CRITICAS E CRÓNICAS – «Um momento no cinema»«Aparelho voador a baixa altitude» de Solveig Nordlund
Por Diogo Coelho
Barreiro
O futuro, aparentemente, ficou acorrentado no passado. Preso a um conjunto de príncipios, de estruturas que devido à lenta destruição do ser humano foram esquecidas. Na verdade, o tempo neste filme parece não existir. A sociedade vive conformada, reprimida o suficiente para não querer agir.

Por Jornal Rostos
Hoje vamos falar finalmente, e com uma análise extensa, de um filme português altamente desvalorizado - Aparelho voador a baixa altitude, de Solveig Nordlund e com Miguel Guilherme e Margarida Marinho nos principais papéis - naquele que é um dos poucos exemplos de ficção cientifica feita em Portugal e com uma qualidade bastante assinalável:
"Futuro não muito distante. Devido a intensas manipulações genéticas, muitas mulheres perderam a capacidade de engravidar. Quando conseguem, os bebés gerados são mutantes (ou zotes), seres deformados, sem visão e apenas sensiveis a cores fluorescentes. O governo, declaradamente totalitário, decide que todas as mulheres que engravidam, devem submeter-se a um exame e caso o feto seja um zote deve, por lei, ser abortado. Como consequência, a população mundial veio a decrescer de ano para ano, o que levou a uma desertificação de várias zonas e centros urbanos. No meio de toda esta problemática encontramos o casal André e Judite, que decide, falsificando o exame, embarcar numa viagem para um hotel isolado chamado Vénus com a determinação de terem o seu filho sem o conhecimento das autoridades."
Esta é a história base do filme: uma adaptação de uma short-story de um dos mais importantes autores de ficção cientifica e obras de cenários pós-apocalipticos, J.G. Ballard. Um facto bastante curioso é que, de todas as obras de Ballard que foram adaptadas ao cinema (e incluem-se aqui filmes como o Império do Sol de Spielberg e Crash de David Cronenberg), a sua favorita é sem dúvida esta produção portuguesa com base numa pequena história futurista que Ballard tinha escrito em 1976. E, diga-se de passagem, ele tem toda a razão pois trata-se de um filme muito bem feito e estranhamente objectivo tendo em conta os "pecados habituais" no nosso cinema. Aliás, salvo uma cena em que se sente um claro "déjà vu" do Cinema Português no seu pior, diria até que se trata de um dos mais bem conseguidos projectos cinematográficos nacionais dos últimos vinte anos. Passando à análise mais especifica, à primeira observação trata-se de um filme muito bem cuidado, com um claro objectivo de tratamento visual e de subtileza que não retira ritmo ou interesse à narrativa presente no decorrer dos oitenta e poucos minutos. A sensação, inerente ao filme, de estranheza e de desconforto atribuem a todos os cenários uma componente onirica. As personagens movem-se como se um vazio dominasse todos os movimentos e expressões, apercebendo-se a cada dia que passa que o fim do mundo está no virar da esquina, à espera de revelar a sua própria existência e consagrar a condenação inescapável de todos os humanos que ainda vivem. A fotografia é, muitas vezes, de tons neutros contrastando outras vezes com uma maior exuberância mas sempre com um detalhe constante de um futuro destruído, de velhas reliquias e de apodrecimento. Um futuro de degradação e de cimento velho, deserto e sem esperança.
A relação entre o espaço interior e o exterior é pouco esclarecida pois o contraste não é suficientemente assinalável. Os carros apresentam-se enquanto modelos antigos, no entanto com tons claros e reluzentes que salientam na imagem o paralelismo constante com a degradação à volta. O futuro, aparentemente, ficou acorrentado no passado. Preso a um conjunto de príncipios, de estruturas que devido à lenta destruição do ser humano foram esquecidas. Na verdade, o tempo neste filme parece não existir. A sociedade vive conformada, reprimida o suficiente para não querer agir. Mas, uma dose de esperança sobrevoa (literalmente) durante o decorrer de todo o filme, consumando uma constante lembrança de que o produto do passado ainda pode "acreditar num bom futuro" se este, de facto, se chegar a consumar. Aqui, existe de facto bom cinema, não cinema português de autor, apenas e só bom cinema.
"Futuro não muito distante. Devido a intensas manipulações genéticas, muitas mulheres perderam a capacidade de engravidar. Quando conseguem, os bebés gerados são mutantes (ou zotes), seres deformados, sem visão e apenas sensiveis a cores fluorescentes. O governo, declaradamente totalitário, decide que todas as mulheres que engravidam, devem submeter-se a um exame e caso o feto seja um zote deve, por lei, ser abortado. Como consequência, a população mundial veio a decrescer de ano para ano, o que levou a uma desertificação de várias zonas e centros urbanos. No meio de toda esta problemática encontramos o casal André e Judite, que decide, falsificando o exame, embarcar numa viagem para um hotel isolado chamado Vénus com a determinação de terem o seu filho sem o conhecimento das autoridades."
Esta é a história base do filme: uma adaptação de uma short-story de um dos mais importantes autores de ficção cientifica e obras de cenários pós-apocalipticos, J.G. Ballard. Um facto bastante curioso é que, de todas as obras de Ballard que foram adaptadas ao cinema (e incluem-se aqui filmes como o Império do Sol de Spielberg e Crash de David Cronenberg), a sua favorita é sem dúvida esta produção portuguesa com base numa pequena história futurista que Ballard tinha escrito em 1976. E, diga-se de passagem, ele tem toda a razão pois trata-se de um filme muito bem feito e estranhamente objectivo tendo em conta os "pecados habituais" no nosso cinema. Aliás, salvo uma cena em que se sente um claro "déjà vu" do Cinema Português no seu pior, diria até que se trata de um dos mais bem conseguidos projectos cinematográficos nacionais dos últimos vinte anos. Passando à análise mais especifica, à primeira observação trata-se de um filme muito bem cuidado, com um claro objectivo de tratamento visual e de subtileza que não retira ritmo ou interesse à narrativa presente no decorrer dos oitenta e poucos minutos. A sensação, inerente ao filme, de estranheza e de desconforto atribuem a todos os cenários uma componente onirica. As personagens movem-se como se um vazio dominasse todos os movimentos e expressões, apercebendo-se a cada dia que passa que o fim do mundo está no virar da esquina, à espera de revelar a sua própria existência e consagrar a condenação inescapável de todos os humanos que ainda vivem. A fotografia é, muitas vezes, de tons neutros contrastando outras vezes com uma maior exuberância mas sempre com um detalhe constante de um futuro destruído, de velhas reliquias e de apodrecimento. Um futuro de degradação e de cimento velho, deserto e sem esperança.
A relação entre o espaço interior e o exterior é pouco esclarecida pois o contraste não é suficientemente assinalável. Os carros apresentam-se enquanto modelos antigos, no entanto com tons claros e reluzentes que salientam na imagem o paralelismo constante com a degradação à volta. O futuro, aparentemente, ficou acorrentado no passado. Preso a um conjunto de príncipios, de estruturas que devido à lenta destruição do ser humano foram esquecidas. Na verdade, o tempo neste filme parece não existir. A sociedade vive conformada, reprimida o suficiente para não querer agir. Mas, uma dose de esperança sobrevoa (literalmente) durante o decorrer de todo o filme, consumando uma constante lembrança de que o produto do passado ainda pode "acreditar num bom futuro" se este, de facto, se chegar a consumar. Aqui, existe de facto bom cinema, não cinema português de autor, apenas e só bom cinema.













