a fragilidade das pessoas.” – P. 119.
Eva, o Bairro Amélia, a Margem Sul (marginalizada ao longo de séculos), símbolos dos menos favorecidos de um Portugal, quiçá agónico, a desfazerem-se à frente de quem foi eleito para os tornar mais felizes sem o executar, apesar dos votos nesse sentido, em execrável ofensa à Democracia.
Vão uns, vêm outros; o que fizeram / o que fazem pelo Bairro Amélia?
1. “ATÉ ESSE ESPLÊNDIDO ANO em que o Bairro Amélia foi elevado a freguesia e em que o magnífico primeiro-ministro passeou a sua aura de D. Sebastião pelas ruas sujas do bairro dos retornados, o Carnaval eram três dias de folia medieval (…). Júlio Soares, candidato à presidência da futura Junta de Freguesia, (…) prometeu um magnífico desfile de Carnaval (…). – P. [81.]
2. “famílias de lágrimas nos olhos a agradecer ao Senhor Doutor Professor que era tão bom, que dava casas ao povo e aumentava as reformas” – P. [240.]
Nada fizeram / Nada fazem: o Bairro continua igual a si próprio, desapoiado, iludido, violento: “Quando soube que a mulher passava as tardes de domingo no Copacabana, esperou-a no parque de estacionamento e quando ela saiu, o rosto iluminado por um contentamento breve, outra vez adolescente, disparou três tiros à queima-roupa, que a deixaram caída numa poça de sangue (…). Um último tiro, quando já estava morta, desfez-lhe o crânio.” – P. 95.
Espaço e tempo no Bairro Amélia / do Bairro Amélia, em omnipresença assim referida:
1. “QUANDO, EM FINAIS DOS ANOS NOVENTA, voltei costas ao Bairro Amélia, com os seus estendais de gente mórbida, a banda sonora incessante das suas misérias, nunca pensei que a vida me devolveria ao ponto de partida.” – P. [11.]
2. (…) “Regressar assim foi uma espécie de rendição, um cessar-fogo forçado.” – P. 13.
Rendição nos sons, infinitos, do Bairro: “A MELODIA CHUVOSA DO AMOLA-TESOURAS soprada numa gaita-de-beiços; os gritos de Maria da Cruz a chamar os filhos para o jantar; o martelar incessante da música de feira com o epicentro no recinto das festas; (…) o peido celeste dos caças F-16 que rasam as torres do bairro Amélia e aterram na Base Aérea lá para o Montijo, no outro lado do mundo; (…) o pingar contínuo de uma torneira por reparar; as cantilenas infantis em coros de obediência e tédio; o tac-tac apressado dos sapatos de salto alto na tijoleira em noites de farra; o sibilar nocivo das lacas e dos desodorizantes; o uivo rotundo dos barcos do Barreiro; (…) – pp. [258]-260. (Sons que depauperam, desvendam, escancaram vidas.)
Dramas, comoventes, na ausência de esperança das gentes do Bairro, associados por quem as conta a horríveis acontecimentos do século vinte:
1. “Uma história que sempre me fascinou foi a da derrota dos japoneses na II Guerra Mundial, sobretudo a destruição de Hiroxima e Nagasáqui.” – P. 13.
2. Outro, também tristemente célebre, o naufrágio do “Titanic”: “Especializei-me em catástrofes (…): o dia limpo, as crianças a caminho da escola, a partida do porto de Southampton no dia 10 de Abril de 1912, o mar calmo, o clima festivo de sexualidade desenfreada, depois as primeiras nuvens no horizonte, os indícios da desgraça, o embate no icebergue, o clarão mortal, as primeiras vítimas da então chamada praga gay. – P. 14.
Ocorrências que se associam às dores do Bairro, que avivam as do narrador e nelas se fundem: “O que é para um homem a vergonha abstracta de um país quando comparada com a sua vergonha pessoal, as dores silenciosas da sua humilhação? No grande plano da História, o sofrimento é sobrevalorizado pelo colectivo e diluído na multidão. No plano fechado do indivíduo, as angústias têm de ser digeridas a frio, na solidão, sem que ninguém nos possa valer. – P. 15.
