Primeiro Cresci no Coração *(Um Conto Justamente Premiado)
Por Manuela Fonseca
Barreiro

Por Jornal Rostos
Conheci o Luís Amorim em Bruxelas, em 2005, num chá que ele e a então minha única nora – que, gentil como sempre, me assessorou, voluntariamente, num trabalho Erasmus, na Katholieke Hogeschool Leuven –, Aurora Mousinho, ** agendaram, amigos que são e antigos colegas na Intercultura - AFS Portugal. Encontrámo-nos numa esquina da Grande Place e caminhámos até uma “pâtisserie” situada numa praceta das proximidades. Aí, Luís matou saudades de Portugal através das palavras da Aurora e foi muito cordial comigo.
Enquanto comíamos bolinhos e bebíamos deliciosas infusões de raros aromas, Amorim disse-nos que, mais tarde ou mais cedo, seria pai – ele e o marido queriam dar um passo importante nas suas vidas: adoptar uma criança.
Pela simplicidade, sinceridade, fluência do discurso, enciclopédia pessoal, pelo principal desígnio pessoal que acompanhava as metas profissionais, simpatizei logo com aquela pessoa, ainda jovem, que procurara melhor qualidade de vida na acolhedora e desenvolvida Bélgica, como opositor a um concurso para Técnico Superior da União Europeia (sempre que verbalizo ou penso que muita gente, sua deputada ou funcionária, não cumpre os deveres para que foi mandatada, lembro Luís Amorim, honesto e trabalhador, certamente como muitos outros que tentam o progresso da instituição e, concomitantemente, do nosso Continente) que lhe deu muito trabalho e lhe foi, felizmente, favorável. Está, há vários anos, no Conselho da União Europeia e honra, com essa actividade, Portugal e todos os seus cidadãos, a maioria (não será necessária uma estatística da decência portuguesa, pesem os constrangimentos que não deixam o nosso povo tranquilo, para termos a certeza da sua grandeza), bem como outras pessoas de lisura idêntica à nossa que acolhemos e adoptámos como compatriotas.
Continuei a perguntar pelo Luís Martins e soube da alegria e grande responsabilidade dele e do companheiro pela pequenita de que são pais, menina muito amada pelo casal que a tem e educa no maior carinho.
Tive a surpresa, no último Natal, da prenda da Aurora, ela que, amante de livros, habitualmente mos oferece mas, então, fê-lo com uma publicação da ILGA, vencedora, entre dezenas de trabalhos apresentados, do primeiro prémio do concurso lançado pela Associação, uma muito bem redigida e bela narrativa, “Primeiro Cresci no Coração” que teve o apoio POPH / QREN e contou com a participação de um júri composto por individualidades de diferentes áreas. Ora o autor é o feliz pai Luís Amorim, sob o sugestivo nome de Filipe de Bruxelas, criador de um livro para crianças e para todos os que, adultos, a guardam na sensibilidade.
Quando a minha neta entender, será a primeira que lhe lerei e mostrarei – as ilustrações de Pedro Miguel Rosa acompanham, muito bem, a tessitura das palavras e ser-lhe-ão, com certeza, perceptíveis: lá figuram uma bebé de origem afro-americana, chegada de avião a Bruxelas, que não pôde viver com a mãe natural por dificuldades desta, há muito esperada pelos pais, culturalmente diferentes no ensinamento da diversidade da Vida, ambos carinhosos, amorosos, encantados com a progenitura (o marido de Luís Amorim é sueco).
E há as duas avós “Uma sabe dizer rimas e a outra sabe estalar os dedos.” – P. 24. Vivendo em locais distantes um do outro, junto da neta mostram a diversidade e os bons afectos pela pequena, a Lilás – p. 5.
O resto fica para os estimados leitores verem em “Primeiro Cresci no Coração”.
Por mim, penso em mentalidades de gente com responsabilidades (?) políticas, que, na imensa estupidez, egoísmo e desconhecimento da realidade, impedem, ainda, a co-adopção que fará tantos bebés, tantas crianças felizes! Que terão, em breve que / de ser ultrapassadas, o que acontecerá visto que nós crescemos nos corações dos nossos pais e, por isso, faremos com que os doentes de falha de sentimentos e sabedoria cumpram os deveres, por muito que o egocentrismo de que são portadores, que vergonha para eles, ponha travões, continuados, ao desenvolvimento do País.
Manuela Fonseca
Referências
* “Primeiro Nasci no Coração”. Lisboa. Associação ILGA Portugal, Um Conto Arco-Íris, Projecto Porto Arco-Íris, Programa Operacional Potencial Humano /QREN, 2013, 32 pp..
** Minha consultora neste texto.













