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O Casal Balseiro; Mariana e «Sonhos com Pé»Por Manuela Fonseca
Barreiro

“Sonhos com Pé”: livro de simplicidade angélica, o sonho e o realismo entrelaçados: “Mantive-me em silêncio. Como num ecrã, o meu poema permanecia fremente. O zumbido cor de mel envolveu-me e perguntava: ‘Ainda pensas que estás a sonhar?’

9 min de leitura
O Casal Balseiro; Mariana e «Sonhos com Pé» Por Manuela Fonseca Barreiro

Por Jornal Rostos

Sou amiga de Mariana e Manuel Balseiro há mais de quatro décadas. Aliás, facto curioso: ela conhece-me desde a infância: é da Mina de S. Domingos e lá vivia, então, quando, com os progenitores, eu visitava familiares na terra que a minha mãe, já nascida no Barreiro, sempre disse ser a dela.
(A Mariana viu-me, eu muito pequena, certamente com os meus pais e, ou, a prima Claudina Madeira que, com o marido, então namorado, companheiro de longas décadas, José Damásio Ribeiro, conhecido estudioso da Mina, mantém laços afectivos com a Mariana).

Nos alvores de Abril, trabalhei com Manuel Balseiro no Liceu do Barreiro e na Escola Secundária de Santo André e, em cada dia, a minha admiração pelo colega cresceu. Descobrimos uma fraternidade que dura até hoje.
Foi com muita alegria que vi o “casal Balseiro”, com foi dito na cerimónia de entrega, receber, em 2012, a condecoração “Barreiro Reconhecido - Educação”. Fiquei feliz com a homenagem, merecida, que a Autarquia lhe fez, bem como, evidentemente, aos outros medalhados.

Manuel Balseiro, professor aposentado de Filosofia, dedica parte do seu tempo, meritoriamente, na tradução de livros em Braille para a ACAPO, a Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal.
Quanto a Mariana, ceramista, galardoada pela Fundação Raquel e Martin Sain, e escritora – faz destas duas Artes a maneira de nos educar: se os objectos em barro, trabalhados com mestria, são um mundo onírico, que (me) lembra o universo de Dali, os dois livros que escreveu transmitem-nos a expressão estética através das palavras: “Horizonte Raso”, texto policopiado de 1972, inédito, prefaciado pelo saudoso Bernardo Santareno, e “Sonhos com Pé”, sob o nome de Mariana Monte Real (1), que, nove anos depois de ser apresentado ao público e de “rostos.pt” (2) lhe ter dado o devido relevo, reencontrei e releio.

Gosto de mergulhar, de novo, neste texto de Mariana Balseiro, gosto de rever, mentalmente, a Mina de S. Domingos, agora que esta terra do Concelho de Mértola, aldeia de sobreviventes heróicos ao encerramento do seu tecido produtivo, a perfazer cinco décadas – já nos tempos de laboração, a maioria da população sobrevivia, que remédio, à desavergonhada exploração financeira – é alvo de estudos geológicos, geográficos, arqueológicos e de rotas turísticas que a fazem continuar presente na investigação, turismo e viagens portugueses (3).

Começo pela capa e contracapa de Gonçalo Ribeiro, muito bonitas e alusivas ao corpo de texto, predomínio azul, complementado por branco e preto; aludirão, respectivamente: à narradora e à sua infância na Mina; à Tapada Grande e à abundante fauna piscícola que possui.

Eis a dedicatória do livro numa alusão à transcendência [p. 5]:

A meus pais que me esperam
Com amor

Depois dos progenitores, recordados e amados, a Mina: “À minha terra natal, a Mina de S. Domingos, levo o meu protesto e digo-lhe que nunca foi aldeia, pois nasceu vila. Agora, roubada nas suas riquezas, podem, sim, chamar-lhe aldeia (…). E às gerações que me sucedem, lembro que nas margens do lago por nós amado, podem, ao entardecer, imbuir-se de alento, alívio na luta e de paz, paz presente em mim, nesta alegria de crer!” (P. 7.)