Várias delas arrastadas pela descolonização:
1. “Dona Cremilde veio de Angola na Ponte Aérea. (…).
(…) Não era despicienda a questão do património, porque dona Cremilde, que se soubesse, nunca o teve. Tendo pouco, comportava-se como alguém que tivera muito, uma riqueza imaterial.” – Pp. [97]-98.
2. “’quando era pequeno o cabelo era liso e loirinho, loirinho como o tio dele, o Mário. Morreu novo, ainda em Angola […] Não, não. Foi um acidente de carro. Tinha dezanove anos (…). Nós viemos para Portugal no dia 19 de Setembro de 1975, sexta-feira (…). Deixei tudo, menino. Ficou lá tudo. Trazíamos a roupa do corpo. (…) Ficámos todos no Hotel Roma. Tivemos sorte porque a Alda e o Januário também estavam ali. Foi ela que nos disse que havia umas casas, no outro lado, no Barreiro. Vim eu com o João Mário e o meu cunhado de barco.’” – Pp.169-170.
(O Barreiro funciona como hiperonímia da área onde nascemos / vivemos.)
Um Bairro com mescla de gentes, culturas, religiões:
“Pastor Joaquim
QUANDO O PASTOR JOAQUIM VEIO PARA o Bairro Amélia a Igreja Evangélica ainda ficava lá no alto, em funcionamento numa precária construção de madeira. Os crentes subiam a custo os degraus íngremes de cimento, a expiar pecados no simulacro de Gólgata de onde se via o bairro com as suas abjecções expostas, os trastes na varanda e os lençóis brancos ou rendados nos estendais, o lixo à porta dos cafés e o campo da bola vazio, e encontravam um homem corpulento, de voz trovejante, um descendente moderno dos gigantes do Génesis.” – P. [228.]
A fealdade como uma espécie de castigo bíblico do Bairro e das suas gentes: “Ao olhar para a casa outrora habitada pela família Machado, revi, como se olhasse para um caleidoscópio, os dentes tortos da filha mais nova, a bela Susana, a infância, as mãos sujas de terra, o Espanha-Argélia do Mundial de 1986 em diferido na RTP2, a minha mãe a roubar rosas de uma sebe com o corta-unhas que trazia na bolsa.” – P. 24. Acontecimentos fora do Bairro, a ele chegam ou dele partem.
A incompletude dos que fazem a(s) história(s) doída(s):
1. Nos dentes, deformados, de Susana.
2. Nos dias, péssimos, de Cordeiro: “(…), acamado, as feridas a supurar, as senhoras do apoio domiciliário a virarem-lhe o corpo pesado na cama, ele a gemer, elas a contrair o rosto perante a carne viva” – p. [96.]
3. No desgosto e na vida, subitamente transformada em atrocidade, de Rui: “Rui perdeu o filho e a mulher num acidente de carro, na recta da Vila Chã, vindos da festa da Penalva. Tinham uma vida tão boa, ele meteu-se na bebida, as mãos tremiam-lhe.” – P. 154.
4. No pedinte que entristece e enclausura (ainda mais?) o narratário: “Cansado – era muito gordo, de uma gordura doentia – sentava-se nas escadas a comer uma carcaça seca ou, em certas ocasiões felizes, uma tigela de sopa. Limpava a boca às costas da mão e arrotava com agrado. (…) Depois, sem que se saiba ao certo quando, deixou de aparecer e nunca mais voltou.” – P. [234.]
No narrador que constrói a mãe, a avó, o avô mas não (?) o pai (quase ausente? Elidido?):
1. Na intersecção, frásica, da terceira com a primeira pessoa do singular, na intersecção do real com o imaginário: “DEVE TER TRÊS ANOS. Está no limiar da cozinha dos avós. O pai está perto dele. É um ser gigantesco, tão grande que nem lhe vê o rosto. É uma massa escura e toda a luz que a criança guarda na memória vem da sua voz. (…) O homem enorme, o pai enorme, (…) durante anos não será mais do que a voz que diz estas palavras redondas que perfuram a custo a carne da criança:
“‘Esta faca é para matar a tua avó.’” – P. [121.]
2. Na redundância, mais à frente: “‘Esta faca é para matar a tua avó.’” O comentário curto, o adjectivo “vazio” a preenchê-lo: “Este homem vazio, meu pai.”
Eis a Obra de que precisávamos, um livro ímpar, um espantoso políptico que nos apresenta, com veemência, a verosimilhança / a verdade do que não queremos apreender / sentir / ver; a que nos cerceia as falsas esperanças: aqui, no País (no Mundo?).
Eis a Obra dedicada aos que penam, tergiversam, desaparecem, não surgem mas são evocados.
Eis a Obra.
Manuela Fonseca
(1) Bruno Vieira Amaral, “As Primeiras Coisas”. Lisboa. Quetzal, Língua Comum, 2013, 301+ [7] pp..
Algumas daquelas, aparentemente desaparecidas no corpo da história, a ela voltam, nela se entrelaçam e (re)elaboram: engrandecem-na, tornam-na cada vez mais apelativa, fazem-na crescer: “O homem sentado ao balcão virou-se. Veio devagar até à minha mesa. Era ele, Abel, o Ho Chi Minh, como alguns lhe chamavam, o Mandarim. (…) Para mim era uma surpresa reencontrá-lo. Pensei que tivesse morrido.” – Pp. 51, 52.
Há diversas personagens indicadas, curiosamente, apenas pelo nome, a sua primeira construção, aliás, na aparente solidão da designação de cada uma – pp. [222], 223. Solidão, contudo, logo desfeita porque elas remetem para culturas, línguas e ideologias plurais: “Tatiana Filipa, Yuri; (…) Abdul; Denise, Vera Michelle, (…) Gonga N’Zagi; Rúben Filipe; Lenine, Inês Suleimane, (…) Álvaro M’Betetela de Carvalho Lutukuta.”, na dimensão de Portugal, na dimensão dos caminhos e buscas do Homem.
Culturas, línguas e ideologias – no espaço fechado, abafado, socialmente desvalorizado do Bairro Amélia, símbolo de parte da nossa região, esquecida, não poucas vezes escarnecida pelos que têm tido o dever, renegado, de a desenvolver –: “A decadência – talvez haja uma palavra mais branda – conta uma história que não é apenas a história de
Eva e não é tão grandiosa como a história do Bairro Amélia; é a narração de um fragmento de vida, entre um zénite e a sua deterioração, como se Eva se estivesse a desfazer à nossa frente e a utilidade do fragmento fosse apenas a de ilustrar a precariedade dos negócios, a transitoriedade das circunstâncias, a fragilidade das pessoas.” – P. 119.
Eva, o Bairro Amélia, a Margem Sul (marginalizada ao longo de séculos), símbolos dos menos favorecidos de um Portugal, quiçá agónico, a desfazerem-se à frente de quem foi eleito para os tornar mais felizes sem o executar, apesar dos votos nesse sentido, em execrável ofensa à Democracia.
Vão uns, vêm outros; o que fizeram / o que fazem pelo Bairro Amélia?
1. “ATÉ ESSE ESPLÊNDIDO ANO em que o Bairro Amélia foi elevado a freguesia e em que o magnífico primeiro-ministro passeou a sua aura de D. Sebastião pelas ruas sujas do bairro dos retornados, o Carnaval eram três dias de folia medieval (…). Júlio Soares, candidato à presidência da futura Junta de Freguesia, (…) prometeu um magnífico desfile de Carnaval (…). – P. [81.]
2. “famílias de lágrimas nos olhos a agradecer ao Senhor Doutor Professor que era tão bom, que dava casas ao povo e aumentava as reformas” – P. [240.]