As unidades narrativas de espaço e tempo fundem-se, na quietude do lago: a atrás citada Tapada Grande, cenário de sossego e beleza maiores deste País, de vez em quando trazido até nós por canais televisivos.

“Sonhos com Pé”: livro de simplicidade angélica, o sonho e o realismo entrelaçados: “Mantive-me em silêncio. Como num ecrã, o meu poema permanecia fremente. O zumbido cor de mel envolveu-me e perguntava: ‘Ainda pensas que estás a sonhar?’

Sonhar…eu?... Bom, gaguejei. Quase instantâneo, o friso formou-se de novo numa dança de traços luminosos. As palavras surgiam e as frases sucediam-se, despertando imagens, a avivar recordações.” (P. 15.) Surgidas, misteriosamente, um pouco antes para deleite da narradora omnisciente da história. [Pp. 11-13.]
“Sonhos com Pé” é um trabalho eminentemente religioso: As letras que aparecem à criança-narradora levam-na a imaginar os caminhos da sabedoria, maximizada através da “Bíblia Sagrada, a Palavra de Deus, que sustenta o mundo.” (P. 18.)

Numa Língua Portuguesa quase sempre escorreita, adjectivada, ponto alto das funções poética e expressiva, a menina cria um jardim que a acompanha, em cenário diverso, até adulta (pp. 21-41), onde introduz a personagem de Naroio e a narradora se designa por Nicha.

“ – Na verdade nem tu és Adão nem eu sou Eva, mas este jardim foi criado, um dia, para nós.
– Quem sabe, Nicha!
– Que bom estarmos aqui… É tão calmo, tão recolhido…
– É um belo cantinho para me falares dos teus sonhos, quase sempre voadores…” (Pp. 21 - 23.)
O diálogo prossegue, entusiasta, quase surrealista:
“ – Vamos para o tear?
– O tear, qual?
– O maior, Nicha! Colcha, manta ou toalha?
– Olha, colcha, toalha e manta!
(…)
– Então, Nicha, em pinceladas de mar e oiro, que um dia será restolho, de límpido azul sempre coberto. Ondas de azul e oiro, as cores da nossa terra do Sul.”
Maravilhoso o encontro e o diálogo da narradora, então menina, com uma velha oliveira, animizada: “Sim, os meus ramos são símbolos de paz. Do meu fruto se extrai o azeite, alimento de luz, presente nos altares em honra e louvor do nosso Deus. (P. 29).
A religiosidade, com vemos, predomina – surge na já abordada Dedicatória e percorre o livro, nem sempre com a protagonista temente à Entidade, habitualmente tão amada: “O Deus que minha mãe me ensinara amar, era agora injuriado no meu íntimo. (P. 59.) Em breve, no regresso a Ele: “como uma iluminação, todo o erro e rebeldia se desnudaram para se diluírem no perdão e misericórdia de Deus. Impelida pela reconciliação, vivificada pela alegria do Espírito, retomei a caminhada. (Pp. 59-60.)

Há, também, uma leitura crítica, em “Sonhos com o Pé”: “Há governantes que se comportam como se o planeta fosse o seu rancho. São fazendeiros da terra mãe, boa e farta, que vê tombar sobre o seu rosto, como um ultraje, filhos seus morrendo à fome.” (P. 61). Alguns anos depois do lançamento deste livro, a verificação da narradora continua, infelizmente, actual, com populações sacrificadas em todo o lado por gananciosos que muitos políticos protegem e desculpam, tão culpados como os detentores de poderes financeiros e militares corruptos.