Nada fizeram / Nada fazem: o Bairro continua igual a si próprio, desapoiado, iludido, violento: “Quando soube que a mulher passava as tardes de domingo no Copacabana, esperou-a no parque de estacionamento e quando ela saiu, o rosto iluminado por um contentamento breve, outra vez adolescente, disparou três tiros à queima-roupa, que a deixaram caída numa poça de sangue (…). Um último tiro, quando já estava morta, desfez-lhe o crânio.” – P. 95.
Espaço e tempo no Bairro Amélia / do Bairro Amélia, em omnipresença assim referida:
1. “QUANDO, EM FINAIS DOS ANOS NOVENTA, voltei costas ao Bairro Amélia, com os seus estendais de gente mórbida, a banda sonora incessante das suas misérias, nunca pensei que a vida me devolveria ao ponto de partida.” – P. [11.]
2. (…) “Regressar assim foi uma espécie de rendição, um cessar-fogo forçado.” – P. 13.
Rendição nos sons, infinitos, do Bairro: “A MELODIA CHUVOSA DO AMOLA-TESOURAS soprada numa gaita-de-beiços; os gritos de Maria da Cruz a chamar os filhos para o jantar; o martelar incessante da música de feira com o epicentro no recinto das festas; (…) o peido celeste dos caças F-16 que rasam as torres do bairro Amélia e aterram na Base Aérea lá para o Montijo, no outro lado do mundo; (…) o pingar contínuo de uma torneira por reparar; as cantilenas infantis em coros de obediência e tédio; o tac-tac apressado dos sapatos de salto alto na tijoleira em noites de farra; o sibilar nocivo das lacas e dos desodorizantes; o uivo rotundo dos barcos do Barreiro; (…) – pp. [258]-260. (Sons que depauperam, desvendam, escancaram vidas.)
Dramas, comoventes, na ausência de esperança das gentes do Bairro, associados por quem as conta a horríveis acontecimentos do século vinte:
1. “Uma história que sempre me fascinou foi a da derrota dos japoneses na II Guerra Mundial, sobretudo a destruição de Hiroxima e Nagasáqui.” – P. 13.
2. Outro, também tristemente célebre, o naufrágio do “Titanic”: “Especializei-me em catástrofes (…): o dia limpo, as crianças a caminho da escola, a partida do porto de Southampton no dia 10 de Abril de 1912, o mar calmo, o clima festivo de sexualidade desenfreada, depois as primeiras nuvens no horizonte, os indícios da desgraça, o embate no icebergue, o clarão mortal, as primeiras vítimas da então chamada praga gay. – P. 14.
Ocorrências que se associam às dores do Bairro, que avivam as do narrador e nelas se fundem: “O que é para um homem a vergonha abstracta de um país quando comparada com a sua vergonha pessoal, as dores silenciosas da sua humilhação? No grande plano da História, o sofrimento é sobrevalorizado pelo colectivo e diluído na multidão. No plano fechado do indivíduo, as angústias têm de ser digeridas a frio, na solidão, sem que ninguém nos possa valer. – P. 15.
Várias delas arrastadas pela descolonização:
1. “Dona Cremilde veio de Angola na Ponte Aérea. (…).
(…) Não era despicienda a questão do património, porque dona Cremilde, que se soubesse, nunca o teve. Tendo pouco, comportava-se como alguém que tivera muito, uma riqueza imaterial.” – Pp. [97]-98.
2. “’quando era pequeno o cabelo era liso e loirinho, loirinho como o tio dele, o Mário. Morreu novo, ainda em Angola […] Não, não. Foi um acidente de carro. Tinha dezanove anos (…). Nós viemos para Portugal no dia 19 de Setembro de 1975, sexta-feira (…). Deixei tudo, menino. Ficou lá tudo. Trazíamos a roupa do corpo. (…) Ficámos todos no Hotel Roma. Tivemos sorte porque a Alda e o Januário também estavam ali. Foi ela que nos disse que havia umas casas, no outro lado, no Barreiro. Vim eu com o João Mário e o meu cunhado de barco.’” – Pp.169-170.
(O Barreiro funciona como hiperonímia da área onde nascemos / vivemos.)
Um Bairro com mescla de gentes, culturas, religiões:
“Pastor Joaquim
QUANDO O PASTOR JOAQUIM VEIO PARA o Bairro Amélia a Igreja Evangélica ainda ficava lá no alto, em funcionamento numa precária construção de madeira. Os crentes subiam a custo os degraus íngremes de cimento, a expiar pecados no simulacro de Gólgata de onde se via o bairro com as suas abjecções expostas, os trastes na varanda e os lençóis brancos ou rendados nos estendais, o lixo à porta dos cafés e o campo da bola vazio, e encontravam um homem corpulento, de voz trovejante, um descendente moderno dos gigantes do Génesis.” – P. [228.]
A fealdade como uma espécie de castigo bíblico do Bairro e das suas gentes: “Ao olhar para a casa outrora habitada pela família Machado, revi, como se olhasse para um caleidoscópio, os dentes tortos da filha mais nova, a bela Susana, a infância, as mãos sujas de terra, o Espanha-Argélia do Mundial de 1986 em diferido na RTP2, a minha mãe a roubar rosas de uma sebe com o corta-unhas que trazia na bolsa.” – P. 24. Acontecimentos fora do Bairro, a ele chegam ou dele partem.
A incompletude dos que fazem a(s) história(s) doída(s):
1. Nos dentes, deformados, de Susana.
2. Nos dias, péssimos, de Cordeiro: “(…), acamado, as feridas a supurar, as senhoras do apoio domiciliário a virarem-lhe o corpo pesado na cama, ele a gemer, elas a contrair o rosto perante a carne viva” – p. [96.]
3. No desgosto e na vida, subitamente transformada em atrocidade, de Rui: “Rui perdeu o filho e a mulher num acidente de carro, na recta da Vila Chã, vindos da festa da Penalva. Tinham uma vida tão boa, ele meteu-se na bebida, as mãos tremiam-lhe.” – P. 154.
4. No pedinte que entristece e enclausura (ainda mais?) o narratário: “Cansado – era muito gordo, de uma gordura doentia – sentava-se nas escadas a comer uma carcaça seca ou, em certas ocasiões felizes, uma tigela de sopa. Limpava a boca às costas da mão e arrotava com agrado. (…) Depois, sem que se saiba ao certo quando, deixou de aparecer e nunca mais voltou.” – P. [234.]
No narrador que constrói a mãe, a avó, o avô mas não (?) o pai (quase ausente? Elidido?):
1. Na intersecção, frásica, da terceira com a primeira pessoa do singular, na intersecção do real com o imaginário: “DEVE TER TRÊS ANOS. Está no limiar da cozinha dos avós. O pai está perto dele. É um ser gigantesco, tão grande que nem lhe vê o rosto. É uma massa escura e toda a luz que a criança guarda na memória vem da sua voz. (…) O homem enorme, o pai enorme, (…) durante anos não será mais do que a voz que diz estas palavras redondas que perfuram a custo a carne da criança:
“‘Esta faca é para matar a tua avó.’” – P. [121.]
2. Na redundância, mais à frente: “‘Esta faca é para matar a tua avó.’” O comentário curto, o adjectivo “vazio” a preenchê-lo: “Este homem vazio, meu pai.”
Eis a Obra de que precisávamos, um livro ímpar, um espantoso políptico que nos apresenta, com veemência, a verosimilhança / a verdade do que não queremos apreender / sentir / ver; a que nos cerceia as falsas esperanças: aqui, no País (no Mundo?).
Eis a Obra dedicada aos que penam, tergiversam, desaparecem, não surgem mas são evocados.
Eis a Obra.
Manuela Fonseca
(1) Bruno Vieira Amaral, “As Primeiras Coisas”. Lisboa. Quetzal, Língua Comum, 2013, 301+ [7] pp..