Da realidade para o sono / sonho, o texto leva um gato, Romeu, ao encontro da narradora (pp. 71-91), num diálogo em que ele, personagem de fábula, se exprime assim: “Sabes, estou enamorado duma gatinha muito bonita. Ah, ah… Vou passar a chamar-lhe Julieta. (P. 77).” E ela expande recordações da infância que se relacionam com o felino doméstico: “Para nos despedirmos da Xanoca, lembrarei ainda a comovente atitude de confiança e entrega a minha mãe. Quando sentia que era chegada a hora de dar à luz, ia procurar a sua dona e, com expressivos miados, participava-lhe e pedia a sua atenção e protecção.” (Pp. 85-86.) O sono aproxima-se do fim: “Romeu estava sentado sobre o teclado, agora encostado a mim. Eu acariciava-o, sentindo-lhe o ronronar. Agora sim, oiço a campainha da porta que ressoa alegremente.” (P. 91.)

A Mina de S. Domingos era uma terra de profundas diferenças sociais e, mesmo entre as crianças, raramente havia interacções sociais – os filhos dos ingleses e dos quadros portugueses que os serviam mal conheciam os pequenos sem privilégios de berço: “No centro do grupo, Isabel Mérida fixou-me os seus olhos claros, frios e desdenhosos como nunca.
‘Ela não tem nada que estar aqui no nosso grupo, não é da nossa classe’.
Todos os olhares se fixaram em mim, simpáticos uns, indiferentes outros. Então o Mikey veio em meu auxílio (…). Falou (…):
‘Ela poder brincar! Eu gostar de tu’ e para o grupo: Ela ter casaco igual ao nosso…’” (P. 101.)
(Na Mina, no Globo, o movimento, infelizmente, mantém-se: se houver um casaco parecido com o autêntico, excelente símbolo do poder –, quem pode usá-lo talvez não seja discriminado.)
Encontramos o belo horrível proporcionado por uma trovoada medonha: “Na central eléctrica tinham desligado os geradores. A treva era total. De relâmpago a relâmpago, o mundo emergia. Parecia projectar-se. (…) Parecia que acalmava a tormenta, quando um vento forte se levantou, trazendo consigo chuva torrencial.
(…) A sentinela recolhera-se na guarita e espreitava pelo pequeno postigo. Do chapinhar no solo alagado, uma voz masculina perguntou à sentinela: ‘ Podemos abrigar-nos aqui, um bocado’?
‘Entrem, rapazes. Isto está mau!’

Nesse momento, o mais fulgurante relâmpago de que tenho memória, seguido do estrondo numa fracção de segundo, fixou, remanescente, para sempre na minha retina, aquela visão fantástica.” (Pp. 104-105.)
A caminhada para outra realidade: o desejo de um Portugal mais nobre, no contexto do apoio aos invisuais através da Fundação Raquel e Martin Sain.
“De ora avante, podemos sonhar com a nossa integração social. Abre-se todo um mundo de trabalho e estamos certos de que grandes capacidades irão revelar-se. A mendicidade, a música como único recurso pertencerão ao passado.
– E a vergonha é que, por ironia tudo devemos a um casal estrangeiro, Raquel e Martin Shain.
– E que luta, Naroio, tiveram que travar com o governo de Salazar para conseguirem o que conseguiram!... (…)
– Sim Nicha. A Fundação representa um farol de esperança para todos os cegos.” (P. 117.)

Deixo as últimas páginas do livro para os comentários dos leitores. Porque hoje é dia 25 de Abril e olho para este País, com a sua mais bela data vilipendiada por uns vendidos, sempre adiado e sempre em esperança. Através de “Sonhos com Pé” que O / nos fazem sobreviver.

Manuela Fonseca

Referências
(1) Mariana Monte Real, “Sonhos com Pé”. Lisboa, s/ Editora, Gráfica de Coimbra, Lda, 2004, 137 pp..
(2) Cf. https://www.rostos.pt/cidade-com-rostos/60133-sonhos-com-pe-trouxe-emocao-e-memorias-partilhadas , 5 de Março de 2005.
(3) Cf. www.facebook.com/pages/Amigos-da-Mina-deS%C3%A3o-Domingos/134626136591623.

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